Por Beatriz Herkenhoff e Diego Rodrigues de Miranda*
“Quando a gente mesmo não se ama, nenhum amor é capaz de nascer inteiro”
Conheci Diego, o Cavaleiro Andante em 2016. Chegou ao Espírito Santo, após uma longa jornada. Saiu a pé de São José dos Campos (SP) e percorreu mais de 1000 quilômetros caminhando pelo litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Identifiquei-me com suas poesias e encantei-me com sua coragem e determinação, mas o que os outros chamavam de coragem, Diego chamava de imprudência.
A sua motivação para largar tudo e plantar sementes de poesia por onde andou foi algo mágico.
Diego relata que se tornou um usuário de “pó… esia” aos 7 anos, quando teve contato pela primeira vez com as poesias “Quem sou eu?” e “Identidade”, de Pedro Bandeira.
“Desde então não parei mais. A poesia foi a válvula de escape que eu encontrei para chorar os infortúnios, as fossas, as brigas entre a minha mãe e o meu pai de coração, a tristeza pela ausência do pai biológico que não me assumiu. A poesia possibilitou também que eu sonhasse e acreditasse. Depois veio o rap, ritmo e poesia em forma de protesto. Passei a escrever poesia ritmada e virei cantor.”
Diego conta que em 2010 começou a trabalhar com a poesia de forma remunerada, ministrando oficinas palestras e workshops. Foi contratado pela Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente em Conflito com a Lei), antiga FEBEM.
“Tornei-me professor de literatura marginal e periférica. Fiquei lá 5 anos até sair para a caminhada, em 2015.”
“Nesse espaço, eu evoluí como ser humano. Os meios de comunicação enaltecem o bandido, o vilão, o monstro, mas lá eu conheci o lado humano de cada adolescente que a mídia não mostra.”
Diego também dava aula de história e geografia no Instituto Pandavas, na cidade de Monteiro Lobato, e trabalhava dando oficinas de poesia para a terceira idade na Casa do Idoso Sul, em São José dos Campos.
Diego contou que “durante uma aula na Fundação CASA, um aluno perguntou: por que o senhor não traz as suas poesias para que a gente possa ler? Eu respondi: prefiro trazer de outros autores, porque eu acho que acrescentam mais, como: Mario Quintana, Manoel de Barros, Cora Coralina, Cecília Meireles, Gabriel O Pensador, Sérgio Vaz”.
“O aluno insistiu e, na aula seguinte, eu levei minhas poesias. Fizemos uma roda, distribuí entre os alunos mais de dez cadernos com minhas poesias escritas à mão. Começamos a leitura juntos, fomos interagindo, quando gostavam, eles diziam que iam mandar para a mãe, para a namorada ou pediam explicação sobre aquilo que não tinham entendido.”
“O aluno que pediu para eu levar os poemas me disse: quando vai sair o seu livro? Eu perguntei: que livro? E ele repetiu: quando vai sair o seu livro? Respondi: Não sei não, tem que ver, eu não sei se eu sou bom, tem que ver, pois não é tão fácil publicar um livro.”
“Ele levantou e me disse: você é louco, tio? Você vem aqui e fala para nós mudarmos de vida, para largarmos o crime, para acreditarmos em nossos sonhos. Diz que podemos ser o que quisermos, que vamos fazer um livro em grupo. E o que você está esperando para publicar o seu livro? Ficar preso também?”
“Ficou um silêncio no ar, eu não soube como responder. Fui para casa pensando. Vi que estava preso a um falso conceito de que eu não poderia viver da poesia.”




“Achamos que a prisão só acontece quando o corpo está preso, mas a minha cabeça e meu coração estavam presos. A reflexão do aluno foi fundamental para eu olhar para mim. Eu vivia um momento de muita dor e depressão, um sonho meu não tinha se realizado e eu estava caminhando para um poço sem fundo em que deixar de viver era uma possibilidade.”
“Esse aluno mudou minha vida. Foi através do resgate do meu sonho de viver da palavra que consegui superar a depressão. Resolvi fazer um movimento contrário, me apegar à palavra e fazer dela combustível para voltar a caminhar em direção a um novo sonho,”
Recentemente, Diego publicou o livro “V.I.P.I.A. versos imprecisos para infantilizar adultos”. O livro é ilustrado com as belíssimas e delicadas aquarelas de Delza Lombardi. Em sintonia com os escritos de Diego, Delza fez poesia com suas aquarelas.
“Esse livro é sobre um Diego que ‘adolesceu e adoeceu’ e que foi obrigado a ‘adultecer e endurecer’. Esse livro é mais sobre a confusão que ele não dava conta de entender naquele momento passado, mas que encontrou refúgio e acolhimento na poesia. Desesperado para se encontrar, tentou fugir de todo mundo, quando na verdade só estava fugindo de si mesmo e, na busca de se encontrar, se perdeu.”
Para mim é muito impactante ouvir Diego e ver o resultado do seu trabalho com adolescentes e jovens. Ele colocou sua dor a serviço, possibilitou encontros e diálogos, ouviu e foi ouvido. Ao ensinar, aprendeu, cresceu e possibilitou crescimentos. Ao escrever poesias, estimulou para que os jovens fizessem o mesmo. E nessas trocas, encontrou seu próprio caminho.
Não julgou, não condenou, simplesmente partilhou as suas angústias, por meio da sua poesia. Tocou corações e muitos sentiram-se motivados a ter um encontro consigo mesmo. Deixaram despertar a arte que estava adormecida.
Como escreve Diego:
“Gosto da beleza
Escondida nas sutilezas
Da vida
Como por exemplo
Hoje
O Céu cinza
Dando lugar ao céu azul. Esperança.”
O livro “V.I.P.I.A. versos imprecisos para infantilizar adultos” contextualiza o Diego antes de iniciar a sua jornada, antes de se tornar um Cavaleiro Andante. Esse livro é um prólogo poético.
A ideia é que, em 2024, seja lançado o primeiro volume da Saga Cavaleiro Andante, que vai narrar a histórias da caminhada, os causos, os poemas e as situações vividas durante a sua jornada.
Ao caminhar tantos quilômetros a pé, Diego achou que estava se isolando, mas, na realidade, estava agrupando, agregando, incluindo.
Ao ouvir os jovens, contribuiu para que encontrassem o fio para desemaranhar as cordas que os paralisavam.
Ao chegar no Espírito Santo, em 2016, Diego foi recebido por Claudio Vereza, Tereza Lodi, Ana Maria Pereira, Dante Pola e Delza Lombardi.
Amigos que o acolheram, apoiaram, deram suporte e condições para Diego ter um canto para morar, repousar e deixar sua poesia desabrochar, fluir e se espalhar.
Eu li o livro do Diego num fôlego só. Diego é pura poesia. Joga lindamente com as palavras e nos faz refletir sobre a vida. Não fica na superficialidade, mergulha em suas entranhas e toca as feridas. Permite que a dor vire poesia e encontra a cura pelo poder das palavras.
“Fui tirando as cascas
Que haviam em mim
Secas, rotas
Uma camada de angústia,
Outra de tristeza,
Uma camada de aflição
E outra de incerteza
Me cortei
Me limpei, me podei.
Fiz mudas de mim
E me distribui a todos,
Esperando que ao menos um
Me plantasse em seu coração.”
Diego nos convida a fazer o mesmo. É preciso ler e reler lentamente cada página para degustar a sutileza e profundidade dos seus poemas. Permitir que suas palavras façam mudanças em nós. Deixar vir à tona nossas humanas contradições, cortar, podar, fazer mudas…
Tive a alegria de reencontrar Diego Cavaleiro Andante em junho de 2023. Fizemos o lançamento do seu livro num ambiente mais íntimo, no apartamento dos amigos Ana e Dante.
Para minha surpresa e alegria, a poesia contribuiu para que Diego desenrolasse os fios que o levavam a procrastinar e adiar decisões importantes.
Diego encontrou o grande amor de sua vida, Júllia, uma linda mulher que também é pura poesia, delicadeza e afeto. Com os olhos verde mel, nos envolve com sua sabedoria.
Está casado com Júllia e têm dois lindos filhos: Caetano e Valentim. Continua espalhando sua poesia e trabalhando com adolescentes e jovens. Decidiu residir no Espírito Santo, mas não desistiu de sua jornada inicial quando pretendia chegar até o Delta do Parnaíba, na divisa do Maranhão com o Piauí.
Afirma que precisou parar e se organizar melhor para entender como irá continuar essa caminhada com Júllia, Caetano e Valentim. “Caminhar não significa que seja necessariamente a pé, posso continuar essa jornada de carro, de ônibus ou de avião. Hoje sei que não caminho mais sozinho, eu caminho com eles ao meu lado e sempre em meu coração”.
Eu concluiria essa história dizendo que Diego foi um adolescente que se perdeu, mas que se encontrou porque teve coragem de buscar com ousadia, com poesia, mas também porque foi acolhido por uma rede de afetos que permitiu que mesmo se sentindo no fundo do poço, ele pudesse encontrar novos caminhos em busca de seus sonhos.
E Diego conclui: “Ao me questionar o jovem ajudou um poeta a se libertar. Foi forte a pergunta dele: Você está esperando o que? Ficar preso? E eu convido você a libertar a sua poesia, poeme-se sempre”.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
*Diego Rodrigues de Miranda – Diego Cavaleiro Andante, é professor de poesia e produtor cultural. Já estudou Comércio Exterior, Gestão Empresarial, História, Serviço Social e Fotografia. Se especializou em Empreendedorismo Social pelo Programa Iniciativa Jovem da Faculdade Anhembi Morumbi em parceria com a Laureate Foundation e International Youth Foundation. Atualmente é mestrando das periferias e quebradas, com a linha de pesquisa “Rexistência: Porque resistir é existir”. Em 2017 lançou o seu primeiro CD intitulado #ISSOAQUINÃOÉRAP e publicou os seguintes livros independentes: Ensaio Poético Sobre a Teoria das Coisas (2018); Palivrar (ebook, 2020) e o Homem Que Quase Fez (2021). Em maio de 2023 lançou o Livro V.I.P.I.A. Versos Imprecisos Para Infantilizar Adultos e atualmente está no processo de finalização do seu segundo álbum musical intitulado “Palavras Mal Ditas”.
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