Por Beatriz Herkenhoff*

“Essa sensibilidade que é uma antena delicadíssima, captando pedaços de todas as dores do mundo, e que me fará morrer de dores que não são minhas”(Newton Braga).

A Sensibilidade conversa com minha alma, coloca-me em movimento.

Tira-me do isolamento, do egoísmo, da indiferença, da ilusão de uma felicidade que se esgota naqueles que estão próximos.

A sensibilidade muda a rota da minha vida, leva-me ao encontro dos que sofrem e estão em situação de vulnerabilidade.

Ensina-me a ficar ao lado daqueles que precisam de um gesto de amor.

Foto: Carlos Monteiro

Não consigo ser indiferente aos que amo e enfrentam momentos difíceis. 

Não consigo ficar indiferente aos que passam fome, não têm um trabalho, estão em situação de rua, são discriminados, violentados e mortos. 

A sensibilidade tira-me do comodismo. Impulsiona a solidariedade e o compromisso.

Dá um sentido à minha existência.

Morrerei um dia de dores que não são minhas?

Acho que não porque a solidariedade renova a potência de vida. É fonte de amor, alegria e serviço.

Concordo que a minha sensibilidade me leva a sofrer mais do que o necessário porque algumas vezes não consigo estabelecer o limite entre as minhas dores e as dores alheias.

Ao mesmo tempo, a sensibilidade resgata o que de mais belo habita em mim: o amor, a misericórdia, a paixão e a compaixão. 

Ensina-me a celebrar o dom da vida e da alegria com aqueles que me cercam. Convida-me a brincar, dançar, criar, cantar, escrever, comprometer-me, indignar-me, mobilizar, anunciar, compreender, aceitar e perdoar.

O amor não permite que a sensibilidade desperte em mim o desânimo, o negativismo, a lamentação, a raiva e a autopiedade.

A sensibilidade fortalece-me na dinâmica do festar e do esperançar.

A vida não é linear. Somos surpreendidos com experiências de plenitudes amorosa e outras que nos ferem, magoam, abatem e paralisam.

Precisamos de mãos amorosas para resgatar a energia, a força e a potência da vida.

A sensibilidade impulsiona-me a olhar para o lado e oferecer um colo confortável, um abraço aconchegante, um ouvido atento, uma comida quentinha e um cuidado especial. 

Caminho de mãos dadas, participo de uma roda que não para, é movida pelo amor, pela esperança, proteção e segurança.

A minha sensibilidade prioriza também as minhas necessidades.

Quem cuida precisa ser cuidado.

Que os gestos de amor sejam edificantes e libertadores para mim e para aqueles que estão perto e distantes.

Como cuidar de mim com a mesma intensidade como cuido do outro?

Como permitir que a generosidade, o amor, a empatia e a cumplicidade circulem em espiral ascendente?

Quando me sinto impotente, a oração se faz presente.

Entrego as dores do mundo e daqueles que amo nas mãos de Deus.

Confio e descanso.

Amplio os horizontes ao participar de Redes de Apoio, de Afeto e de Solidariedade. 

Redes que fortalecem, curam, transformam e transbordam luz.

Redes que tornam as ações mais eficazes, geram autonomia e confiança.

Redes onde o amor se expande e as mudanças acontecem.

Redes que constroem enfrentamentos coletivos, espalham sementes, colhem frutos,resgatam vidas e criam novas perspectivas. 

Recomeçar com o apoio do grupo é mais fácil do que sozinhos.

A sensibilidade que inclui os que me rodeiam, precisa do apoio dos amigos, por isso convido-os a caminhar comigo, repartir o pão, a presença, a palavra, os gestos de amor, de generosidade e de serviço.

Sou grata a tantos amigos que dizem sim aos meus convites e se mobilizam para contribuir com muitos recomeços.

Eu nada faria sem vocês.

Que eu saia sempre da zona de conforto e possa ecoar esse belo canto de Mercedes Sosa:

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria

……

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Toda pobre inocência desta gente

E vocês? Como dialogam com as contradições entre a sensibilidade que nos leva a morrer de dores que não são nossas e a sensibilidade que nos envolve em ações coletivas para o enfrentamento das adversidades?

Eu só peço a Deus que a sensibilidade enfraqueça a indiferença que há em mim.

Que as ações coletivas amenizem os sofrimentos e o isolamento.

Que as Redes de Apoio possibilitem o cuidado e o autocuidado.

Que possamos despertar a humanidade que há em nós, inspirando e expirando amor, esperança e gratidão.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)