A secretária Ana Karolina luta pelo esclarecimento da morte do irmão e quer justiça

Nelson Bortolin

Na tarde do dia 21 de fevereiro do ano passado, a secretária Ana Karolina Scarpelini, 25 anos, foi avisada pelo vizinho de que um carro parecido com o do irmão dela estava sendo abordado pela PM numa rotatória da Avenida Winston Churchill, na zona norte, em Londrina. Ela ligou para o irmão e, como ele não atendeu, resolveu ir até o local.

O vizinho não teve coragem de contar, mas já sabia que algo grave havia acontecido. José Maria Aranda Neto, 25 anos, foi morto pelos policiais.

José Maria Aranda Neto

A versão da PM é de que o jovem, que estava de carro, se envolveu numa briga de trânsito na Rua Bahia, no centro da cidade, e apontou uma arma de fogo para um motociclista. Depois, teria saído em alta velocidade, sendo perseguido por uma viatura. A polícia alega que, já na Avenida Winston Churchill, ele também apontou a arma para os PMs que, para se defenderem, desferiram nada menos que 15 tiros contra José Maria.

Ana Karolina não acredita em nada disso por uma questão “de lógica” e pelos comentários feitos por pessoas que presenciaram a abordagem. “O motociclista com quem ele teria brigado nunca foi apresentada para comprovar essa versão”, conta. Além disso, a avenida tem fiscalização eletrônica. “Se meu irmão tivesse correndo da polícia certamente uma multa teria chegado na casa dele.”

A polícia diz que José Maria tinha um mandado de prisão em aberto contra ele por receptação, mas a irmã nega. Ela admite que o jovem teve passagem por envolvimento com drogas. Mas não foi processado porque teria sido considerado usuário.

“Teve gente que viu meu irmão pedindo pelo amor de Deus para não atirarem nele, mas uma viatura que chegou pela lateral desferiu três tiros e outra que chegou pela frente deu os outros tiros”, afirma.

Um dos disparos atingiu a mão de José Maria e, segundo a irmã, isso prova que ele tentou se defender com a mão. “Não poderia estar segurando uma arma então.”

CENA DE MORTE

A secretária conta, que ao chegar ao local onde o irmão foi morto, identificou o carro de longe. “Os policiais fizeram um isolamento muito grande.” A cunhada dela (mulher de José Maria) e o sobrinho de apenas oito meses também foram para lá. “Não deixaram a gente chegar perto. Eu sabia que era meu irmão, mas fiquei perguntando para os policiais o nome da pessoa. Disseram coisas do tipo: ‘É um fugitivo da polícia’. ‘É esse mesmo que vocês estão pensando’”, recorda.

Ana Karolina chegou antes da ambulância. “Muita gente me contou que viu a cena e que a história não era nada do que a polícia falou, mas essas pessoas têm medo de testemunhar.”

De qualquer forma, a viúva não quer mexer no caso. “Só ela que pode mover uma ação contra o Estado. Mas não quer expor o filho”, conta.

Momentos antes de ser morto, o irmão havia publicado uma foto no Instagram fazendo uma corrida no Lago Igapó. Segundo a secretária, ele corria todo dia naquele horário. E a Rua Bahia não era o caminho que fazia para voltar para a casa.

Ana Karolina integra o Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta e quer saber o que de fato ocorreu com o irmão. “Ele era uma pessoa que cuidava de todo mundo na família. Estava desempregado e ajudando a mulher a cuidar do bebê.” No próprio Boletim de Ocorrência, está escrito que José Maria não fez nenhum disparo, o que corrobora o uso desproporcional da força pela PM.

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