Por Beatriz Herkenhoff*
Foto em destaque: Carlos Monteiro
O que gera em nós esperança, iniciativa e movimento? Por que alguns diante de perdas ficam paralisados e sem rumo? Enquanto outros em situações semelhantes saem fortalecidos e ressignificam sua existência?
Somos diferentes em nosso jeito de enfrentar as adversidades. Alguns entram em depressão, desanimam, colocam-se como vítimas, outros dão a volta por cima, abrem novos horizontes e seguem em frente com garra e esperança.
Tive a oportunidade de conhecer Consuello Mello Teles. Uma linda mulher! Forte, aguerrida, resiliente, determinada, amorosa, alegre e comunicativa.
Enfrentou perdas ao longo de sua vida, mas, nunca desistiu. Pelo contrário, encontrou nos obstáculos motivos para lutar e vencer.
Consuello perdeu sua mãe quando tinha apenas sete anos. O pai casou-se novamente e ela se sentiu só. Triste, sem saber que caminhos seguir.
Ela morava em Cachoeiro de Itapemirim (ES). Ao completar 10 anos, um primo sugeriu que procurasse minha avó Aurora Estellita Herkenhoff, garantindo que ela teria o apoio que precisava.
Meus avós eram donos da Escola Técnica de Comércio. E tinham um internato para moças do interior que desejavam estudar em Cachoeiro.
Consuello procurou-a, disse que os pais haviam falecido e que era sozinha no mundo. Minha avó Aurora acolheu-a com muito amor. Ao mesmo tempo em que ela ajudava nos afazeres domésticos e nos cuidados com os netos que iam nascendo, foi estimulada a estudar e preparar as bases para seu futuro.
A família era numerosa, meu avô Alfredo e minha avó Aurora tinham 10 filhos. Durante minha infância e adolescência eu tinha 64 primos de primeiro grau. Por isso a casa era movimentada e alegre.
Consuello afirma: “Senti-me incluída e amada em sua família. Sua avó ocupou o lugar de minha mãe, preencheu vazios. Foi responsável pela minha formação religiosa, psíquica, emocional e profissional. Seus tios eram super carinhosos comigo. Seu pai me chamava de pequenininha elétrica. Só tenho sentimentos de gratidão, pois essa experiência mudou o rumo de minha vida”.
Consuello continua seu relato. “As demais internas eram de famílias abastadas, sempre com roupas e sapatos novos. Enquanto eu não tinha recursos para comprar sequer uma sandália. Mas, com meu jeito alegre, conquistei as amigas que passaram a doar suas roupas. Gestos como esses permitiram que eu participasse das festas de Cachoeiro e de outros eventos.”
“Muitas vezes eu me sentia inferiorizada por não poder comprar uma roupa. Na adolescência, fiquei rebelde, mas sua avó acalmou meu coração ao valorizar o meu esforço e conquistas. Dizia: ‘Consuello, você é a mais preparada para enfrentar a vida. Você vai vencer porque construiu as bases para ser bem sucedida em todas as áreas. Cresceu e aprendeu com as dificuldades’.”
Consuello concluiu o normal com 19 anos, saiu da casa de minha avó e foi procurar emprego em Vitória. Relata que levou consigo uma gratidão imensa por tudo que minha família lhe ofereceu em termos de amor, de autoestima e de confiança em si. Levou também segurança e certeza de que daria conta dos desafios da vida.
Chegando em Vitória, conseguiu emprego como professora substituta numa escola estadual em Itacibá (Primário). Dois meses depois foi nomeada para o interior do estado do Espírito Santo. Ficou dois anos em cada localidade: Itaguaçu, Alto do Rio Novo e Fundão.
Naquele período, os pagamentos do Estado atrasavam e ela trabalhou um ano sem receber. Para sobreviver, morava nas fazendas perto de onde as escolas funcionavam. Sempre foi muito querida e bem tratada.
Foi transferida para o Colégio Estadual em Santo Antônio, em Vitória (ES). Naquela ocasião, alugou um quarto na casa de uma família, de onde saiu com 27 anos para casar com Mário Teles.
O marido tinha curso de contabilidade. Estimulou-o a fazer Direito enquanto ela fez curso superior de Geografia.
Em 1968, a Prefeitura de Vitória estava fundando o serviço de educação e ela foi uma das pioneiras na fundação das escolas municipais.
O esposo trabalhou 13 anos como administrador do Espírito Santo, na Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). Era dedicado, competente e honesto. Queria criar uma faculdade para que os menos favorecidos tivessem acesso à um curso superior.
Sua integridade gerou inveja e ele foi brutalmente assassinado deixando Consuello sozinha para criar seus três filhos com 7, 8 e11 anos.
O assassino do marido foi condenado a 18 anos de prisão.
Consuello continuou trabalhando na Prefeitura e no Estado até se aposentar. Tem uma linda família com cinco netos e uma bisneta. Os três filhos exercem a profissão como dentista, pedagoga e engenheiro civil.
Consuello conclui, dizendo: “Não tenho nada a reclamar da vida. Só tenho a agradecer. A vivência da fé e a fidelidade a Deus foram sustentáculo para o meu caminhar”.
Eu acrescentaria: seu espírito de luta levou-a a vencer. Encontrou pessoas que a acolheram, mas ela se empenhou e fez a parte dela. Voou e foi além.
Encontrar Consuello possibilitou que eu voltasse no tempo e pensasse nos legados deixados por minha avó Aurora. Sua casa era totalmente aberta a todos que por lá passavam. Pessoas pobres sentavam à sua mesa para tomar um café. E eu aprendi muito com esses gestos.
Ela era muito religiosa e todos os dias convidava os netos para rezar o terço. Eu tinha seis anos, era uma festa, pois dez netos amontoavam em sua cama de casal e, entre risos e brincadeiras, ela plantava a semente da fé.
Além do amor pela educação. Fui muito feliz como professora. Essa semente foi plantada desde a mais tenra idade.
Comparando com a história contada por Consuello, os legados são semelhantes. Nada acontece por acaso. As oportunidades aparecem, temos que saber aproveitá-las.
Desejo que eu também possa fazer a diferença na vida daqueles que me rodeiam, plantando sementes de amor, de serviço e de fé.
Após narrar a história de Consuello, sinto-me motivada a cantar com Gonzaguinha “O que é o que é?”:
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita
Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).
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