Quase três anos após a morte do jovem, a mãe Adriana Arantes diz que está começando a recolocar a vida “no eixo”
Nelson Bortolin
A empregada doméstica Adriana Arantes é uma das integrantes mais participativas do Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta, de Londrina. Ela perdeu o filho, Gabriel Rodrigo Arantes, que foi morto pela polícia dia 16 de novembro de 2020, com apenas 20 anos de idade.
A versão oficial, como em todos os casos de mortes em decorrência de ações policiais, é de que Gabriel reagiu a uma abordagem e os policiais tiveram de atirar contra ele para se defender. A mãe, no entanto, acha que o filho foi executado. Isso porque, desde que ele saiu do sistema prisional, onde cumpriu pena por tráfico, vinha recebendo ameaças constantes de um grupo de policiais.
Segundo Adriana, para mantê-lo vivo, os PMs queriam que Gabriel Arantes entregasse a eles uma arma de fogo, exigência que não foi atendida. Esse tipo de conduta por parte de policiais de Londrina já é investigado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná. Policiais do 30º Batalhão da Polícia Militar (BPM) são suspeitos de concussão – crime praticado por funcionário público para obter vantagens para si ou outra pessoa.

O 30º BPM é responsável pelo policiamento da zona norte, onde mora Adriana. Os policiais são acusados de exigir de um traficante, além de arma, R$ 10 mil. Quatro PMs foram presos na operação Rebote do Gaeco, no dia 5 do mês passado. Veja no link. https://mppr.mp.br/Noticia/Gaeco-cumpre-ordens-de-busca-e-apreensao-e-prisao-contra-PMs-suspeitos-de-envolvimento-com
Segundo o Gaeco, em dezembro do ano passado, por meio de mandados de busca e apreensão, foram encontradas na sede da Rotam do 30º BPM várias armas e munições sem procedência ou origem e drogas diversas. Armas sem numeração são plantadas por PMs corruptos para incriminar pessoas e forjar confrontos. Inclusive há casos em que essas armas são colocadas junto a corpos de pessoas mortas pelos policiais, como se vê em vídeo publicado pelo G1. Confira.
Adriana Arantes acredita que esse também tenha sido o caso do filho dela. No dia da morte de Gabriel, a PM diz que encontrou junto a ele uma pistola da marca Glock calibre 9mm com 15 munições intactas e apenas uma deflagrada. Drogas também teriam sido achadas no compartimento de carga da Honda Biz que o jovem pilotava.
“Tudo isso foi plantado. A quantidade de drogas que disseram que encontram nem cabia na Biz”, diz a mãe. Ela garante que o filho havia abandonado o crime, estava trabalhando vendendo frango junto com a dona da motocicleta e não tinha dinheiro para comprar a arma. “Meu filho estava tentando mudar de vida. A polícia colocou ele como se fosse uma espécie de atirador de elite e grande traficante. Mas ele não tinha dinheiro nem para comprar um chinelo.”
AS AMEAÇAS
Quinze dias antes da morte, Adriana e a família se mudaram da casa própria no Jardim Primavera, nos Cinco Conjuntos, e alugaram um apartamento no Coliseu (também na zona norte) para, segundo ela, tentar fugir das ameaças dos PMs. Os policiais viviam rondando a casa e jogavam luz alta da viatura dentro da residência. “A gente vivia com medo.”
A família também recebeu um recado de forma cruel. “Pegaram um nóia e bateram muito nele. Depois mandaram essa pessoa nos avisar que era para a gente começar a se preparar para o velório do Gabriel. Era para a gente comprar camiseta branca para estampar o rosto do meu filho”, conta.
O inquilino da casa de Adriana também passou por maus momentos. “Acordaram ele com revólver na cara perguntando por Gabriel”, alega.
O DIA DA MORTE
Adriana lembra bem do último dia de vida do filho. “Ele tinha saído para ir a lotérica pagar um boleto com a Biz da sócia dele. Depois ia devolver a Biz e pegar um uber para voltar para o apartamento. Era uma segunda-feira.”
O que a mãe sabe sobre os últimos momentos de Gabriel Arantes ela ouviu de pessoas que teriam presenciado as cenas, mas não têm coragem de testemunhar.
Depois que saiu da lotérica, Gabriel deu se deparou com uma viatura da Choque no Conjunto Maria Cecília. “O policial pegou meu filho pelo braço e levou para uma construção. Ele gritava. Dizia para os policiais que estava desarmado”, conta.
Adriana soube que o filho havia sido baleado por meio de uma ligação. “Uma amiga me avisou. Naquela hora, eu corri, peguei um uber e fui para o local. Minha irmã, que mora perto, já tinha ido. Mas eu não pude ver meu filho porque fizeram isolamento de uma quadra”, recorda.
Adriana não esquece do clima de comemoração que havia entre os policiais. “Estavam totalmente loucos, parecia que tinham ganhando um prêmio.”
DESTINO EM COMUM
Muitos jovens amigos de Gabriel Arantes , segundo Adriana, também foram mortos pelo mesmo grupo de policiais. Ela conhece um especificamente, que foi criado no bairro. “Todos que morreram estavam jurados de morte.” Adriana não sabe como estão as investigações do caso. “Passei por muita coisa, eu tenho de lidar praticamente sozinha com tudo isso porque meu ex-marido (pai do Gabriel) e minha mãe não dão conta nem de falar sobre o assunto.”
Agora é que ela está colocando a vida “no eixo”. E vai procurar um advogado. “Quero ter uma resposta sobre a morte do meu filho. Quero processar o Estado porque foi o Estado que o executou.”
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