Por Beatriz Herkenhoff*

Desde o momento em que somos gerados nos colocamos em movimento.

Movimento de luta pela vida e pela sobrevivência.

Movimento para nascer, para lidar com as primeiras adversidades, para se comunicar, falar, compreender o universo adulto e o mundo que nos recebe.

Movimento para engatinhar, ficar em pé, andar, fazer birra, resistir, garantir a individualidade, a autonomia e a independência.

Movimento para perguntar os porquês, juntar as letras, escrever as primeiras palavras, compreender o mundo da matemática, da ciência, da geografia e da história.

Movimento para ser aceito na escola, para afirmar sua capacidade de ser e estar no mundo.

Movimento para ser amado em suas crises como criança, como adolescente, como jovem e na passagem para o mundo adulto.

Foto: Carlos Monteiro

Movimento em direção ao outro que acolhe, dá colo, segurança, amor, reconhece e elogia.

Confirma que temos um lindo lugar nesse mundo!

Movimento para sentar no chão e brincar com as crianças, olhar nos olhos, gargalhar, dar e receber muito amor.

Movimento de superação da precariedade, de busca por um emprego, um pedaço de terra, um teto para morar.

Movimento para colocar o pão à mesa, ter direito a um salário digno, a um sono tranquilo e restaurador. 

Movimento para mergulhar no sofrimento. Para aprender e crescer com a dor. Para tornar-se uma pessoa melhor diante da imprevisibilidade da vida.

Movimento para aprofundar a experiência de fé, para orar, clamar, entregar, confiar e agradecer.

Movimento para se conhecer cada vez mais, para se acolher em seus limites, contradições e humanidade.

Movimento para realizar a alquimia dos alimentos. Misturar cores, sabores, cheiros e texturas.

Movimento para realizar a alquimia da vida. Para criar, recriar, dar sentido à existência, tornar o cotidiano alegre e pleno.

Movimento para cuidar de si e de suas raízes.

Cuidar da terra, plantar, adubar, colher e repartir.

Movimento para não julgar, não apontar o dedo, não condenar. Para respeitar o outro em suas escolhas.

Movimento para resgatar a sua potência, competência e capacidade de recomeçar. 

Movimento para fortalecer a convivência familiar, cuidar dos laços, aprofundar os vínculos, ampliar as redes de afeto, de solidariedade, de partilha dos dons e dos bens.

Movimento para viver com intensidade. Viver o amor, a paixão e a compaixão.

Movimento para acolher e ficar ao lado daqueles que menos têm. Não se omitir. Indignar-se com a dor do outro. Caminhar de mãos dadas. Sentir-se parte de um todo.

Movimento para tornar-se mais simples, desprendido, desapegado. Menos egoísta, egocêntrico e individualista.

Movimento para libertar-se das mágoas e ressentimentos, para perdoar, aceitar, compreender, abençoar e desejar o bem. Movimentos que criam raízes, pertencimento, identidade, inclusões, cirandas, círculos virtuosos.

Relações de igualdade, respeito e inclusão.

Movimentos que dizem não ao preconceito, à violência, à morte, à indiferença, ao desmatamento e à destruição do nosso planeta.

Movimentos que reduzem o desamor e expandem a força do bem. 

Movimento para superar todos os obstáculos que geram medo, tristeza, paralisia, insegurança e desconfiança.

Movimento para dar e receber ajuda, para encontrar saídas e soluções.

Movimento para afirmar que a vida vale a pena.

Que frase você escreveria para dar continuidade a essa crônica?

Que movimento você deseja fazer?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)