Eu ouço casos para contar casos. Com algumas pinceladas que a licença poética me permite, contos casos engraçados ou não, com finais felizes ou não, mas como a vida; mutantes.

Este caso que aqui conto para você, querido leitor, eu ouvi na sala de espera em um consultório médico.

Aconteceu assim:

O tênis do Marcos.

Marcos, meu marido, é um empresário cauteloso com sua saúde e sua forma física. Ele corre todos os dias e esquece os tênis todos os dias. Todos os dias, vou até seu escritório e entrego os tênis para sua secretária. Já sugeri deixar alguns pares em sua escrivaninha, mas ele acha esta atitude antiética.

Foto: Carlos Monteiro

Tenho dormido pouco porque Mari, nosso bebê de dois meses, tem trocado o dia pela noite e João, de três anos, com ciúmes, tem trocado o banheiro pela cama. Marcos trabalha cedo e precisa de oito horas de sono.

Sou autônoma e sem licença maternidade, já voltei ao escritório de arquitetura. Marcos acha que o “olho do dono que engorda o boi”.

Hoje, dia de retorno da Mari ao pediatra, deixo João na creche, entrego os tênis do Marcos ao porteiro, mesmo sabendo que isto vai desagradá-lo. Não é ético.

Atravesso a cidade com calor e trânsito pesado, mas chego na hora exata da consulta.

A secretária diz: “Mariana Machado e Silva pode entrar!”. Caminho para o consultório quando ela me pergunta: “Cadê a Mariana?”.

Então me dou conta de que esqueci Mari em casa.

Exausta, chorei.

Fim.

*Odette Castro é artista, escritora, ativista social. Através da sua experiência com a dor e o luto, mostra que é possível seguir em frente e ser feliz. Já foi servidora pública e também empresária. Hoje é cronista do cotidiano, criadora dos projetos “Uma flor por uma dor” e “Fale certo”, autora de “Rubi”, ativista de inclusão social, mãe e avó

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