Muitas vezes associamos a herança a bens materiais. Na realidade, a herança vai muito além dos recursos financeiros, dos bens e imóveis que adquirimos ao longo de nossa vida.

A herança não é só transmitida após a morte de um ente querido, muito pelo contrário, é na convivência cotidiana que passamos valores e princípios.

Mesmo vivendo na pobreza, pais e mães deixam heranças preciosas sobre a solidariedade, o compromisso com o trabalho, a honestidade, a ética, a construção de estratégias de sobrevivência, o amor à vida e ao próximo, o saber popular, a preservação do meio ambiente e do nosso planeta.

Ricas as histórias e os exemplos a serem seguidos.

Conversando com Wili Beno Bauermann e sua esposa Rachel Pessoa sobre os legados que deixamos para as futuras gerações, Wili relatou a experiência que teve com seu neto Bernardo, 7 anos. Como conseguiu despertá-lo para o compromisso ecológico e o cuidado com a natureza.

Nos anos 2000, Wili atuou como pastor na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em Alto de Jatiboca, ES.

Desde que se aposentou, em 2020, Wili reside em Bicanga, uma praia localizada no município da Serra, Espírito Santo.

Wili percorre diariamente seis quilômetros para catar o lixo acumulado nas areias da praia.  

“Quando iniciei esse ritual, Luisi Pessoa, minha enteada, ganhou a Aloha, uma cachorrinha da raça Golden Retriever, que nos envolveu com sua doçura e amor. A partir de então nos sentimos motivados e nos comprometemos com ações de responsabilidade ecológica e defesa dos animais.”

“Conhecemos a Ong Pra Mia e eu passei a catar tampinhas plásticas para o projeto. Já retirei 25 mil tampinhas da praia. O valor da venda das tampinhas é investido em castração de animais resgatados nas ruas.”

Fiquei impressionada quando Wili relatou a quantidade de material poluente que encontra nas praias, como: copos, sacolas, tampinhas, taças e vidros quebrados, fraldas descartáveis, guimbas de cigarro, cotonetes, palitos de picolé, canudos, latas de alumínio, entre outros.

Wili afirma “não temos uma educação ecológica. A região de Bicanga é local de desova de tartarugas, apesar disso, é assustador a quantidade de lixo deixado nas praias. Colocando em risco a vida dos animais marinhos.”

Seu neto Bernardo, que mora no sul do país, passou férias com o avô Wili. Ao caminhar com ele na praia, aprendeu a coletar lixo seco, a separar as tampinhas e identificar o tipo de lixo, de acordo com a cor da lixeira.

Wili teve lindas conversas com Bernardo sobre a sustentabilidade. Plantou no coração de seu neto o desejo de buscar o equilíbrio do meio ambiente e a sobrevivência do nosso planeta.

Com sua sabedoria, Wili mostrou, de forma simples que a coleta celetiva evita a poluição do meio ambiente, da água, do ar e dos solos.

Ajudou-o a compreender que quando o lixo é separado, evita-se que parte dos resíduos sejam destinados aos aterros sanitários e lixões.

Ao garantir a reciclagem e a reutilização, é preservada a extração de novos recursos naturais.

Bernardo voltou entusiasmado para sua cidade Bom Princípio, no Rio Grande do Sul.

Em casa, envolveu seus pais na coleta seletiva do lixo.

Em sua escola (EMEF “12 de Maio”) passou a estimular as crianças para um compromisso ecológico. Na feira de Ciências, Bernardo apresentou, com alguns amigos, o projeto “Reduzir, reutilizar e reciclar”

Fiquei emocionada quando assisti o vídeo em que Bernardo fala sobre as cores diferentes das lixeiras, de acordo com cada tipo de resíduo.

Muito concentrado e convincente em sua fala, ele explicou para os amigos e seus familiares que: “a lixeira de cor amarela recolhe metais; de cor verde, vidros; a azul papeis e papelões; a vermelha plásticos; a preta madeira; a laranja resíduos perigosos (pilhas e baterias) e a branca resíduos hospitalares.”

Lindo também quando Bernardo conta, com orgulho, a rotina do vovô Wili recolhendo lixo na praia em Bicanga e tudo que aprendeu com ele.

Pequenos gestos e atitudes que fazem a diferença. Heranças e legados que transmitimos para as futuras gerações.

Que possamos seguir o exemplo de Wili, contribuindo para a consciência ambiental em nossa família, consequentemente, para a melhoria da limpeza em nossas cidades e ampliação de empregos para quem trabalha com material reciclado.

A Coleta Seletiva é essencial para o futuro do planeta!

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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