Por Vinícius Fonseca

Quando escrevo os textos aqui na coluna tento ser o mais inclusivo possível. Falar não só com quem tem deficiência, ou com quem defende a causa, mas com todos, até mesmo quem nunca parou para pensar no assunto.

A construção de uma argumentação que possa ser inclusiva é uma premissa aqui, já que falamos de inclusão. O discurso precisa estar alinhado com a ideia que o espaço almeja alcançar.

Com isso, não estou inventando a roda ou mostrando o segredo por trás da minha forma de me comunicar. Estou apenas tentando transmitir uma ideia. O objetivo sempre é fazer com que quem lê reflita e passe a adotar comportamentos mais inclusivos em sua vida. Lembre de algo que leu nessas linhas tortas e transforme seu modo de enxergar a vida e sobretudo a pessoa com deficiência (PCD) que porventura conheça ou faça parte do seu meio.

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O problema do discurso é que ele pode não ser tão inclusivo quanto é nessa coluna. Ao contrário, ele pode também servir para perpetuar preconceitos, defender o indefensável e tentar “criminalizar” avanços sociais importantes para a desenvolvimento de uma sociedade mais justa.

Um discurso que algumas pessoas tentam “emplacar” é o da não necessidade de uma lei de cotas. Isso vale para várias minorias que têm acesso ao benefício. No caso da pessoa com deficiência, esse discurso é mais facilmente notado quando falamos do mercado de trabalho.

Print de vídeo em que Katya fala sobre a lei de cotas

Não é difícil achar quem diga que não há necessidade da vaga e que muitos PCDs se aproveitam da lei para não fazerem nada e ainda ganharem dinheiro às custas de quem trabalha de verdade.

Isso está tão preestabelecido em algumas empresas que não é difícil encontrar pessoas com deficiência dizendo que a lei de cotas dá chance para aproveitadores ou que ela não serve para muita coisa.

Esse tipo de discurso sempre vai existir, mas se torna extremamente perigoso quando vindo de um PCD, por quê? Porque começa a dar razão aos que defendem a extinção desse benefício.

O conceito do que é justo ou não é difícil traçar, mas o que a realidade nos mostra é: uma pessoa com deficiência não concorre em igualdade com alguém sem deficiência, pois há um pré-conceito já enraizado no ser humano, parecemos – eu me incluo nisso – estranhar o que nos é diferente.

Lembro-me de ter participado de um processo seletivo e ser muito elogiado ao telefone. Perdi a vaga quando encontrei a recrutadora presencialmente. Sei que perdi a vaga ali porque vi o semblante dela mudar ao perceber o meu modo de andar.

As cotas podem não ser o ideal, mesmo assim são elas que asseguram que tenhamos uma vida com dignidade no trabalho. Se você é PCD faça o seu trabalho da melhor maneira possível e não critique outras pessoas com deficiência. Nós nunca saberemos as reais limitações do outro.

Deixo a seguir um vídeo com uma importante reflexão sobre a importância de não se deixar levar pelo discurso pouco inclusivo de algumas pessoas por aí:

https://www.instagram.com/reel/C2Z0TPiuIMt/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.