Sala de exposição da OAB abriga cerca de 30 obras de artistas negros

Nelson Bortolin

O Instituto do Movimento de Estudos da Cultura Afro-Brasileira (Imecab) realiza até dia 20 de novembro a 38ª Mostra Afro-Brasileira Palmares Londrina. São cerca de 30 obras expostas na Sala de Exposição Ana Paula da Silva – Scarlet – na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Subseção Londrina, no 4º andar do Edifício Tuparandi, na Rua Professor João Cândido 344.

A sala ganhou esse nome em homenagem à advogada negra e conselheira da OAB morta precocemente há quase um ano.

Janaíne Ventura Salviano

Janaíne Ventura Salviano, atual coordenadora da Comissão da Igualdade Racial e Minorias da OAB, emocionou-se na abertura da mostra, realizada quarta-feira (1º) à noite. “Eu acompanho a mostra desde muito pequena porque minha mãe (Nazilda Ventura Salviano) foi uma das fundadoras do movimento negro e levava a gente ainda criança para a feira quando ainda era realizada no Museu Histórico”, conta.

“Para nós, enquanto crianças negras, era muito representativo ver expositores negros, ver pessoas negras criando essas obras de arte. É uma memória afetiva muito bonita que eu guardo”, complementa a advogada.

A pedido da Rede Lume, ela escolheu uma obra ao lado da qual deixou-se fotografar. Foi a Zumbi-Cicatrizes, do artista plástico Paulo Neves. “Essa obra me chamou muita atenção, porque o tema da mostra desse ano é a abolição inacabada. Ou seja, embora tenha ocorrido a abolição da escravatura, a gente percebe ainda que os negros continuam à margem da sociedade.”

Isso ocorre, lembra a advogada, porque os negros foram alforriados e abandonados. “A abolição ocorreu sem direito a frequentar uma escola, sem direito a uma terra, sem direito a nada. Embora tenha ocorrido essa abolição, tenha saído as correntes, a gente ainda é preso na mente, porque a gente ainda percebe que a sociedade não quer nos dar a oportunidade para prosseguir.”

Victor dos Santos

Filho de uma das mais importantes integrante do movimento negro de Londrina, Yá Mukumby, morta há dez anos, Victor dos Santos também foi à abertura da mostra. “Eu sempre acompanhei esse trabalho com minha mãe, desde pequeno. Ela trazia a gente em todas, onde costumava cantar”, conta ele, que se deixou fotografar diante da imagem da ialorixá baiana Mãe Menininha do Gantois, obra assinada pela artista Yara Bizuti.

Acervo próprio

Diretor do Imecab e curador da mostra, Vagner Nogueira conta que as obras expostas vêm sendo adquiridas pelo instituto ao longo do tempo. E que há quadros de artistas de todo o País e inclusive do Uruguai. Ele destaca obras como a do sergipano J. Inácio e de Elifas Andreato, famoso ilustrador de capas de discos da música brasileira, morto em 2022.

Bahll Marcos

Entre os londrinenses, assinam obras o grafiteiro Paulo Neves e o enfermeiro Bahll Marcos, que estava na abertura da mostra e conversou com a Lume. “Minha produção é sempre abstrata. Eu comecei a pintar em 1990”, conta.

Ele calcula já ter pintado mais de 1.400 quadros. “Santo de caso não faz milagre”, diz ele, explicando que vende mais em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. “Participar dessa mostra é bem importante porque o nome da gente anda por aí em catálogos e a gente pode ser visto pela comunidade negra, que tem pouco acesso à arte”, declara.

Projeto maior

Vagner Nogueira

De acordo com o curador Vagner Nogueira, o Imecab tem hoje cerca e 100 obras e o projeto coordenado por ele abriga outras atividades, como a Música Afro Brasileira de Londrina, que teve sua 7ª edição neste ano e o Ciclo de Oficinas e Palestras, já na 4ª edição.

Além disso, há a Feria Afro Quilombo Cultural de Economia Criativa, já na 3ª edição. As atividades do instituto são realizadas praticamente durante todo o ano e terminam dia 3 de dezembro, com o Dia do Samba que neste ano deve ser realizado na UEL.

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