Eu tive experiências muito difíceis em relação ao suicídio. Sobretudo na minha família. Já perdi muitos parentes de sangue. Se eu fosse contar quantos parentes tive que enterrar, não caberia nessa escrita.
Uma delas que me marcou profundamente foi a perda da minha irmã de oito anos, que deixou marcas não só na minha vida, mas sobretudo sobre a vida da minha mãe e do meu pai.
O suicídio vem deixando marca profunda e adoecimento em tantas outras famílias Ava-Guarani. E por essas perdas e memórias que busco entoar a minha narrativa, por meio dessa escrita.
A minha luta é pelas nossas crianças, pelos nossos jovens, pelas memórias de lutas dos nossos ancestrais, dos nossos jovens que perderam a vida, das mulheres mães Ava-Guarani, que perderam seus filhos para o suicídio, genocídio e etnocídio. Para que essas histórias sejam ouvidas, lembradas e, sobretudo, que não seja em vão.
Cresci ouvindo que era cultural morrermos enquanto indígenas. Até hoje ouço esse tipo de comentário racista. Eu te pergunto: é cultural tirar a vida? Ou, é cultural naturalizar a morte dos indígenas?
Se fosse sobre pessoas brancas (não-indígenas), será que diríamos que é cultural? As respostas para as perguntas acima, todos sabem. Porém, é mais conveniente dizer que é cultural.
É para questionar as ideias racistas sobre nossos corpos que me aproprio da escrita para ecoar a nossa existência e sofrimento, pois escrever também é um ato de resistência, sobretudo para nós indígenas que estamos ocupando o espaço acadêmico, uma vez que somente uma indígena pode compreender a dimensão do que é ser indígena.
Para a compreensão do sofrimento que vivenciamos, me dou o direito de compartilhar minha história com os Avá- Guarani
A minha vivência de luta teve início aos 15 anos nessa região, sobretudo no espaço das escolas em Guaíra, onde passei por diversas violências e questionamento sobre minha identidade, pois foi ali que percebi que eu era diferente e que não podia falar minha língua materna.
Não era indígena, não era brasileira, não era branca, não era preta e nem amarela. Eu era índia, bugra, paraguaia, boliviana, japonesa, invasora da terra alheia. Justo eu? O invasor?
O momento mais angustiante da minha vida foi a escola. Onde foi acordado, infelizmente ou felizmente para quem sou, o eu de agora. Nesse espaço, ninguém me enxergava, era invisível totalmente, assim como os outros estudantes indígenas. Essa narração é minha, contudo, representa todos os indígenas que estudam nas escolas dessa região.
Senti na pele o preconceito e o racismo no lugar em que deveriam me acolher independente das minhas condições sociais e etnia. Cheguei a parar de frequentar a escola, pois me fizeram acreditar que aquele espaço não me pertencia.
Hoje eu sei que o território que chamamos de Brasil é nosso. É sim. Existem indígenas na aldeia, nas cidades, favelas e universidades. E podemos estar onde quisermos. Os não-indígenas querem arrancar os adornos do nosso corpo, querem assassinar a nossa língua materna, para sermos reconhecidos como “civilizados” no mundo que construíram, em cima do corpo dos nossos ancestrais.
Os meus colares, cocares, pulseiras, a minha língua materna, a minha reza, são minha vestimenta que me fazem ser Guarani, que me trazem o bem viver. Quando me impedem de usar, estão me tirando o modo de entender o mundo, de pertencer, e isso afeta o Nhandereko (modo de ser Guarani) que pode nos trazer uma vy´á ve´y (tristeza profunda).
Ao invés de querer transformar o outro em um ser igual, por que não aceitar, ou ao menos respeitar, o modo de existir do outro? Por que não aprender junto a ele?
Esses tipos de violências ao nosso modo de viver, de existir, levam os nossos jovens indígenas para dois caminhos: lutar para sobreviver ou tirar a própria vida. Muitos de nós escolhemos a última. O meu sobrinho escolheu a última opção. Aos 12 anos, desistiu de estudar para não mais sofrer violências na escola e trabalhou desde então para ajudar no sustento da casa. Em 2010, com 20 anos, se suicidou. O meu primo, que constantemente era chamado de bugre e outros apelidos racistas, também se suicidou. Quantos de nós seremos empurrados para a segunda opção?
Assim como qualquer jovem não-indígena, os nossos jovens têm sonhos, querem estudar, ser respeitados nas suas diferenças, mas, em vez disso, são silenciados, invisibilizados e violentados.
De acordo com Palagano (2018), as crianças indígenas Avá-Guarani sofrem racismo, especialmente quando chegam no ambiente escolar. E, de fato, isso é verdade. E enquanto não houver a demarcação do território, os sonhos de muitas crianças e adolescentes serão menosprezados, inferiorizados dentro das escolas não indígenas.
Apesar das retomadas terem escolas improvisadas, onde ensinamos a língua materna e a educação Guarani, que foram construídas por comunidades com material reciclado e doado por apoiadores, ainda assim as crianças precisam enfrentar o ensino regular da cidade.
Na aldeia Tenondé Nhepyrû, à qual pertenço, começamos primeiro a dar aula na casa de reza, que o Xamoi Claudio Barros gentilmente nos cedeu. Após dois anos, construímos uma sala de aula de alvenaria. Nessa escolinha ensinei a língua Guarani e também português, na tentativa de amenizar o sofrimento das crianças dentro das escolas não-indígenas.
A exigência de falar português na escola causa muito conflito nas crianças e influencia na desvalorização da nossa língua materna entre os jovens. Além disso, o preconceito por parte dos colegas e dos professores, como ofensas, gozações e agressões verbais, contribuem para evasão escolar dos estudantes indígenas. Sem perspectivas de vida, sentindo-se indesejados, muitos jovens acabam se suicidando.
Em 2015, o “Observatório da Questão Agrária do Paraná” publicou uma carta aberta das lideranças Ava-Guarani de tekohas de Guaíra e Terra Roxa pedindo ao Ministério Público Federal (MPF) e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas providências no processo demarcatório dos territórios. Chegaram a listar nome de casos de suicídio: dos 12 casos de suicídio, dois eram idosos.
Na mesma carta publicada denunciaram o linchamento de Ananias Nunes, o assassinato de Bernadinho D´avalo Goularte e o caso de um jovem indígena assassinado brutamente na tekoha Marangatu.
Já se passaram mais de oito anos e os Avá-Guarani continuam na mesma situação. Esta é uma denúncia escandalosa. Na próxima edição dessa coluna, vou retomar essa história, falando mais sobre como a comunicação do ódio construiu esse clima hostil ao nosso povo.
*Ana Lúcia Yvoty-Guarani é estudante de Psicologia na UEL
Leia também:
Deputados paranaenses votam em peso contra indígenas
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
