Moradora de Londrina relata abandono do marido, incompreensão do pai e luta para manutenção do vínculo com os filhos
Lua Gomes, especial para a Rede Lume
Foto em destaque: Ana Maria com os filhos pequenos e atualmente/Arquivo pessoal
“Eu com aquela barriga de 5 meses e meu pai disse: ‘Some das minhas vistas que eu não quero mulher buchuda dentro de casa!’”. Essa frase é da Ana Maria dos Santos, 68 anos, mãe solo de Thais (32) e Thiago (36), moradora de Londrina. Quantas de nós já ouvimos isso… O abandono na vida das mulheres e, sobretudo, das mães pretas solo atravessa diversas escalas.
Logo que Ana Maria engravidou pela primeira vez ela soube o que era a solidão matriarcal na sociedade que objetifica e culpabiliza mulheres pela responsabilidade de sucesso ou não no futuro dos filhos.
O primeiro filho foi “planejado”, mas ainda assim ela sentiu-se na soloridade*. Mesmo casada com o marido (apenas marido, não companheiro), o filho, que requeria muito de seus cuidados e atenção, em nenhum momento ia no colo do pai.
“Quando meu filho estava com dois meses eu queria trabalhar, meu marido não deixava. À noite ele chorava demais e o bendito lá dormindo. Senti muito que não tinha apoio dele quando meu filho nasceu. Parecia que ele não queria aquela criança. Isso que eu engravidei porque ele quis”, lembra Ana.
Ainda na gravidez, ela descobriu que o marido tinha uma amante. Com o bebê nos braços, inventou de fazer uma viagem para a casa da avó em São Paulo e foi viver sua vida. “Até quase dois anos do Thiago ele ainda pagou pensão, depois fui eu por nós dois”, relembra.


A história da Ana é marcada por momentos importantes e reviravoltas. Já sentiu na pele o racismo, a discriminação pelo encarceramento do filho, sentiu a dor da rejeição da filha pelo conservadorismo familiar quando assumiu sua homossexualidade… as dores que uma mãe abarca por saber que seu amor dá a ela uma responsabilidade incessante.
“Espero que meus filhos lembrem de mim como a mãe que não viveu tudo que podia, mas optou por nos dar o melhor e maior que o amor da maternidade pode oferecer. Ela foi guerreira!”.
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Ana conta suas maiores dores
Quando fala sobre as maiores dores, Ana lembra de como foi difícil morar de favor na casa de amigas após a expulsão da casa dos pais. Grávida da filha, fruto de um reencontro com um ex-namorado, ela se mudou diversas vezes da casa de uma amiga para outra.
“Aconteceu de eu ficar doente. Fui para o hospital com sete meses e meio. Minha placenta deslocou e eu fiquei internada do dia 1 de abril e no dia 15 minha filha nasceu. Só eu e Deus sabemos o que eu passei lá dentro. Perdi muito sangue, tive que tomar quatro bolsas de sangue”, conta Ana Maria.
Estudo da economista Janaína Feijó, pesquisadora do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), divulgado no dia 12 de maio, mostra que em 10 anos (entre 2012 e 2022) o número de mães solo cresceu 17,8% no Brasil, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões. Das mulheres que se tornaram mães solo nesse período, 90% são negras.
O estudo mostra que a renda das mães solo é cerca de 39% menor que a de pais casados, comparativamente. A situação se agrava entre mães negras e com menor escolaridade.
Neste período, ela não frequentava a casa dos pais, onde estava morando seu filho. “Eu tinha que esperar na esquina pra ver meu filho voltando da creche…Ele nem sabe disso”. E completa que teve uma rede de apoio importante “apesar do meu pai ter sido duro comigo, tive amigas, minha irmã Celeste e minha mãe não me deixaram nem por um dia nessa fase”.
Depois do nascimento da filha, Ana Maria alugou um quarto com uma cama, um berço e um fogão com duas bocas. “Eram as únicas coisas que eu tinha em casa. Nesta época eu comecei a buscar Deus. Eu arrumei um emprego no Estado. Entrei lá a Thais estava com 51 dias. Trabalhei 16 anos em escola”.
Ana conta ainda sobre o sentimento de abandono que tornou a viver quando seu filho foi preso pela primeira vez, com 18 anos. “Todo mundo sumiu, minha vida foi esvaziada; ficaram apenas as mesmas pessoas que jamais me deixaram: duas ou três amigas, minha mãe e irmã”.
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Fase de compreensão
Ana Maria reafirma que após tanta luta, hoje, sua filha é um porto seguro e um orgulho pela potência. Que apesar da luta e das dificuldades, não pode desistir do amor pelo filho, mas que entende agora, com mais mansidão, que são as escolhas dele e que ela ainda precisa viver novamente, como antes da maternidade. Precisa ser plena.
“Deus me capacitou. Nunca precisei pedir nada para a minha filha para o meu pai, nunca”.
Foi um momento importante concluir essa entrevista, que é o último capítulo desta série de matérias no mês das mães. Ela mostra a multiplicidade de histórias de mulheres e como elas se conectam. A esperança e a gratidão de viver que Ana Maria exprimem são contagiantes.
*Soloridade: expressão para dar forma ao sentimento de ser solo, no contexto de um feminismo brasileiro, permeado e norteado por dororidades.
Publicada em 29 de maio de 2023
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