Quando termino de escrever uma crônica, sempre me questiono se consegui expressar tudo aquilo que está em meu interior. Mas quando leio os feedbacks dos meus leitores, meu coração se alegra.
Não preciso expressar tudo, uma pequena semente que lanço se transforma numa grande árvore com a participação de cada um/a que se identifica com minhas palavras.
A escrita se torna coletiva a partir das trocas.
Partilhei essa reflexão com minha terapeuta Celeste e ela me disse:
Beatriz, acho lindo seu esforço em querer dizer “tudo”, pura generosidade. Acontece que ao simbólico é impossível cercar integralmente o real dos acontecimentos. A escrita jamais escreverá por inteiro o real dos fatos. Só por isso você continua escrevendo, produzindo outros escritos, outros dizeres.
Que reflexão profunda esta da Celeste! Ao escrever, sinto minha finitude, cresço, amplio meu olhar e ajudo outras pessoas a crescer. E uma nova realidade se apresenta, convidando-me a refletir sobre ela.
Por isso a arte é tão poderosa: escrevemos crônicas, contos, poesias, letras de músicas, simbolizamos o real dos fatos na pintura, na escultura, no artesanato, na dança, entre outros recursos.
Não podemos parar, porque o real está à nossa espera para ser representado de diferentes formas e assim tocar, transformar, edificar, semear e colher.
Todos nós temos dons, somos chamados a reparti-los e fazer a diferença. Mas muitas vezes somos acorrentados pelo nosso próprio eu, nos sabotamos, não acreditamos em nossa potência.
Somos pura beleza, sensibilidade, emoção, amor, compaixão e alegria.
Somos pura intensidade e busca em nossa passagem por este mundo.
Busca por nós mesmos: quem somos? para onde vamos? o que construímos ou destruímos? que rastros deixamos? que mudanças realizamos?
Busca pelo outro, o que ele nos oferece? como nos ama ou nos abandona? como cuida de nós? como nos qualifica ou nos desqualifica?
Como nós amamos e como acolhemos e valorizamos o outro?
Somos pura sintonia, harmonia e unidade com o Universo, com a natureza e com Deus.
Buscamos o infinito amor de Deus, que se manifesta em suas criaturas.
Somos pura conexão e desconexão, interação e solidão, nexo e convexo, avesso e direito, presença e ausência, intensidade e desânimo, energia e fraqueza.
Somos pura solidariedade, desejo de amar, servir e transformar.
Somos tudo e nada. Caminhantes em busca de melhores condições de vida, de vivência, convivência e sobrevivência.
Sobrevivência!
Quais os nossos objetivos e metas? Aonde queremos chegar? Que desejos e motivações fazem com que a vida valha a pena?
Somos convidados a:
Ter propósitos e organizar o nosso tempo, incluindo todas as dimensões de nossa existência.
Estar inteiros física, psíquica, emocional e espiritualmente.
Ter tempo para nós.
Tempo para o outro, para o cuidado com os animais, com a natureza, com aqueles que passam forme.
Tempo para a construção de um mundo melhor.
Que diálogos estabelecemos com as crianças? Que vozes ecoamos? Que vozes as crianças irão emitir ao longo de suas vidas?
Mesmo oferecendo o melhor de nós, somos limitados. As circunstâncias interferem em nossos projetos.
Aqueles que amamos morrem, nossos pais se separam ou decidem por uma maternidade ou paternidade solo. Enfrentamos o desemprego, dificuldades financeiras, violência, pobreza, mentiras, entre outros obstáculos que interferem em nossos planos.
Somos aprisionados por nós mesmos. Pela dúvida em relação aos nossos dons e competências.
Diante das frustrações e decepções, só enxergamos nossos fracassos, defeitos e imperfeições. Não nos sentimos amados.
Se não me respeito e se não me valorizo, como vou respeitar o outro?
De repente tenho que parar para prestar atenção em mim, me aceitar, amar e acolher.
Respeitar e admirar meu corpo como ele é. Respeitar meus sentimentos, emoções e realizações.
Respirar e rever minha trajetória. Sair de cena e refletir sobre minha história.
Quando não tocamos em nossas feridas do passado, elas explodem e contaminam.
É necessário sair do lugar em que damos autoridade afetiva para que o outro influencie a forma como nos vemos. Espaços em que permitimos que o outro nos diminua e aumente nosso complexo de inferioridade.
Durante muitos anos ministrei cursos sobre a administração do tempo. Estimulava cada um a fazer um planejamento incluindo: tempo para descansar, passear, viajar, ler, brincar, namorar, dançar, cozinhar, estar com os filhos, com a família, com os amigos, cuidar da saúde; tempo para o exercício físico e espiritual, para a terapia e o autoconhecimento.
Procurei colocar em prática aqueles ensinamentos. Essas construções contribuíram para a qualidade do meu tempo.
Incluí atividades no meu cotidiano que me permitiram romper com algumas amarras que me prendiam em minha miséria interior.
Desde que me aposentei, saboreio o café da manhã com calma e serenidade, respirando lenta e profundamente, apreciando o novo que se me apresenta em cada amanhecer.
Em seguida dedico uma hora às minhas orações. Sou tão impotente diante da vida que meu ser clama por um diálogo com Deus. Momentos de silêncio, de entrega, de gratidão, de pedir por aqueles que amo.
Vou para a academia diariamente; uma vez por semana faço Pilates e Acupuntura. Criei uma disciplina para cuidar do meu corpo, fortalecer os músculos, o equilíbrio corporal e, com ele, todo o meu ser.
Não foi fácil adquirir essa disciplina, o corpo atrai a preguiça, a acomodação e a procrastinação. É uma luta diária que se transforma em necessidade. O corpo passa a exigir cuidado, atenção e garra.
Todos os dias almoço com minha mãe Helida. Momento também de muito prazer e troca amorosa. Vanilce nos surpreende com pratos saudáveis e deliciosos. Saímos fortalecidas e renovadas após cada refeição.
E isso exige desejo, foco, planejamento e determinação.
No tempo do dia que me resta sempre leio, vejo um bom filme, vou ao cinema, escrevo minhas crônicas, dialogo com os leitores e saio com os amigos e amigas. Telefono, convido, marco um happy hour, um tour pelos pontos turísticos da Grande Vitória.
Também gosto de dialogar com meu filho, nora, amigos/as de meu filho, sobrinhas, afilhados e irmãos. Mesmo longe, estão tão perto. Renovo minha energia com a alegria e a força da juventude.
Minha agenda tem sempre espaço para as crianças que amo e que dão sentido à minha existência.
O afeto restaura a harmonia interior e exterior.
Canalizo também minha energia para um compromisso com o social, pertenço a grupos que lutam pela democracia, pelos direitos humanos e por uma sociedade mais justa e mais humana.
Já dei spoiler demais sobre a minha vida, não sou modelo de nada, cada um estabelece suas metas e administra o seu tempo de acordo com as próprias demandas e necessidades.
O importante é conquistar um equilíbrio interior com confiança e serenidade.
Quais são suas buscas e conquistas?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
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