Moradores relatam tensão após estupro de mulher por PM em imóvel localizado na Rua Belém
Nelson Bortolin
O movimento é intenso no fim da tarde da segunda-feira (23) em frente à “Mansão Belém”, no centro de Londrina. Muita gente procura o local para fumar pedras de crack com alguma segurança. Mas há quem more no imóvel. São entre 10 e 15 pessoas, ninguém sabe ao certo.
A casa, batizada de mansão pelos próprios moradores, é possivelmente a mais antiga do tipo na cidade. “Somos uma família, um cuidando do outro”, avisa a mulher que foi escolhida como “Mãe” pelos demais.
Ela conta que há um clima de tensão no local desde o dia 18 de janeiro, quando um policial militar foi preso após estuprar uma mulher dentro do imóvel três dias antes. “A polícia fica o tempo todo agora aqui na frente. Eles passam devagar, tiram foto”, afirma a “Mãe”.
Enquanto a reportagem da Rede Lume esteve por lá, ela abordou um homem que passou pela rua em um carro preto, em marcha lenta. “O senhor está precisando de alguma coisa?”, perguntou. Ele negou com a cabeça e passou direto. “É um policial à paisana”, garante.
Na opinião dos moradores, a polícia está tentando intimidá-los por terem denunciado o estupro na Delegacia da Mulher. “Querem que a gente desista (de cobrar Justiça). Mas vamos até o fim”, conta a chefe da família.

Se, por um lado, se sentem vigiados 24 horas por dia, os moradores acreditam que, pelo menos por enquanto, não serão vítimas de violência policial, coisa que teria se tornado comum nos últimos tempos, conforme os relatos. “Quebram tudo nas costas da gente”, reclama o morador mais antigo – a quem todos chamam de “Pai” -, um senhor de 65 anos.
Ele diz que, há mais ou menos quatro meses, havia comprado material de construção para fazer uma “pequena reciclagem” na “Mansão”. “Os policiais quebraram tudo”, alega.
Um dos jovens mostra feridas pelo corpo que teriam sido resultado de agressão policial. “Nos dão pauladas nas costelas e mandam a gente falar que escorregou e se machucou sozinho”, reclama. “Só vêm aqui para infernizar.”
A justificativa dos policiais para realizar as abordagens é que estão em busca de drogas e objetos roubados. “Querem que a gente dê conta de roubo que a gente não praticou. Revistam tudo, não encontram nada, ficam com raiva e batem na gente”, declara.
A “Mãe” afirma que não há tráfico no local. “Isso acontecia antigamente. Eu mesma fui presa por tráfico. Fiquei cinco anos na cadeia”, conta. “Mas aqui ninguém mais vende droga”, declara. De acordo com a moradora, as pessoas somente consomem entorpecentes na casa.
Ela diz que não fuma crack. “Meu problema é a bebida.” O “Pai”, que voltou recentemente de uma internação e aparenta ter a saúde bastante frágil, alega que está “limpo” há alguns meses. “Já tive três infartos.”
Um rapaz, com 33 anos de idade, conta que fumou pedra pela primeira vez aos 17. “Fiquei uns oito anos sem fumar, mas acabei voltando.”
Outro diz que está na casa há “uns 10 ou 15 anos”. Antes, vivia na rua. “Fui morar na rua depois que meus pais morreram. Não vivo sem isso”, conta, mostrando uma garrafa pequena de bebida alcóolica.
Após o estupro e a visibilidade que a casa ganhou no noticiário policial, os moradores dizem que cessaram as doações de alimentos que recebiam das igrejas. E alegam que estão passando fome.

BATIDAS
Em 2022, o comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Nelson Villa, deu publicidade à situação da “Mansão” nas redes sociais cobrando responsabilidade do Município. Após seguidos roubos na sede do Conselho Tutelar Centro, que funcionava na Rua Belém, a PM realizou “batidas” no imóvel com o objetivo de recuperar objetos, mas nada encontrou.
Em setembro de 2022, durante reunião com comerciantes da região Leste, o comandante foi convidado a falar sobre a relação dos pequenos furtos com pessoas em situação de rua e voltou a enfatizar que se trata de um problema de assistência social e não da polícia.
A PM nega as agressões aos ocupantes do imóvel.
SAÚDE
Os moradores da “Mansão” recebem acompanhamento constante das equipes do Consultório na Rua, programa da Secretaria Municipal da Saúde. A Rede Lume pediu à Prefeitura uma entrevista a respeito do serviço prestado na casa, mas ainda não foi atendida.
