Por Beatriz Hernkenhoff*

Vivemos assolados pelo medo!

Medo de errar, de não ser aceito, de não ser amado.

Medo do julgamento, da reprovação, da rejeição, da indiferença e do abandono.

Medo da solidão e do adoecimento.

Medo de perder quem amamos.

Medo da morte e de não dar conta da vida sem aquela pessoa amada.

Medo de decepcionar, magoar, de ferir e ser ferido.

Medo de arriscar, de lançar-se novamente na experiência de amar e ser amado.

Medo do desemprego, de não ter um teto para morar e um pedaço de terra para plantar.

Medo do preconceito e da violência urbana.

Medo das guerras entre gangs e entre países.

O medo é autêntico! Nos protege de muitas mazelas e decisões devastadoras. Mas o medo também nos paralisa, entorpece, impede a plenitude do amor.

Foto: Carlos Monteiro

O medo mina a autoconfiança, a autoimagem, a certeza de que dou conta dos desafios e imprevisibilidades da vida.

Se não dialogo com meus medos, ele cresce e toma uma proporção imensurável.

Enclausura-me em casa, amarra-me numa cama e engole a alegria cotidiana.

Nessa jornada de autoconhecimento e busca pela verdade interior, a rede de afeto e de apoio entre amigos e familiares faz toda diferença.

É preciso resgatar a coragem para viver com intensidade, com fé, com autenticidade, com sabedoria, com respeito e serenidade.

Coragem para lançar-se na dinâmica da vida que nos desestabiliza, mas que também resgata nossa potência.

Coragem para transbordar e multiplicar o amor que habita em mim. Viver com criatividade, flexibilidade e confiança. Aprender com os erros e amadurecer com as decepções.

Coragem para romper com relacionamentos abusivos e manipuladores.

Coragem para despedir, deixar ir e desapegar-se de experiências que fazem parte do passado.

Coragem para correr riscos, para conhecer novos lugares, novas pessoas, novos olhares, novos corpos e novos jeitos de amar.

Coragem para anunciar e denunciar. Para enfraquecer as palavras que dividem e que desacreditam na força do amor.

Coragem para perdoar, libertar-se das mágoas e dos desafetos.

Coragem para construir formas coletivas de sobrevivência, de enfrentamento da violência e do desamor.

Coragem para não se fechar na autopiedade e vitimização.

Coragem para ir ao encontro e solidarizar-se.

Coragem para pedir ajuda, demonstrar a fragilidade.

Coragem para buscar a cura dos nossos medos. Para colocar o dedo nas feridas e distinguir o medo real do medo construído por nossa mente.

Que a coragem conduza nosso jeito de ser e estar no mundo.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)