Dos 200 anos na Bahia, em 2023, aos terríveis 200 anos à margem do Ipiranga, em 2022: por uma virada historiográfica decolonial
Márcia Neme Buzalaf
Aula 1 – “Brasil, há tanto sangue nestas terras que eu preciso te ressignificar para te amar”
Não lembro exatamente qual personagem disse esta frase, e olha que assisti duas vezes ao espetáculo “Resistência Cabocla”, do Bando de Teatro Olodum, no Largo do Campo Grande, na linda Salvador. Fui na estreia, sexta, dia 30, iniciando a programação de 200 anos da Independência do Brasil na Bahia. Até Lázaro Ramos, padrinho do Bando, estava. Fiquei tão impactada pelo espetáculo que fui novamente no sábado. Iria quantas vezes pudesse.

Contei pelo menos 40 pessoas transitando, tocando, pulando naquele palco – e fora dele – durante a catarse. Todas as disputas e contradições estavam ali postas em símbolos e sons, no clássico teatro de rua, na praça, com algumas gotas de chuva, muitas gargalhadas e uma dança coletiva no final que integrou Olodum e nós, admiradores.
Mirna é a personagem crítica à comemoração dos 200 anos da Independência na Bahia; Luque vê os festejos com alegria e orgulho. Ambos entram no sonho da rememoração: ideal de busca do passado que não entrega verdades, mas valoriza as lembranças de resistência travadas por corpos escondidos. Mirna e Luque, as Marias todas, o travesso Corneteiro Lopes, a libertadora freira Joana Angélica, a batalha de Pirajá, os Tupinambás, o clássico do futebol baiano BaVi, as marisqueiras….
Até hoje. Aula 2 –-Bahia, capital do Brasil
“Lembra que o nosso povo, o povo baiano, sempre resolveu os problemas da Bahia…. e do Brasil?”, assim falou Exú, do Bando de Teatro Olodum. Tão certeiro se pensarmos nas decisões eleitorais de 2022.
Não foi completamente planejado, mas não é que, além de participar do 2 de julho em Salvador, eu passei o 7 de setembro do ano passado em São Paulo, quando se comemorou os 200 anos daquela que é considerada a Independência Oficial do Brasil?

Contextos completamente diferentes. Parto do 2023 para pensar o 2022.
Senti o abismo das datas no meu corpo: o medo de andar na Avenida Paulista no 7 de setembro de 2022 foi tão intenso quanto a liberdade de andar por Salvador no 2 de julho de 2023.
A história oficial teve o discurso “imbrochável”.
A exposição temporária Memórias da Independência não estava pronta no Museu do Ipiranga. A Cabocla, um dos símbolos da resistência baiana, ainda não estava lá. Talvez, se já estivesse em São Paulo, quem sabe o autodeclarado imbrochável não teria cuidado, ao menos, com as palavras. O levante de 2 de julho na Bahia deveria ser a Independência do Brasil para todo Brasil. Pensar em como senhores de terras (futuros coronéis), mulheres, escravizados, ex-escravizados, indígenas, todes se uniram contra os portugueses – sem muita estrutura, é verdade, mas com toda força, articulação e conhecimento – nos compõe.“Aqui em Itaparica, não, malandro”.
Formavam-se barreiras. Eles que passem fome! O trajeto do cortejo do 2 de julho sai da Lapinha e sobe o Pelourinho, até chegar no Campo Grande, um Largo que abriga tantos eventos culturais em Salvador, inclusive o Carnaval. Foi bonita a festa. Fanfarras. Pipoca. Queijo Coalho. Orquestras e bandas e agrupamentos indígenas do Recôncavo. De Cachoeira. De Itaparica. Salvador… Tinha também um tanto de políticos facilmente reconhecidos pelos seus termos monocromáticos que destoavam do colorido da festa.
Toquei na Cabocla e no Caboclo.
Primeiro, agradeci. Depois, fiz meu pedido.
Aula 3 – “Folha de arruda, pé de coelho e sal grosso”
Os festejos que encaminharam para o fim do 2 de julho começaram com a Orquestra Afrosinfônica na Praça Cairu, abrindo o Sambaqui Show, coordenado pelo BaianaSystem e com a participação de tantos artistas… Em alguns momentos, chorei. Em outros, achei que estava no Carnaval. Também gritei, com todo pulmão, I-ne-le-gí-vel, Sulamericano, folha de arruda, pé de coelho e sal grosso. Tocaram Raul ali, na praça tão próxima do Bar do Raul, que fica numa das tantas ladeiras exigentes de Salvador. Só quem conhece domina a topografia da cidade, portuga.

Show de música? Espetáculo teatral? Ópera do povo para o povo?
As caixinhas não funcionam muito bem quando a arte ancora os dois pés no seu tempo presente, com o dolorido torcicolo sobre o passado. Não tem caixa que caiba.
Temos uma certeza: fomos do “imbrochável” ao “inelegível”.
Axé.
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