Por Beatriz Herkenhoff *

Fotos: Carlos Monteiro

Amo passar os meses de janeiro e fevereiro em Guarapari (ES). Apesar de morar em uma cidade litorânea, Vitória (ES), Guarapari oferece momentos únicos. 

Destacaria o contato permanente com a natureza. Sinto-me participante de um ciclo que integra tempo, espaço e universo de forma intensa e dialógica.

Na cidade grande não conseguimos ver o brilho das estrelas. Dependendo de onde moramos, perdemos o espetáculo do nascer diário do sol. Temos que nos deslocar para apreciar a lua cheia que nasce altiva e imponente. 

Em Guarapari, da varanda da minha mãe, vejo o sol nascer e se pôr. Acompanho a trajetória da lua crescente, cheia e minguante. Fico extasiada com a beleza do céu azul com as nuvens brancas que fazem lindos desenhos. As palmeiras indicam se o vento é nordeste ou sul. As chuvas e tempestades também ficam mais próximas e, às vezes, assustam.

Fico horas contemplando o mar em seus movimentos, mistérios e mudanças: ora agitado, ora sereno, ora transparente, ora mais escuro. 

Gosto de tomar o café da manhã na varanda, momento em que faço minhas orações e converso com Deus e com a natureza. 

Neste novo ano que se inicia (2023), pergunto-me: qual o novo que existe em mim e precisa desabrochar? Que sementes ainda estão guardadas e darão belos frutos? Que caminhos seguir? Que horizontes abrir? Por onde recomeçar? Como amar mais? Como inserir-me em um coletivo e colocar-me a serviço? Como fazer diferença nesse mundo tão carente e desigual? Como contribuir para um Brasil mais humano e justo?

Tenho por hábito acordar muito cedo e por isso fico deslumbrada com a luminosidade do sol com seus reflexos na água em tons dourados e em outros momentos prateados em sintonia com o céu em tons vermelhos, amarelados e dourados. Sinto-me privilegiada por poder desfrutar dessas maravilhas oferecidas por Guarapari. 

E no silêncio do meu ser peço que esse privilégio aumente minha responsabilidade e compromisso com aqueles que menos têm. Quem muito recebe, muito tem a partilhar. 

Que esse mergulho no mar que cura e na natureza que renova gere em mim humildade para agradecer e coragem para ir sempre além naquilo que posso deixar como legado de amor e serviço.

E tem algo que Guarapari me oferece que é único. Às 7 horas já estou caminhando na orla do centro. E o maior impacto é encontrar as dezenas de garis varrendo as calçadas e tirando o lixo das praias. Gosto do prazer, da harmonia e da alegria como trabalham. 

Cantam, conversam e silenciam. Concentrados em seu ofício, mas sempre atentos para os colegas. Trabalham em cooperação. Sabem que é um trabalho árduo e se entram em sintonia, tudo fica mais fácil.

Ao caminhar, eu interajo com cada gari. Sempre dou um bom dia que respira gratidão pelo trabalho que realizam. Percebo que às vezes ficam surpresos, pois muitos passam como se eles fossem invisíveis. E eu me admiro, pois a visibilidade é plena. As roupas são de um amarelo vivo. E a quantidade de trabalhadores no mesmo espaço dá uma visibilidade ímpar.

Paro para conversar e relatam que chegam às quatro horas da madrugada para limpar a cidade. São divididos em equipes que se espalham pelas diversas praias de Guarapari. Gostam do seu trabalho, sentem orgulho por deixarem a cidade limpa.

Quando digo bom dia, todos sorriem. Felizes por serem vistos e reconhecidos. Respondem com um bom dia que é mais forte e potente do que o meu. E minha alma se enche de alegria.

Meu livro recém lançado, “Crônicas sobre a vida em qualquer tempo”, foi ilustrado com fotos lindíssimas de Carlos Monteiro. Muitas fotos são de Guarapari. Na ocasião, Carlos Monteiro tirou fotos dos garis trabalhando que ilustram esta crônica. 

Quando meu filho Stefano realizou um estudo de caso com catadores de materiais recicláveis de Salvador, Bahia, fiquei muito sensibilizada e emocionada com suas histórias. Despertei para a importância do trabalho com materiais recicláveis e sobre como somos indiferentes aos trabalhadores que encontramos cotidianamente.

Sua dissertação de mestrado com o título: “Garimpeiros urbanos: a valorização do “lixo” e a desvalorização do trabalho” tocou-me mais ainda para estabelecer um vínculo e tornar visíveis todos aqueles que trabalham com o lixo e com a limpeza urbana.

Sigo em frente no meu caminhar e encontro com os trabalhadores informais que vendem água de coco, cerveja, drinks, salgados. Ainda é muito cedo, mas é a hora em que eles estruturam o seu espaço de trabalho. Carregam isopores pesados com gelo e bebidas, dezenas de cadeiras, boias e barracas para alugar. 

Gosto de cumprimentá-los e fico em sintonia com o seu vaivém. Admiro a luta que travam para garantir o seu ganha pão. Realizam um trabalho informal, sem carteira assinada e sem direitos. Mas trabalham com amor, alegria e prazer. Oferecem o melhor para os turistas e moradores.

Quem chega na praia a partir das 9 horas ignora toda logística que garante que as praias estejam limpas e que todos tenham tranquilidade e prazer durante todo o dia.

Que possamos renovar nosso jeito de ser e viver a partir da natureza e dos movimentos em torno dela que nos falam tanto.

Que possamos quebrar a frieza que nos afasta daqueles que realizam um lindo trabalho que merece ser reconhecido e valorizado.

Que o amor se torne visível! 

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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