Por Beatriz Herkenhoff*

Vivemos ocupados.

Corremos para dar conta das tarefas do dia a dia.

Criamos uma dependência em relação às redes sociais que nos consomem.

Sem tempo para o recuo, para o silêncio, para o diálogo com o nosso eu.

Falamos compulsivamente e não ouvimos o outro.

Pensamos ansiosamente e não dialogamos com nossos desejos, sonhos e projetos.

Nos preocupamos excessivamente com o rumo da nossa existência e não nos sensibilizamos com aqueles que passam fome e nada têm.

Silenciar!!!!

Jared Rice/Unsplash

Para que? Por que? Como?

Silenciar para:

Não ser engolido por esse mundo frenético, egoísta, consumista, preconceituoso, raivoso, beligerante e indiferente.

Observar quantos gestos de resistência e amor são construídos no dia a dia e passam despercebidos.

Resgatar o amor que habita em nós.

Admirar a harmonia da natureza, a beleza das florestas, a sintonia das flores.

Apreciar a liberdade dos pássaros, dos animais aquáticos e terrestres.

Deixar-se impactar pela potência dos vales e das montanhas. Pela força das águas, dos mares, dos rios e das cachoeiras.

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Silenciar para:

Descansar no amor de Deus. Ouvir Seu convite para vivermos o amor em sua plenitude e radicalidade: “Tive fome e vocês me deram de comer. Tive sede e vocês mederam de beber. Era estrangeiro e vocês me acolheram. Necessitei de roupas e vocês me vestiram.”

Criar vínculos, fortalecer os laços de amizade e de amor.

Escutar os povos indígenas, para aprender com sua sabedoria e estilo de vida. Para favorecer o desenvolvimento humano integral e sustentável, como afirma Papa Francisco.

Silenciar para:

Aprender com a pureza, a intensidade e a alegria das crianças, com a sabedoria dos idosos, com a experiência daqueles que vencem e superam os obstáculos, mesmo sobrevivendo com tão pouco.

Curar nossas feridas, para pedir perdão, perdoar a nós mesmos e àqueles que nos ofenderam.

Acolher, ressignificar e recomeçar.

Por que silenciar?

Kenrick Mills/Unsplash

Silenciar porque:

Precisamos sair da onipotência, do orgulho, da vaidade, da mágoa e de tudo que nos afasta da nossa vocação para amar o próximo e dedicar uma parcela do nosso tempo àqueles que sofrem.

Somos chamados a identificar nossas contradições, falta de humildade, incapacidade para viver o amor que cura e liberta.

Necessitamos aguçar nossa sensibilidade, nosso olhar misericordioso, nossa generosidade e empatia.

Precisamos ouvir o nosso corpo que fala, que pede socorro, que precisa de cuidados e de um aconchego.

Necessitamos colocar limites e dizer não ao abuso e maus tratos.

Como silenciar? 

Como arranjar um tempo para caminhar na natureza, para orar, meditar, relaxar, para ler um bom livro?

Como priorizar um tempo comigo mesma, sem interrupções, sem demandas externas e sem pressa?

Como silenciar o julgamento, a fofoca e a maledicência?

Como silenciar a reclamação, a vitimização e a autopiedade?

Como silenciar as vozes interiores, as cobranças, as culpas, os medos, os sentimentos de impotência e de baixa autoestima?

Como silenciar e valorizar as próprias qualidades, resgatar a coragem que está adormecida, ousar e arriscar?

Como silenciar para festar, esperançar, solidarizar de forma mais autêntica e genuína?

Como afastar os barulhos e os ruídos da cidade grande? O excesso de informações, as fake news e as imagens que adoecem e desestruturam?

Como acalmar as vozes interiores?

Como enfrentar o medo do silêncio? 

Como reescrever minha história incluindo o silêncio em meu jeito de ser? 

Temos muito a aprender com o silêncio!

Quais as suas experiências em relação ao silêncio?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo” (2022)