Por Vinícius Fonseca*
Quem acompanha a coluna Linhas Tortas desde seu início deve se lembrar que um de meus primeiros textos, mais precisamente em 18 de janeiro de 2023, foi sobre a necessidade de pessoas com deficiência (PCDs) e as temáticas relacionadas a elas ganharem cada vez mais espaço.
Na época usei o Big Brother Brasil como exemplo. Em 23 edições até então tinha tido apenas uma pessoa com deficiência como participante e, no ano passado, recebia alguém que trabalhava com políticas organizacionais de inclusão.
Também no último texto da coluna, há 15 dias, imaginei com vocês um 2024 de mais protagonismo para as pessoas com deficiência. O ano, no entanto, tem se revelado diferente. Em comum com 2023 apenas uma coisa: o BBB.
Na edição 24 temos a participação do meu xará e quase homônimo Vinícius Rodrigues – sim eu sou Vinícius Rodrigues da Fonseca. O cara é paratleta, já teve o privilégio de levar o nome do Brasil para várias competições e hoje está na casa mais vigiada do País.
Novamente os organizadores do programa optam por dar vez e voz ao público PCD por meio da escolha de um paratleta. Os motivos nunca saberemos, mas tenho meus questionamentos: Será que são vistos como mais independentes e por isso exigiriam menos cuidados da produção? Será que a deficiência é “mais leve” e isso o torna mais apresentável para os telespectadores?
São perguntas que ressoam na minha cabeça e para as quais, eu sei, jamais terei a resposta. Para além disso, quero falar sobre os, no meu ponto de vista, chocantes primeiros dias do participante na casa.
A começar pela prova a que foi submetido. Uma atividade nada inclusiva e até certo ponto, humilhante, principalmente se levarmos em conta o histórico de um paratleta profissional. Não acho que os organizadores devam passar a mão na cabeça de um participante só por causa de sua condição, mas faria bem pensar em atividades e provas mais inclusivas.
O outro aspecto foi o apelido sugerido pelo participante Maycon, chamá-lo de “Cotinho”. “A gente pode te chamar assim? Te batizar?”, perguntou ele. Eu tomo a liberdade de responder: Vinícius já é batizado, escolheram o nome de Vinícius!
Os apelidos por recreação, mesmo sem intenção de ferir ninguém, precisam ser combatidos. Não é porque você não enxerga maldade ou vê um apelido de forma carinhosa que ele é, de fato, carinhoso.
Talvez por estar acostumado com situações como essa, Vinícius não vá reclamar. Provavelmente até aceite o apelido. É o que acontece com boa parte de nós PCDs, mas eu espero que ele possa se posicionar contrário a isso. E que a própria organização do BBB combata atitudes como as de Maycon.
Vinícius Rodrigues é pessoa com deficiência, mas uma vez em rede nacional ele passa a ser mais do que isso. Quantas crianças não passarão a receber o mesmo apelido de colegas por terem deficiência semelhante. Ao negar esse tipo de tratamento, Vinícius não defende só a si, mas aos muitos PCDs que enfrentam bullying e falta de respeito por aí. Quando se trata de inclusão, a luta de um deve ser a luta de todos.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.
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