Por Beatriz Herkenhoff*
Amo a natureza! Deixo-me encantar e transformar por sua beleza.
O nascer e o pôr do sol convidam-me a um mergulho no meu eu e nos desafios da vida.
A lua em suas diferentes facetas coloca-me em contato com minhas mudanças e buscas.
A água me envolve em todas as suas nuances. Mares, rios e cachoeiras lavam-me e renovam. Tiram de mim aquilo que excede, que é apego, que limita a existência! Encharcam-me com a leveza necessária para tornar-me mais sensível e comprometida com a preservação do nosso planeta.
Chão, terra, rochas possibilitam a segurança, a moradia, a firmeza, a permanência. Criam raízes, pertencimento, aconchego e identidade. Despertam o desejo de plantar, reflorestar, preservar, respeitar, espalhar sementes e colher os frutos. Repartir o alimento com todos os povos, etnias e raças.

Quatro elementos da natureza revelam a sua potência, falam sem nada dizer: o fogo, a terra, a água e o ar.
Elementos fundamentais para a nossa vivência e sobrevivência. Para garantir a vida, para construir a paz entre os povos e as nações.
Sempre louvo ao Criador pela água, pelo ar, pelo fogo e por nossa mãe terra.
Mas, sem o ar, nada disso aconteceria.
Sem o ar nada existiria.
Sem o ar nossa vida esvai, murcha, seca, desaparece.
O ar que respiramos gera vida e esperança.
Espalha as sementes, balança as copas das árvores, possibilita o voo dos pássaros, a brisa suave que acalenta os trabalhadores rurais num dia implacável de sol.
Vento que despenteia os nossos cabelos e acaricia nossos rostos enquanto caminhamos pelas cidades, praias, trilhas e florestas.
Vento que leva embora os pensamentos negativos e resgata o amor, o perdão e a alegria.
O ar se faz presente quando praticamos diferentes modalidades esportivas: natação, corrida, musculação, escalada, alpinismo, futebol, basquete, entre outros.
O ar nos dá novo fôlego para seguirmos adiante em nossos propósitos.
Diante do medo que nos assola prendemos o ar, sentimos um sufocamento e ficamos perplexos com o chão que se abriu, com o coração que ruiu, com a casa que desmoronou.
Diante da angústia e da ansiedade respiramos fundo e encontramos o foco, estabelecemos novas metas e sentidos. Recomeçamos.
Ar que anda tão poluído, tão escasso, tão secundarizado.
Ao longo de minha infância e juventude eu amava brincar com os amigos de mergulhar para pegar areia no fundo do mar. Também competia para ver quem aguentava ficar mais tempo embaixo d’água.
Brincadeiras que testavam o nosso limite. Que nos colocavam em contato com a importância do ar que respiramos.

Na vida adulta o ar continua nos socorrendo, nos aplumando, nos colocando em novos caminhos.
Em tempos de guerra em que as explosões de bombas provocam destruição, desespero e morte, imagino o ar sufocado nos escombros. Vidas que não conseguem mais respirar. O ar suspenso e interrompido.
Respiro fundo, entro em contato com a minha tristeza, paro para sintonizar-me com o amor, para indignar-me, solidarizar-me com aqueles que sofrem.
Respiro fundo e oro pela paz.
Que a beleza da vida valha mais do que a ganância dos homens e as estruturas que vivem da guerra e da opressão dos povos.
Vamos abençoar o ar. Agradecer por ser imprescindível.
Vamos fechar os olhos, respirar fundo, inspirar e expirar.
Inspirar o amor, a paz, a alegria, o perdão, a solidariedade, a esperança. Expirar tudo que divide, oprime e mata.
Que o ar se torne bendito, nos proteja e seja protegido de toda iniquidade.
Que possamos respirar com liberdade, com confiança, com ousadia e sem medo.
Pelo direito ao ar puro. Pelo direito à vida em abundância! Pela paz no mundo!
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
