Escrito por Beatriz Herkenhoff, Elias Rocha* e Marcos Coutinho**
Todos nós passamos por perdas. E quando isso acontece temos que ter coragem de buscar ajuda, entrar em contato com nossas fragilidades e impotência. Viver o luto e ressignificar o sentido da nossa existência. Em momentos difíceis, os amigos exercem um papel fundamental no resgate do amor, da autoestima e da potência para recomeçar.
Recentemente escrevi uma crônica sobre “A construção de redes de afeto.” Elias Rocha e Marcos Coutinho disseram que a crônica os fez lembrar do Grupo de Apoio que eu criei nos anos 1980. Naquela ocasião, eu trabalhava como assistente social na Oficina de Locomotivas, na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Os problemas psíquicos e emocionais relacionados à dependência química (álcool e outras drogas) eram graves e exigiam uma formação específica para lidar com os mecanismos de defesa (projeção, minimização, negação) que se constituíam em obstáculos para a pessoa admitir que precisava de tratamento.
O Serviço Social da Vale desenvolveu um amplo e potente trabalho com Dependência Química. Sua equipe fez uma formação em Centros Especializados em Tratamento de Dependentes Químicos, como Vila Serena, no Rio de Janeiro e Reindal, em São Paulo.

Também realizamos cursos com o objetivo de capacitar supervisores e engenheiros para um diagnóstico precoce do problema e para uma abordagem conjunta do Serviço Social, com o Serviço Médico e os familiares. Ações que contribuíram para que muitos dependentes químicos aceitassem ajuda. Nesse contexto de recuperação foi criado, na Oficina de Locomotivas, o Grupo de Apoio, com reuniões semanais, no local de trabalho.
Convidei Elias Rocha e Marcos Coutinho para escrever esta crônica comigo e falar dessa experiência tão rica. Marcos Coutinho relata que “no momento em que eles eram rejeitados e considerados a escória da sociedade devido à dependência química, eu, como assistente social, construí uma rede de afetos em que cada um se sentiu apoiado, acolhido, amado, ouvido, não julgado, respeitado e valorizado.”
Marcos continua: “O Grupo de Apoio resgatou o que cada um tinha de mais belo. Fortaleceu a vontade de mudar e construir um projeto de vida diferente.” “Possibilitou que cada um cuidasse de si e dos que se encontravam em situação semelhante.”
Eu acrescento que as trocas entre aqueles que tinham perdido tudo, devido ao uso abusivo do álcool ou de outras drogas, possibilitaram mudanças. Saíram do lugar de vítimas, adotaram posturas ativas de transformação. O preconceito em relação à dependência química predominava no ambiente de trabalho. Mas ao participar do Grupo de Apoio, eles foram construindo vínculos de afeto e de pertencimento.
Nasceu um novo olhar sobre cada um que frequentava aquele grupo. Um olhar interior de autoconhecimento, autovalorização, autoimagem positiva e resgate da autoestima. Um olhar honesto sobre os defeitos e as perdas geradas pela dependência química. Mas também um olhar sobre as qualidades e potencialidades.
Durante as reuniões sentavam em círculo e falavam de sua história. Tinham a oportunidade de analisar as perdas e admitir que chegaram ao fundo do poço, não conseguiam ver a luz no fim do túnel. Essas trocas geravam a confiança de que poderiam encontrar soluções.
Os membros do Grupo de Apoio passaram a desempenhar um papel muito importante no próprio local de trabalho. Tinham a experiência para identificar pessoas que viviam situações semelhantes e convidá-las para participar do Grupo de Apoio.
Com a palavra Elias: “Meu nome é Elias Rocha, eu trabalhei na empresa Vale do Rio Doce de 1974 a 1997, quando aposentei.” “Em 1975, experimentei pela primeira vez a bebida alcoólica. Não demorou muito para eu me tornar dependente químico. Durante onze anos bebi compulsivamente, com graves consequências e perdas no trabalho e na vida pessoal.”
Elias continua: “Em abril de 1986, participei pela primeira vez de uma reunião do Grupo de Apoio.” “O mesmo já funcionava na empresa e era coordenado pela assistente social Beatriz.” “Eu confesso que não foi fácil participar, a porta daquela sala parecia que pesava uma tonelada. Respirei fundo, abri a porta e entrei. Eu tremia demais, mas pude perceber que tinha algo diferente naquela sala. Estava acostumado a ver as mãos apontando para minhas culpas, minhas falhas e minhas fraquezas. E ali, eu vi as mãos estendidas, oferecendo ajuda.”
“Encontrei pessoas que lutavam pelos mesmos objetivos. Estou há 37 anos sem ingerir bebida alcoólica.” “Gostaria de destacar alguns aspectos do Grupo de Apoio. O primeiro foi entender o que é a dependência química. Beatriz, com sua experiência fantástica nesta área, ajudou nesse processo.”
“Com muita sabedoria e carinho, ela passava segurança e conhecimento a respeito da dependência.” “Conseguimos munição para lutar contra a mesma. Passamos a nos apoiar mutuamente para buscar a sobriedade e uma estrutura interna serena. A ajuda mútua fez toda diferença.” “Funcionávamos como se fossemos uma cooperativa, cada um deposita a sua contribuição e usufruímos coletivamente dos frutos.”
“Ainda hoje converso com vários companheiros que participaram do Grupo de Apoio e observo que construímos uma verdadeira irmandade. Nos tornamos íntimos.” “Confesso que aquela primeira reunião foi um passo importantíssimo na virada de um jogo em que eu estava perdendo de goleada.”
“O sucesso de um grupo depende da confiança e do respeito. Nós tínhamos confiança no Grupo de Apoio. Abrimos o coração e partilhamos os medos, as tristezas e as dúvidas. Como tínhamos a liberdade de expor nossos sentimentos para o grupo, tudo acontecia. E havia também um grande respeito. O que era dito, ali ficava. O sigilo era garantido por todos.”
“A confiança foi fortalecida ao sentir que estávamos unidos e preservando a integridade do grupo.”
“A figura de Beatriz era muito importante para nós porque ela não estava ali apenas como uma líder que apontava as falhas. Ela estava ali para ouvir, nos apoiar e ajudar a vencer as nossas dificuldades.”
“Destacaria também a importância do dr. Fernando. Uma figura maravilhosa que sempre nos acolhia quando íamos ao Posto Médico. Dr. Fernando participou de uma reunião do Grupo de Apoio. Com muita humildade disse que estava ali porque precisa aprender com a gente sobre como lidar com a dependência química. Isso foi fundamental para elevar a nossa autoestima.
Eu me lembro da fisionomia de cada um se sentindo valorizado naquilo que tinha a oferecer.” “
Outro diferencial é que o relacionamento não ficava restrito ao espaço da reunião. O carinho, o afeto, o cuidado mútuo continuava no local de trabalho e nas visitas que fazíamos quando tinha alguém com alguma dificuldade.”
Eu, Beatriz, sinto-me honrada e privilegiada por ter participado desse grupo. Aprendi muito com cada um que entrou no processo de recuperação, de sobriedade e mudança de vida. Também transformei a minha vida a partir desta experiência grupal.
Sempre que me sinto triste e impotente diante de um acontecimento, eu faço a oração da serenidade proposta por Alcoólicos Anônimos: “Senhor, dai-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar. Coragem para mudar aquelas que posso. E sabedoria para distinguir uma da outra.”
*Elias Rocha é aposentado, 25 anos de trabalho prestado a CVRD. Formado em teologia pelo Cebive, membro e vice-presidente da segunda Igreja Batista em Jacaraipe.
**Marcos Coutinho. Aposentado, 25 anos de trabalho prestado a CVRD. Sóbrio há mais de 35 anos. Aprendi com o Grupo de Apoio a importância da solidariedade. Participo de visitas às pessoas que estão precisando de um ombro amigo.
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