“Vigilância e silenciamentos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985)” é um trabalho conjunto de pesquisadores de várias universidades, incluindo a UEL, e está disponível para download gratuito

Texto e Fotos: Mariana Guerin

A equipe do Laboratório de Estudos sobre Religião e Religiosidades (LERR) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) lançou no último sábado (20) o e-book “Vigilância e silenciamentos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985)”, produzido em parceria com os Programas de Pós-Graduação de Sociologia (mestrado e doutorado) e o Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional.

Organizada pelos pesquisadores Fabio Lanza, José Wilson Assis Neves Júnior, Raíssa Regina Brugiato Rodrigues, Aline Salles Pedrazani e Luan Prado Piovani, a obra teve apoio financeiro do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UEL, por meio de recursos concedidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), bolsas de Iniciação Científica da Fundação Araucária e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

O e-book é resultado do trabalho de pesquisa junto ao Arquivo do Serviço Nacional de Informação (SNI) da Agência de Curitiba-PR, que possui cerca de 7 mil documentos, até então secretos, sobre investigações, perseguições, silenciamentos e repressões a diversos segmentos da sociedade brasileira que se opuseram ao regime e estão disponíveis para consulta no Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica (NDPH UEL).

“Durante a ditadura militar foi criado um órgão de informação chamado Serviço Nacional de Informação, SNI, que tinha uma atuação nacional e controlava todas as informações sobre qualquer figura, entidade ou instituição”, explica o pesquisador Grimaldo Carneiro Zachariades, que fez o doutorado na Fundação Getúlio Vargas.

Ele foi colaborador no lançamento do e-book estabelecendo diálogos  sobre os capítulos  e apoia o projeto aprovado pelo CNPq e Fundação Araucária intitulado “Os documentos inéditos dos arquivos do SNI (Paraná-BR), do projeto Opening the Archives e da CIA (EUA)” coordenados pelo professor Fabio Lanza, do Departamento de Ciências Sociais da UEL.

“O SNI tinha agências estaduais. Aqui em Curitiba, por exemplo, existia a agência do Paraná, que era responsável pelas informações do Paraná e Santa Catarina. Essa agência era formada, em sua maioria, por civis da região. A função era abastecer Brasília com o que ocorria aqui.”

Entre os dados compartilhados pela agência do SNI no Paraná estavam greves, movimentos estudantis, perturbações, luta armada. “Na época, o próprio idealizador do SNI, General Golbery, falou que tinha criado um monstro porque o sistema se impregnou nas instituições brasileiras para mapear qualquer pessoa que estivesse envolvida em qualquer tipo de situação”, diz Zachariades.

“Eles tinham agentes e pessoas que, por vontade própria, abasteciam essa rede de informações. Então você encontrava, na universidade, estudantes que poderiam ter alguma ligação ou interesse em informar o SNI.”

“Nenhuma ditadura no hemisfério Sul teve a capilaridade que a ditadura brasileira teve. Apesar de toda a documentação que foi destruída, ainda há milhões de documentos que mostram essa teia terrível que desbravava sua vida de um jeito, que não se tinha ideia do porquê as pessoas estavam sofrendo perseguição”, completa Zachariades.

Ele cita o exemplo de documentos que comprovam que umas das pessoas vigiadas pelo SNI na época foi a irmã Dulce. “Qualquer pessoa poderia ser vigiada. Quem ia imaginar que eles mandavam agentes para reuniões de testemunhas de Jeová, por exemplo. Era uma forma de controle do Estado sobre a sociedade que nunca havia acontecido antes na nossa história.”

Zachariades explica que o SNI controlava as informações e os órgãos de repressão é que usavam de violência. “O SNI controlava as denúncias de tortura e morte para abafar esse tipo de informação o máximo possível.”

De acordo com o pesquisador, os arquivos da ditadura mostram, ainda, um controle severo sobre a escolhas de bispos e cardeais dentro da Igreja Católica brasileira, inclusive sob a influência do Papa.

“Até numa instituição internacional como a Igreja Católica eles decidiam mais ou menos o que se fazia, assim como nos jornais, plantando notícias, e controlando, também, a distribuição de cartas pelos Correios.”

Já são mais de dez anos que a equipe de pesquisadores da UEL trabalha com esses arquivos inéditos de diferentes fontes sobre a ditadura militar.  Zachariades explica que para estudar os arquivos do Paraná, por exemplo, muitas vezes é preciso pesquisar em outras localidades, como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, por isso o processo de pesquisa é tão demorado.

“Quando acabou a ditadura militar, houve uma tentativa de apagamento dessa história, com a destruição de documentos. A partir do governo do PT, houve a abertura dos arquivos secretos da ditadura e se começou a ter uma dimensão do que aconteceu”, diz Zachariades, reforçando que a UEL luta para organizar, preservar e difundir a história.

Pesquisadores Fabio Lanza (esq.) e Grimaldo Carneiro Zachariades (dir.) contando
sobre o processo de pesquisa dos arquivos secretos da ditadura brasileira

E-book traz dados sobre o silenciamento e a vigilância

“Esta obra é composta por pesquisas que envolvem temáticas associadas às formas de silenciamento e de vigilância, então, quando as pessoas acessarem esse livro, elas vão ter, por exemplo, uma contribuição da professora Maria José de Resende, cientista social da UEL que pesquisa ditadura há mais de 30 anos”, cita o professor da UEL, Fabio Lanza, da UEL.

Ele descreve, ainda, a colaboração do professor Américo Freire, vinculado à FGV, que, dentro da área de História, busca entender como esses grupos beneficiários do controle do Estado querem se estender ao longo do regime democrático.

“Quando nós entendemos, em termos de pesquisa, sobre autoritarismo e silenciamento, a ditadura militar no Brasil não é um tema do passado. É um tema do presente. E tem muitas interfaces”, opina Lanza.

Segundo ele, outro capítulo do e-book, escrito pela pesquisadora da FGV Evanize Sydow, vai tratar da relação de Dom Paulo Evaristo Arns, e as suas redes ecumênicas na América Latina, com o pastor Jaime Wright, da Igreja Presbiteriana.

“Nós estamos dialogando com uma produção que entende o quão vivo é o processo de luta contra o autoritarismo, luta contra as formas de opressão. E esses processos permeiam do campo católico para o campo protestante”, avalia Lanza.

Outros capítulos tratam da opressão contra a mulher, a partir dos arquivos do Judiciário, da questão fundiária no Brasil e da organização dos trabalhadores do campo. “Nós queremos consolidar a democracia enquanto a sociedade fecha os olhos para essas questões”, questiona Lanza, reforçando que o e-book traz discussões sobre como o latifúndio e a pobreza ainda andam de mãos dadas no País.

“O livro tem acesso gratuito, como uma plataforma de popularização da ciência. O último capítulo, por exemplo, vai dizer como você pode pesquisar os arquivos do SNI”, informa o professor da UEL.

“Nós, brasileiros e pessoas interessadas neste tipo de mudança da sociedade, precisamos por a mão na massa, reproduzir, entender esses arquivos, para que a gente não repita esse passado, que é um passado reprodutor da violência, do silenciamento, da desigualdade”, comenta Lanza.

Ditadura foi muito eficiente em não se fazer notar

O professor Zachariades lembra que a ditadura brasileira foi muito eficiente em não se fazer notar pela maioria da população na época, por isso ainda existem pessoas que não acreditam que ela aconteceu e outras que defendem sua volta.

“Uma informação importante do cientista político Jairo Nicolau aponta que durante a ditadura militar brasileira ampliou-se o número de eleitores no país consideravelmente. Manteve-se o processo de eleição, com um verniz democrático, mostrando a eficiência dos militares no controle da sociedade.”  

A censura, segundo o pesquisador, também foi muito eficiente no período. “As pessoas sofriam muito, mas não conseguiam perceber, porque a ditadura foi violenta só quando tinha que ser.”

“A ditadura ainda está muito presente e a gente só consegue entender isso e superar o que precisa ser superado se a gente conseguir entender esse momento da nossa história”, opina Zachariades, reforçando que “uma democracia só é melhorada dentro da própria democracia”.

O prefácio do e-book é da professora do Departamento de Ciências Sociais (CLCH) da UEL Maria José de Rezende e o livro reúne nos seus seis capítulos contribuições de especialistas convidados, dentre eles Américo Freire e Evanize Sydow, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea no Brasil da Fundação Getúlio Vargas (FGV – CPDOC).

Também participam da publicação Antônio Mendes da Costa Braga, da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), e Luiz Ernesto Guimarães, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), além de docentes e discentes da graduação em Ciências Sociais e da Pós-Graduação em Sociologia da UEL.

Leia também:

Dois terreiros são alvos de atentado na grande Curitiba

A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.