Minha mãe se chamava Maria Teresinha e desde criança, já mostrando sinais de sua irreverência, se autodenominou ‘Marie Petit Tèrese’.

Se formou em professora primária muito cedo. Com seus alunos aprendeu que o ensinar e o aprender andam de braços dados e com ela eu aprendi ‘o acolher’.

Minha mãe era uma mulher feminista e socialista sem se dar a menor conta disto.

Só com o tempo e com as reflexões que a morte nos traz, comecei a entender os seus comportamentos.

Um de seus ex-alunos contou-me que deixou de frequentar as aulas por falta de material escolar. Quando ela ficou sabendo o presenteou com uma carteira de falso couro, com dinheiro suficiente para aquisição dos apetrechos didáticos, para que ele mesmo fizesse a compra.

Na minha memória está presente a copa, onde tomávamos café, repleta de alunos com dificuldades com o ‘para casa’ e a falta de uma merenda que sustentasse o corpo e alegrasse coração, porque comida não é só para encher barriga e dar é diferente de doar.

Mamãe também doava suas mãos aos bordados e crochês, complementando a renda familiar e exorcizando a tristeza de uma eterna orfandade que lhe pegou aos 7 anos.

Maria Teresinha/Foto: Arquivo Pessoal

Como mãe foi mãe. Não era meiga. Não era dada a beijos e abraços. Mas tinha o cuidado extremo, a risada farta, as falas engraçadas e ai daquele que ousasse ofender filho seu.

A raiva tomava forma de mar bravio e o quintal era a praia onde desaguava qualquer objeto que lhe caísse às mãos. Normalmente eram as vassouras as maiores vítimas.

Em um distante e saudoso Dia das Mães, mamãe se imaginou recebendo café na cama, cercada de mimos dos filhos e filhas. Mas foi acordada com gritos, brigas, puxões de cabelo e o tradicional mãeeeeeee!

E, pioneira em desromantizar a maternidade, neste dia de avental sujo de ovo, saiu com a expressão que se tornou jargão em nossa casa e em nossa cidade:

— Dia das Mães? Quem falou esta bobagem?

— É dias cachorras!!!

Esta foi minha mãe que misturou ensinamentos, aprendizados, amor, raiva, risos e lágrimas numa sopa de letras que deu certo e deixou gosto de quero mais.

*Odette Castro é artista, escritora, ativista social. Através da sua experiência com a dor e o luto, mostra que é possível seguir em frente e ser feliz. Já foi servidora pública e também empresária. Hoje é cronista do cotidiano, criadora dos projetos “Uma flor por uma dor” e “Fale certo”, autora de “Rubi”, ativista de inclusão social, mãe e avó

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