Por Beatriz Hernkenhoff*
Vivemos assolados pelo medo!
Medo de errar, de não ser aceito, de não ser amado.
Medo do julgamento, da reprovação, da rejeição, da indiferença e do abandono.
Medo da solidão e do adoecimento.
Medo de perder quem amamos.
Medo da morte e de não dar conta da vida sem aquela pessoa amada.
Medo de decepcionar, magoar, de ferir e ser ferido.
Medo de arriscar, de lançar-se novamente na experiência de amar e ser amado.
Medo do desemprego, de não ter um teto para morar e um pedaço de terra para plantar.
Medo do preconceito e da violência urbana.
Medo das guerras entre gangs e entre países.
O medo é autêntico! Nos protege de muitas mazelas e decisões devastadoras. Mas o medo também nos paralisa, entorpece, impede a plenitude do amor.

O medo mina a autoconfiança, a autoimagem, a certeza de que dou conta dos desafios e imprevisibilidades da vida.
Se não dialogo com meus medos, ele cresce e toma uma proporção imensurável.
Enclausura-me em casa, amarra-me numa cama e engole a alegria cotidiana.
Nessa jornada de autoconhecimento e busca pela verdade interior, a rede de afeto e de apoio entre amigos e familiares faz toda diferença.
É preciso resgatar a coragem para viver com intensidade, com fé, com autenticidade, com sabedoria, com respeito e serenidade.
Coragem para lançar-se na dinâmica da vida que nos desestabiliza, mas que também resgata nossa potência.
Coragem para transbordar e multiplicar o amor que habita em mim. Viver com criatividade, flexibilidade e confiança. Aprender com os erros e amadurecer com as decepções.
Coragem para romper com relacionamentos abusivos e manipuladores.
Coragem para despedir, deixar ir e desapegar-se de experiências que fazem parte do passado.
Coragem para correr riscos, para conhecer novos lugares, novas pessoas, novos olhares, novos corpos e novos jeitos de amar.
Coragem para anunciar e denunciar. Para enfraquecer as palavras que dividem e que desacreditam na força do amor.
Coragem para perdoar, libertar-se das mágoas e dos desafetos.
Coragem para construir formas coletivas de sobrevivência, de enfrentamento da violência e do desamor.
Coragem para não se fechar na autopiedade e vitimização.
Coragem para ir ao encontro e solidarizar-se.
Coragem para pedir ajuda, demonstrar a fragilidade.
Coragem para buscar a cura dos nossos medos. Para colocar o dedo nas feridas e distinguir o medo real do medo construído por nossa mente.
Que a coragem conduza nosso jeito de ser e estar no mundo.
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
