Por Beatriz Herkenhoff*
Dia 13 de dezembro é um dia muito especial, o dia em que cheguei para habitar o planeta terra.
Sou feliz pela oportunidade, não sei quanto tempo durará minha passagem por aqui, por isso vivo o hoje com intensidade e alegria.
Procuro espalhar sementes de amor, de solidariedade e de gratidão.
Amo dar bom dia e boa tarde para quem encontro nas calçadas do meu bairro. De forma especial, os garis, as trabalhadoras domésticas, os operários da construção civil, os porteiros e zeladoras dos prédios, os vendedores ambulantes (água de coco, caminhão do abacaxi, frutas da estação, bolos e pães) e as pessoas em situação de rua.
Amo partilhar os dons que recebi. Quanto mais dou, mais recebo. A vida se move numa espiral ascendente com construções positivas e transformadoras.
Como afirma Felipe Maia (amigo do meu filho Stefano): “Se a gente tem algo sobrando é porque está faltando para alguém.” Podemos ficar em sintonia com aqueles que demandam atenção e cuidado em todas as áreas.

A vida não é linear, dá rasteiras, surpreende, nos leva ao fundo do poço, mas sempre tem uma luz no final do túnel que possibilita recomeçar e ressignificar os acontecimentos. Quando esse processo conta com o apoio dos amigos e da família, tudo se torna mais fácil.
Gosto de construir redes, fortalecer laços de pertencimento, criar raízes, conviver com as diferentes gerações: crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.
A humanidade está passando por momentos difíceis: guerras, exaltação das armas, discriminação dos mais pobres e
vulnerabilizados, preconceitos de cor, raça, gênero, corrupção e destruição do planeta.
Cresceu após a pandemia o número de doenças psíquicas, emocionais e mentais. Pessoas de diferentes faixas etária estão com depressão, com síndrome de pânico, ansiedade descontrolada, dependência química, entre outros sintomas.
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E a sociedade ao invés de se organizar coletivamente, valoriza o narcisismo, a indiferença, a dependência dos celulares e das redes virtuais. Cada um fica fechado em sua dor. Conversa-se cada vez menos com quem está ao lado.
Por isso gosto da organização de redes. A humanização, a paz, o equilíbrio mental e ecológico, a construção de um país mais justo, igualitário e democrático passa por movimentos coletivos e dialógicos.
Estou participando de uma rede de apoio a uma amiga que entrou em depressão profunda. Tem sido lindo ver como a rede está crescendo. Amizades consideradas perdidas, voltam com força.
Gestos de carinho, de cuidado e de amor se expandem. Formamos uma rede de apoio financeiro para dar suporte ao tratamento, mas, principalmente uma rede afetiva, com psicólogo oferecendo psicoterapia semanal, consultor financeiro orientando a organização dos gastos, amigas dando apoio amoroso e espiritual.
Eu choro todos os dias ao ler as mensagens e os gestos de amor que se multiplicam. Digo que nossa amiga está encontrando o caminho da cura, mas, nós também estamos sendo curados ao lado dela. Estamos conhecendo mais sobre a doença para ajudar outras pessoas que passam por situações semelhantes.
Vivemos um adoecimento em massa, por isso o enfrentamento tem que ser cada vez mais coletivo. Caminhar de mãos dadas, nos incluir no processo, sem julgar e acusar. Costurar memórias, resgatar a autoimagem, a autoestima, fortalecer os serviços de saúde pública no cuidado mental. Criar redes de proteção alimentar, de proteção às vítimas de violência e de enfrentamento à pobreza. Muitas são as redes existentes. Trabalhos belíssimos que fazem a
diferença e precisam ser difundidos para ganhar novas adesões.
Sou otimista quanto aos resultados? Sim. A luta entre a vida e a morte é permanente. Sozinhos somos fracos, mas em grupo construímos caminhos e alternativas.
Sou esperançosa, amo festar, dançar, comemorar, ir ao encontro do outro. Sempre tiro lições das perdas e das dores sofridas.
Dou continuidade aos legados deixados por meus avós paternos e maternos, por meu pai, minha mãe e tios. Entre eles, a vivência da fé que fortalece a confiança, a entrega, o amor ao próximo, o compromisso com a justiça.
Jesus nos convida a novas atitudes: “tive fome e vocês me deram de comer”, “necessitei de roupas e vocês me vestiram”, “fui estrangeiro e vocês me acolheram”, “estive preso e vocês me visitaram”, “estive enfermo e vocês cuidaram de mim.”
Fiquem em sintonia amorosa comigo no dia 13 de dezembro. Que possamos construir legados de amor, justiça, esperança, construção da paz e de um mundo melhor!
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
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