Mãe solo de dois meninos, Amanda Cordeiro diz que apoio social poderia reduzir pressão sobre essas mulheres

Cecília França

Foto: Amanda com os filhos Miguel e Hugo/Arquivo pessoal

Na semana passada, a grafiteira Amanda Cordeiro, de 25 anos, teve uma infecção na garganta, precisou de atendimento médico e quando questionada se preferia tomar uma dose de injeção ou comprimidos em casa, não teve dúvidas: escolheu a injeção. “Sem sombra de dúvida, porque eu não vou ter tempo de cuidar dos meus horários do remédio. Os deles são sempre prioridade, mas a gente acaba se deixando de lado”, conta ela à Lume.

A situação ilustra o que a mãe solo de dois meninos – Miguel, 6 anos, e Hugo, 4 – vive diariamente. “Desde que eu soube que era mãe eu entendi que teria que fazer tudo sozinha. Teria que alimentar, trocar, cuidar da vida. Então eu sei que tenho que fazer tudo por eles em tempo integral desde que eles vieram ao mundo, desde o primeiro dia de vida”, relata.

Narizinho, nome artístico com que a londrinense assina sua arte, viveu pouco tempo com o genitor do primeiro filho; o pai do segundo vive atualmente em outro país. Sua rede de apoio é composta por outras mulheres, como não é de se estranhar numa sociedade que delega, quase exclusivamente, as funções de cuidado para figuras femininas.

“Minha mãe me ajuda e algumas amigas, como Lua, Flávia e Raquel. Elas fazem com que essa vida seja um pouco menos solo”, define.

Narizinho vive hoje de sua arte. Ela faz trabalhos comerciais, participa de projetos e atua como arte educadora na Associação Londrinense de Circo. É possível conhecer seu trabalho no perfil do Instagram.

Estudo da economista Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), divulgado no dia 12 de maio, mostra que em 10 anos (entre 2012 e 2022) o número de domicílios com mães solo cresceu 17,8% no Brasil, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões. Além disso, a maior parte das mães solo (72,4%) vivem em domicílios monoparentais, apenas elas e seus filhos e filhas.

O estudo mostra que a renda das mães solo é cerca de 39% menor que a de pais casados, comparativamente. A situação se agrava entre mães negras e com menor escolaridade.

Mãe aos 18 anos

Narizinho teve o primeiro filho, Miguel, com 18 anos. Entendeu rapidamente a responsabilidade que teria com a criação dos filhos. Para ela, as pressões sociais pesam de forma absurda sobre as mães, especialmente as solo.

“Além do preconceito, acho que a maior dificuldade é estar mentalmente preparada para criar humanos responsáveis, boas pessoas. Eu acho isso muito, muito pesado. No dia-a-dia a dificuldade é tanto a financeira quanto aquela pressão que você não pode ser fraca em nenhum momento”, explica.

“No trabalho a primeira pergunta que a gente ouve é ‘Com quem vão ficar seus filhos? E se ficarem doentes, você não vai vir trabalhar?’ Essas coisas são muito chatas e deixam a gente cada vez mais pressionadas. Eu me sinto pressionada de todos os lados, porque muita gente acredita que para ser uma família, para aquele ser humano ter sucesso, precisa de um pai presente, uma figura masculina presente, uma família padrão homem e mulher”.

‘Nem sempre a gente consegue ser o melhor’

No estudo feito pela FGV Ibre, a economista Janaína Feijó afirma: “A maternidade impõe uma série de desafios para as mulheres e, no contexto das mães solo, esses desafios se tornam maiores.” Saber lidar com as limitações de modo que não levem ao adoecimento mental é um desafio constante.

“A gente tenta sobreviver e tenta fazer o melhor que a gente pode a todo momento, e nem sempre a gente pode ou consegue ser o melhor. A gente tem que trabalhar, tem que fazer tarefa, cuidar, fazer comida, preparar a agenda deles… A gente nunca pode ficar nem doente, não tem esse privilégio de ficar doente, porque quem vai fazer as coisas? Então é muito difícil”, classifica Narizinho.

Para ela, estado e sociedade poderiam apoiar verdadeiramente as mães possibilitando oportunidades de trabalho e ampliando a rede de cuidados com as crianças.

“Eu acho que a sociedade poderia acolher mais essas mães, facilitando o trabalho, escola, projetos. Porque isso é um dos grandes problemas: as crianças estudam meio período, mas a mãe está ali no mercado, no shopping para trabalhar, num plantão de 12 horas. Então as contas acabam não fechando. Isso é o básico, o mínimo a se fazer”, espera.

Orgulho para os filhos

Narizinho se emociona quando perguntamos como espera que os filhos vejam, no futuro, seu empenho na criação deles.

“Que me vejam como uma pessoa que só quis criar homens de valor, homens sensíveis e honestos, de caráter. Que eles me vejam como uma parceira, uma auxiliadora, uma amiga. E também que, quando eles crescerem, que essa guerra que a gente vai travando ao longo desses dias se torne vitória e a gente consiga dar muita risada disso e desfrutar dessas conquistas que vai ter ao longo do tempo. Quero que eles vejam com orgulho tudo isso que a gente passa”, finaliza.