Por Beatriz Herkenhoff*

Quem ilumina o caminho dos outros, ilumina também o seu próprio caminho.” Diego, o Cavaleiro Andante

Na última crônica refleti sobre como a convivência entre gerações traz benefícios para a vida das crianças e dos idosos, possibilitando: a autoconfiança, a autonomia e a redução de sentimentos de solidão.

Quero dar continuidade a esse tema identificando como a vida adquire novos sentidos quando os jovens e os idosos valorizam a convivência intergeracional.

Falo por mim: a interação com jovens possibilita que eu seja mais leve, sábia, criativa, amorosa, alegre e feliz.

Beatriz com o filho Stefano e seus amigos/Arquivo pessoal

Amo conversar com meu filho, minhas sobrinhas, sobrinhos, afilhados e afilhada. Amo encontrar com os amigos de Stefano e com muitos jovens que passam por minha vida. 

Faço uma oração de proteção e gratidão por cada um/a. Sinto como se todos fossem meus filhos também.

Estou sempre atenta aos seus sonhos, desejos e realizações. Aprendo com seu espírito livre e criativo, vontade de voar, coragem e ousadia para ir sempre além.

Sinto-me acolhida e amada quando partilham algo especial e buscam o meu apoio. 

Os jovens que fazem parte do meu cotidiano possuem inúmeros dons e talentos nas áreas de humanas, exatas, biologia e artes.

Muitos estudaram e foram exercer sua profissão em outros estados do Brasil e no exterior. O que eles têm em comum? A ética, a responsabilidade, a competência, a seriedade e o amor pela profissão.

Entre esses jovens que amo, alguns são músicos, cantores e compositores. Nos embalam e animam com suas músicas.

Outros cozinham divinamente bem. Sua paixão é a culinária. Nos envolvem com cheiros e sabores inusitados, nos surpreendem com pratos deliciosos e pães fantásticos.

O que mais admiro é que são jovens sensíveis com a dor do outro, comprometidos com as mazelas sociais. Colocam-se a serviço da construção de um mundo mais humano, igualitário e justo.

São jovens com imensa capacidade de amar e de cultivar redes de afeto. São solidários, atentos aos amigos/as. Caminham de mãos dadas para que ninguém se perca oudesanime em momentos de incertezas, dores e decepções.

Se um amigo passa por desafios, largam tudo para acolher, ouvir e acarinhar.

Ao mesmo tempo, são jovens festeiros, que amam shows, música de qualidade, um bom samba, festas populares e carnaval.

Realizam encontros em suas casas, pelo simples prazer de estar juntos. 

Jovens que gostam de viajar em grupo, se aventurar, fazer trilhas, mergulhar no mar, em cachoeiras e rios.

Amo conviver com todos eles. Aprendo muito, cresço, questiono meus valores e a condução da minha vida. Acredito que eles também aprendem comigo. Gostam da minha companhia. Damos boas gargalhadas, realizamos trocas intensas, partilhamos o amor em sua potência máxima, mas, também não fugimos da dor. Em muitos momentos ela tem que ser vivida para ser ressignificada.

Sarau de lançamento do livro de Diego, o Cavaleiro Andante/Arquivo pessoal

Nossas sabedorias se encontram e dialogam. A confiança é resgatada e o medo enfraquecido. A solidariedade e a inclusão nos fortalecem. Os laços afetivos são cultivados.

Aprendo também com os limites que eles colocam para que possam construir seus caminhos com autonomia, segurança e liberdade. 

Estabeleço uma relação de afastamento, mas, também de presença silenciosa, amorosa e respeitosa.

Nanda também faz parte do meu universo intergeracional. Linda jovem com Síndrome de Down. Nanda é uma artista que ama viver, pintar, cantar, dançar, nadar, surfar, lutar capoeira. Mas, o que ela mais me ensina é como amar com intensidade, alegria e desprendimento.

Também tenho aprendido com Diego, o Cavaleiro Andante, sua esposa Júllia e seus filhos Caetano e Valentim.

Diego chegou ao Espírito Santo em 2016. Saiu a pé de São José dos Campos (SP) e percorreu mais de 1000 quilômetros caminhando pelo litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Superou a depressão com a poesia, passou a trabalhar com jovens da periferia, por meio de oficinas de escrita criativa, despertando o talento em cada um/a.

Diego realizou um Sarau no lançamento do seu livro “V.I.P.I.A. versos imprecisos para infantilizar adultos.” Ilustrado com as belíssimas e delicadas aquarelas de Delza Lombardi.

Foi uma das vivências mais lindas dos últimos tempos. Fiquei impactada com as apresentações dos jovens. Chorei com suas poesias, com suas expressões corporais, com a alegria, o amor e a leveza das músicas.

Por isso a próxima crônica será sobre esses jovens.

Jovens negros e periféricos que sofreram violência, preconceito, abandono e fome.

Jovens que não se vitimizaram, fortaleceram a capacidade de amar. Transformaram a dor em poesia, a poesia em luta e resistência.

Construíram uma rede de afeto em que se apoiam cotidianamente.

Como afirma Diego: “A arte cura e permite ressignificar a existência.”

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)