Deputado estadual do PT foi retirado de voo e passou por revista classificada como ‘aleatória’; vídeo causou revolta nas redes
Cecília França
Fotos: Prints do vídeo de inspeção a Renato/Reprodução Instagram
Atualizada em 12/05 para inclusão de posicionamento da ANAC
O deputado estadual Renato Freitas (PT) postou ontem (10) em suas redes sociais o vídeo de uma abordagem que sofreu no aeroporto de Foz do Iguaçu, no último dia 3, quando foi retirado do avião pela Polícia Federal para inspeção pessoal e em sua bagagem. Na gravação, os agentes envolvidos na revista insistem que se trata de um procedimento aleatório, que ocorre diariamente.
Freitas, no entanto, discorda da versão e vê racismo na escolha “aleatória”. Ainda ontem ele gravou um vídeo no qual comenta a repercussão do caso. “Estranhamente (o vídeo), bombou. Muita gente assistindo, se indignando, e de forma justa, porque é evidente que essa ‘aleatoriedade’ sempre cai contra nós”, questiona.
Após a repercussão, a Polícia Federal emitiu nota na qual diz que foi acionada após o deputado ter se recusado a passar pela revista (leia nota abaixo) que atende à Resolução 515, de 2019, da Agência Nacional da Aviação Civil (ANAC). A PF afirma estar apurando os fatos.
Também em nota, nesta quinta (11), Renato Freitas fez um relato dos fatos e negou ter se recusado a passar pela revista.
A ANAC respondeu que os procedimentos de inspeção adicionais foram atualizados em janeiro de 2022 e que “os quantitativos e a modelagem da seleção aleatória são considerados informações restritas de AVSEC (Segurança contra Atos de Interferência Ilícita)” e de acesso restrito, “por se tratar de dados que tangem a segurança dos aeroportos”, de modo que o acesso, a divulgação e o tratamento do seu conteúdo devem ser restritos às pessoas diretamente relacionadas ao tema”.
Segundo a assessoria, a ANAC reforça “diuturnamente em seus comunicados os procedimentos de segurança aos quais os passageiros podem ser submetidos. Os casos em que forem relatados excessos na atuação do aeroporto no cumprimento de seus deveres devem ser denunciados para apuração dos fatos. Caso sejam constatados indícios de práticas abusivas, a ANAC os encaminhará de imediato às autoridades competentes para apuração, estando ainda à disposição para responder a eventuais acionamentos para contribuir com a condução das ocorrências.”
‘Nunca vi isso’
Nas redes, a denúncia de Renato Freitas gerou inúmeros comentários questionadores e irônicos sobre a escolha “aleatória” das pessoas a serem revistadas.
“Inacreditável irmão. Eu NUNCA vi isso. NUNCA!”, escreveu o rapper MV Bill. O cantor Nando Reis também se mostrou indignado. “Isso é uma barbaridade!!! Procedimento normal? Eu voo há 40 anos semanalmente e NUNCA vi isso…”
A ex-deputada por São Paulo Erica Malunguinho classificou o episódio como “perseguição”. “Isso é perseguição e descarada. Você é maior que tudo isso. Estão tentando apagar o que não há de ser apagado”.
A artista e ativista Preta Ferreira também questionou o que chamou de “absurdo”. “Cadê as autoridades do país? Sempre tentando adoecer. Aleatório somente com os nossos. Alguém tem que parar essa gente”, concluiu.
A Secretaria de Combate ao Racismo do PT Paraná emitiu nota de repúdio à ação contra o deputado e declara que “Vivemos momentos de mudanças, que não permitem mais arcaicas práticas que evidenciam discriminação racial.”
Repercussão em Londrina
Entre moradores de Londrina, onde Renato Freitas está hoje, a situação também gerou revolta e questionamentos. A cantora Silvia Borba pontuou: “Racismo descarado. Este tipo de inspeção aleatória é feita na hora que se entra na sala de embarque. Queriam humilhar o deputado”.
A Frente Trans de Londrina questionou: “Aleatória? Essa galera brinca com nossa capacidade cognitiva, não é possível”.
A professora e ativista Maria Moreira destacou as falas dos demais passageiros enquanto Renato retornava ao seu assento no voo. Eles diziam que não se importasse, pois ‘fazem isso com todo mundo’.
“Sinceramente, qual deputado branco já passou por situação igual ou semelhante? O racismo não é aleatório, mas é rotineiro quando se vive em um país racista.”, classifica.
Não apenas deputado, qual pessoa branca já passou por isso?
Nota da Polícia Federal
PF apura incidente ocorrido dia 03/05 no aeroporto de Foz do Iguaçu
A Polícia Federal informa que foi acionada no último dia 3 de maio para auxiliar Agente de Proteção da Aviação Civil (APAC) na inspeção de passageiro que teria se recusado a se submeter a medidas adicionais de segurança estabelecidas pela Resolução, no aeroporto de Foz do Iguaçu/PR.
Este teria se recusado a passar pelo procedimento no local indicado e se dirigido diretamente até a aeronave. Dessa forma, a equipe de inspeção do aeroporto acionou a PF para que a acompanhasse até o avião e procedesse à inspeção devida.
Cumpre ressaltar que a condução da inspeção de segurança é feita por Agente de Proteção da Aviação Civil (APAC), contratado pelo operador do aeródromo.
A Polícia Federal esclarece que todos os procedimentos foram realizados em conformidade com a resolução da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Ressalta ainda que eventuais abusos ou falhas na condução do procedimento serão devidamente apurados.
