Mulheres da Cadeia Feminina de Londrina puderam dançar forró e apreciar comidas típicas
Texto e Fotos: Nelson Bortolin
Na tarde da última quarta-feira (5), teve festa junina na Cadeia Feminina de Londrina, que fica na Rua Serra do Roncador, Jardim Bandeirantes (zona oeste). Foi o 5º encontro com as presas promovido pelo projeto Mãos Solidárias, criado no ano passado pelo padre José Cristiano Bento dos Santos, da Comunidade Nossa Senhora de Fátima, do Jardim Sabará.

Divididas em cinco grupos, as detentas se revezaram num pátio interno e puderam se deliciar com comidas típicas e dançar forró tocado por um sanfoneiro voluntário.
“A partir do momento que a gente vem para cá, a sociedade nos discrimina muito. Essas festas são uma demonstração de compaixão e amor e fazem a gente sentir que não está abandonada”, contou à reportagem da Rede Lume uma presa de 51 anos. “É um momento de paz e alegria. É como se a gente saísse daqui um pouco.”
Ela está há três anos e quatro meses na cadeia e espera ir para casa até o final do ano. Mesmo estudando na escola mantida dentro da unidade e fazendo crochê, a mulher relata que ainda sobra tempo durante o dia e que, às vezes, sente tédio. “A hora não passa.”
Questionada sobre o que pretende fazer quando deixar a cadeia, responde: “A primeira coisa é nunca mais voltar para cá. É não me envolver com nada que possa me trazer de volta. Esse é o meu sonho.”
Outra presa, de 25 anos, faz um relato parecido. “Quando vem o pessoal do projeto, a gente sabe que tem alguém lá de fora olhando para a gente, lembrando da gente. É um alívio”, conta ela, que está há dois anos na unidade e ainda vai permanecer lá por um ano e meio. “Depois que termina a festa, dá um pouco de tristeza, mas é sempre bom saber que tem gente por nós.”
A presa faz faxina na cadeia como forma de remição da pena. Sobre o tratamento que recebe dos funcionários da unidade, ela diz que é “razoável”. “Poderia melhorar. Tem gente que acha que, porque a gente está presa, pode nos tratar mal”, relata, ressaltando que esse comportamento não é generalizado. “Tem muita gente boa também.”
Uma detenta de 26 anos, que chegou há cinco meses na unidade e espera sair “o quanto antes”, era a mais animada do grupo. “Se Deus quiser vou ficar pouco tempo.” Ela diz que o projeto Mãos Solidárias é “maravilhoso”. “Dá uma tranquilidade saber que a gente é lembrada. Eu amo quando eles veem.”
Evangélica, conta que sua fé aumentou depois que foi presa. “Agradeço a Deus todos os dias por me mandar para cá. Muitas vezes, Deus quer mostrar algo diferente, nos ensinar”, justifica.
A jovem se diz satisfeita com o tratamento que recebe. “Somos bem tratadas. A comida é boa e a gente pode estudar, glória a Deus.” Ela está terminando o ensino fundamental e vai começar o médio. “Quando terminar, quero estudar psicologia.”
Uma senhora de 56 anos chamava a atenção porque chorou durante boa parte da festa. “Faz muito tempo que estou longe da minha família, dos meus netos”, conta. Ela foi presa há dois anos e meio e vai ficar na cadeia até meados do próximo ano. “Eu fico feliz quando tem festa, mas, quando volto para dentro, fico triste de novo.”
Sobre o futuro, diz que quer apenas sair da cadeia a ajudar a filha a cuidar dos netos.
Mãos Solidárias
“Somos mãos estendidas para essas mulheres privadas de liberdade, que passam o tempo todo nesse ambiente de desumanização, que muitas vezes retira a dignidade da pessoa”, afirma o padre Cristiano. Ele conta que os encontros anteriores foram em datas como Natal, Páscoa e Dia das Mulheres. “Proporcionamos esses momentos de alegria, de transcendência. Buscamos mostrar que, mesmo estando aqui presas, há pessoas lá fora que se preocupam com elas.”
Além de padre, ele é professor da PUC, onde dá aulas de teologia, sociologia e filosofia.
Participam do projeto a comunidade da igreja, professores universitários, aposentados e servidores do Judiciário e da Assistência Social, além de integrantes do Conselho Tutelar.
Lotação máxima
Segundo a gestora da cadeia, Soraya Ursi, a unidade tem capacidade para receber 169 presas, mas abriga atualmente 188. Mesmo com esse excesso, ela garante que é possível cumprir o papel de ressocializar as mulheres. “Durante o período que elas estão aqui, tentamos trabalhar com elas aspectos sociais e psicológicos para que voltem melhores para a sociedade.”
A escola dentro da cadeia é uma aliada importante nesse processo. “Muitas buscam a remição das penas por meio dos estudos, seja completado o ensino fundamental, médio, se preparando para o vestibular ou fazendo cursos profissionalizantes.”
A gestão da unidade busca aproximar a sociedade das presas. E o projeto Mãos Solidárias é um dos instrumentos utilizado para atingir esse objetivo. “Em todos os eventos, tentamos fazer uma integração delas com a comunidade.”
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