Objetivo é criar uma rede de apoio e prestar suporte emocional a alunos, professores, funcionários e familiares após o atentado que matou um jovem casal na escola de Cambé
Mariana Guerin
Foto em destaque: SESP
Publicada em 20 de junho de 2023
Dois alunos do Colégio Estadual Professora Helena Kolody foram mortos em um atentado na manhã desta segunda-feira (19), em Cambé. Os namorados Karoline Verri Alves, 17 anos, e Luan Augusto da Silva, 16, foram alvejados por um ex-aluno da escola. Karoline morreu na hora. Luan foi encaminhado em estado gravíssimo para o Hospital Universitário de Londrina, mas não resistiu aos ferimentos e morreu por volta das 3 horas desta terça-feira (20).
A Comunidade Nossa Senhora Mãe do Divino Amor, da Paróquia Santo Antônio, de Cambé, que fica próxima ao colégio, promoverá nesta quarta-feira (21), às 19h30, na própria escola, a manifestação “Juntos pela Paz”. Os pais de Karoline, Dilson Antônio e Keller Christina Alves, são coordenadores da comunidade e pedem que os participantes levem velas e rosas brancas em homenagem ao casal, que atuava em grupos de oração e de jovens na paróquia.
O governador Ratinho Junior decretou luto oficial de três dias e, com o objetivo de aumentar o suporte aos estudantes da rede estadual, o Estado vai reforçar o atendimento psicológico nas instituições de ensino de todo o Estado, começando pelo Colégio Estadual Professora Helena Kolody.
Com as aulas suspensas até a próxima segunda-feira (26), a escola receberá profissionais capacitados para atendimento dos alunos, professores, colaboradores e pais já a partir desta quinta-feira (22). O objetivo é criar uma rede de apoio e prestar suporte emocional diante da gravidade dos acontecimentos.
Por meio de uma parceria entre a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e o governo do Paraná, cerca de 200 profissionais da psicologia atuarão, dentro dos próximos meses, no atendimento às comunidades escolares de todo o Paraná. Eles irão trabalhar no enfrentamento aos desafios pessoais, acadêmicos e sociais, fornecendo espaço seguro para que a comunidade escolar expresse seus sentimentos e preocupações.
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Atentado na Helena Kolody: terror e medo para todos
Segundo o psicanalista Sylvio do Amaral Schreiner, a consequência imediata de um atentado como o vivido na Escola Professora Helena Kolody é o terror e o medo para todos: alunos, professores, funcionários da escola e até para a população. “É se dar conta de que há uma violência extrema no mundo. E isso dá uma sensação de medo, de terror muito grande.”
Já a consequência a longo prazo é a insegurança. “Em princípio vem o terror, depois vem a insegurança. Vem sempre aquele estado em que parece que é preciso ficar constantemente em vigília, em alerta, e uma certa tensão. Então, é algo que realmente cobra um preço muito caro na saúde mental das pessoas envolvidas”, diz Sylvio.
Ele reforça que as famílias dos envolvidos também precisam ser ajudadas neste momento porque mesmo que elas não estivessem no local, elas participaram do terror dos filhos e parentes.
“Acabam precisando de um suporte, de um senso de cuidado de um para com o outro, porque pode ser suscitado agora um centro de cuidado e a necessidade, de fato, de se cuidar do espaço onde vivemos, das relações interpessoais.”
Apesar de o luto ser algo individual e cada um ter seu próprio tempo, ritmo e condições internas de lidar com ele, o psicanalista acredita que é possível falar em luto coletivo quando ocorrem tragédias como a da Helena Kolody.
“É um movimento coletivo que abalou todo mundo e como lidar com isso a curto prazo? Não tem resposta fácil. A gente precisa ter a noção de que a vida continua, lembrando do que aconteceu, mas vendo o que é possível fazer daqui para frente, como podemos melhorar essa situação para todos os envolvidos. E, principalmente, na escola, entre funcionários, professores, alunos e os familiares de todos, como é se ajudar um ao outro”, propõe Sylvio.
Helena Kolody: comunidade deve falar sobre o que aconteceu
Para ele, é preciso falar sobre o que aconteceu por um tempo, para que a escola possa retomar as atividades normais. “É preciso que haja até dentro da escola um espaço para debate. Para vários profissionais e especialistas debaterem isso com os alunos, familiares, professores funcionários.”
Ele sugere criar na escola, justamente onde foi um espaço de extrema violência e morte, um espaço de vida, onde todas essas coisas possam falar. “Não tem como retomar as atividades normais neste momento.”
“Eu acho que é necessário fazer uma contextualização para todo mundo e até mesmo as atividades didáticas do currículo escolar precisam ser suspensas nesse momento para serem pensadas outras coisas e todo mundo ter um espaço de poder falar e de ouvir. E de ouvir especialistas, de ouvir coisas que possam, realmente, nutrir a mente das pessoas.”
O psicanalista reforça que esses atentados não são casos isolados. “Não sabemos onde e nem quando, mas vai acontecer de novo. Então, a violência precisa, sim, ser discutida no ambiente escolar: a violência nas escolas, a violência nas cidades, como estão nossos bairros etc.”
“Porque a gente só consegue, de fato, resolver alguma coisa quando isso é primeiro pensado, discutido, visto, identificado. Estamos precisando identificar muitos pontos dessa violência”, sugere Sylvio, descartando as explicações simplistas que justificam a violência.
“É social, econômico, cultural, enfim, é tudo isso, mas é muito mais que isso. E poder falar sobre isso é fundamental. Tem que ser discutido na escola, tem que fazer parte, até, da grade curricular, discutir sobre a violência que a gente está vivendo nas nossas cidades, nos nossos bairros.”
Helena Kolody: ex-aluno errou ao cometer vingança contra bullying
Para o psicanalista, a justificativa do atirador de que cometeu vingança após ter sofrido bullying na Escola Estadual Professora Helena Kolody mostra que o rapaz errou duas vezes. “A escola onde ele foi praticar o ato de violência já não era mais a mesma onde ele sofreu o bullying. Já se passou algum tempo, mas não eram mais os mesmos colegas, as mesmas pessoas, já era outro contexto. Então, ele não sofreu bullying naquela escola. Aquela escola que ele quis atacar não existe mais, está dentro dele e ele vai ter que lidar com isso dentro dele.”
“Isso é uma coisa para ser levada para as escolas: como que a gente vai lidando com as nossas frustrações e humilhações e como que a gente vai lidando, também, para que isso não aconteça”, ressalta Sylvio, destacando que é preciso discutir mais o bullying, não apenas numa dimensão do politicamente correto.
“Mas numa dimensão de que é humilhante e humilhação cria marcas. Marcas muito difíceis. Mas, mesmo quando a gente é marcado, como a gente pode ir construindo maneiras de lidar com as marcas, com as mágoas, com todas essas manchas que foram feitas”, avalia o psicanalista.
Segundo ele, “outras pessoas estão sofrendo por coisas que aconteceram a ele numa época passada e fica tudo uma grande loucura. A gente está precisando começar a colocar as coisas em pratos limpos, os pingos nos is, para não ficarmos sempre nessa loucura”.
Sylvio destaca que ainda pouco se fala em educação emocional. “A gente está carente de uma educação sentimental. Não é uma coisa que se ensina pedagogicamente, mas é algo que se discute em grupo, no coletivo, no contato com os outros.”
“A escola pode ser um espaço de grandes discussões, de grandes aberturas para novas possibilidades a gente entender a sociedade. E o que é essa educação sentimental? É como a gente lida com o que a gente sente. Porque a gente não escolhe o que a gente sente, o medo, a raiva, o ódio. Nós não escolhemos. Mas escolhemos como vamos lidar com que sentimos.”
Para o psicanalista, sem saúde mental, não há uma sociedade que consiga se organizar. “A gente pode até ter condições materiais, físicas apropriadas, mas se não houver saúde mental, vai ver aquilo que é de mais primitivo em todos nós.”
“Enquanto a gente não olhar para a saúde mental, situações de violência, de extrema desigualdade, relacionamentos tóxicos, abusos dentro da família, tudo isso vai continuar acontecendo. Porque isso não veio simplesmente do nada ou só como um evento socioeconômico, mas também como o fato de que as pessoas não sabem mais lidar com elas mesmas. E se não sabem lidar consigo próprias, elas também não vão saber lidar com o outro.”

Entenda o crime
Em depoimento à Polícia Civil, o atirador informou que seu objetivo era fazer o maior número de vítimas durante o atentado. O secretário estadual de Segurança Pública, Hudson Leôncio Teixeira, informou, durante coletiva de imprensa, que o jovem, que deixou o Colégio Estadual Professora Helena Kolody em 2014, contou que teria sofrido bullying e que, por isso, desejava vingança.
Ele entrou na escola por volta das 9h15, quando foi atendido na secretaria. Em seguida, ele foi ao banheiro, trocou de roupa e saiu com a arma em mãos, disparando tiros pelo corredor do colégio, até encontrar um grupo de alunos que praticava educação física. Foi quando atingiu primeiro Karoline e depois o namorado dela, Luan.
Ainda segundo o secretário, o rapaz teria dito do depoimento que a ideia era atirar em adolescentes da mesma idade que ele tinha quando frequentou a escola. Diferente das primeiras notícias veiculadas sobre o crime, ele não conhecia nem tinha vínculo com o casal.
Em seu depoimento, o jovem teria afirmado que comprou o revólver calibre 38 e mais 50 munições em Rolândia, há pouco mais de um mês, por R$ 4,5 mil. Com ele também foi apreendida uma machadinha, que teria sido comprada em Londrina, no último sábado (17).
O secretário de Segurança informou, ainda, que, após as buscas realizadas na casa do atirador, foram encontrados cadernos com anotações suspeitas. O conteúdo das anotações não foi divulgado, mas, segundo Hudson Teixeira, o jovem sofre de esquizofrenia.
Ainda conforme o secretário, o rapaz já tinha realizado um ataque com faca em uma outra escola e foi denunciado pelo Ministério Público. Na época, a Polícia Militar foi acionada, mas ele fugiu. Ele permanece preso em Londrina.
O ataque registrado no Colégio Estadual Professora Helena Kolody foi o terceiro atentado violento em escolas brasileiras em 2023, deixando sete mortos. Em abril, um homem invadiu a creche Cantinho Bom Pastor, em Blumenau (SC), no Vale do Itajaí, matando quatro crianças e ferindo outras três. O autor foi preso após se entregar na central de plantão policial da região.
No fim de março, a professora Elizabeth Tenreiro, 71 anos, morreu após ser esfaqueada na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo. Um adolescente de 13 anos, responsável pelo ataque, foi apreendido.
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