Por Beatriz Herkenhoff*
Que título estranho! Como a vida pode ser leve diante de tantas atrocidades, violência, desamor e indiferença?
Entretanto, não temos escolha: ou ficamos paralisados com as dores do mundo, com a desumanização e com a destruição do nosso planeta, ou nos mobilizamos e criamos um fluxo de amor, de autocuidado, de serviço, de solidariedade e de presença ao lado daqueles que sofrem.
A vida se torna mais leve quando contribuímos para que o mundo seja mais justo e democrático; quando nos engajamos em grupos e movimentos que lutam pela garantia dos direitos, pelo acesso à saúde, à moradia e ao trabalho digno; quando exercemos a nossa profissão de forma ética gerando mudanças efetivas.
Como construir tempo de qualidade focando em nós e no outro?
Priorizar nossas necessidades físicas (alimentação, exercício, cuidados médicos), psíquicas (terapia, convivência com amigos) e espirituais (silêncio, oração, meditação) e apoiar para que o outro também encontre sua plenitude.
A vida se torna mais leve quando participamos de Redes de Apoio, Afeto e Solidariedade. Quando saímos da impotência individual e resgatamos a potência do grupo.
A vida pulsa com mais esperança quando criamos espaços que reafirmam os valores e os talentos das comunidades.
É preciso cuidar de nós (e dos grupos) para que o nosso jeito de ser seja transformador.
Como viver o amor em cada gesto e palavra?
Cresci com esse desejo de ir ao encontro do outro. Sou gregária desde o nascimento. Quando criança acordava e perguntava à minha mãe: “O que é que eu vou fazer?” E ela sugeria: “Vá desenhar”; e eu dizia: “Não quero, o que é que eu vou fazer?” E ela respondia: “Vá brincar no jardim”. E essa ladainha se repetia até que todas as opções se esgotassem e mamãe respondesse: “Pode ir brincar na casa dos seus primos”. Na realidade, esse era meu único desejo: brincar com meus primos.
A minha raiz gregária permaneceu em minha história. Levou-me a participar de inúmeros movimentos que lutaram por uma sociedade mais digna e justa, além de me envolver na articulação de encontros com diferentes grupos de amigos.
Não tenho fórmulas mágicas para tornar a vida mais leve e sensível às demandas de uma sociedade mais igualitária, pois cada um tem que encontrar o seu caminho, de acordo com as características da
sua personalidade.
Diante das dores pessoais, muitas vezes, não conseguimos recomeçar e acabamos perdendo o sentido da existência.
Como desenvolver atitudes que despertem a paixão pela vida, a fé e a esperança?
Como estreitar os laços de amizade, os encontros presenciais com os amigos, familiares e vizinhos com os quais construímos vínculos fortes, relações com raízes amorosas, com sentimentos de identidade e pertencimento?
Como ocupar prazerosamente o nosso tempo livre, vivendo a juventude com intensidade e envelhecendo rodeados de amigos e de ações que restauram vidas e possibilitam o bem viver numa
perspectiva da ecologia integral e da fraternidade universal?
Ter amigos verdadeiros torna a vida mais leve e cria as bases para superarmos as adversidades.
As pessoas são diferentes. Alguns gostam da solidão ou de um círculo com poucos amigos. O importante é não deixar ir embora aqueles amigos e familiares que marcaram nossa memória afetiva
com lindas experiências de amor e cumplicidade.
Tê-los por perto nos fortalece.
Liguem, conversem, realizem encontros, perdoem, silenciem sobre os defeitos de cada um, alimentem as relações que tornam a vida mais leve e plena na convivência com aqueles que amamos.
Deixem circular um amor que se multiplica em espiral ascendente e se espalha pelo nosso planeta.
De vezes em quando paro e me pergunto: porque me sinto tão motivada e feliz com a vida que tenho, apesar de conviver com dores, limitações e perdas?
Percebo que criei uma rotina que desperta a alegria e permite que eu cuide de mim, daqueles que me cercam e, ao mesmo tempo, seja sensível àqueles que precisam de uma presença no enfrentamento dos seus problemas.
Os fardos se tornam mais leves quando são carregados coletivamente.
Como construo esse cuidado cotidiano?
Procuro priorizar uma alimentação saudável que reforce a minha energia para viver com entusiasmo.
Débora Câmera é uma linda nutricionista que me orienta na elaboração de uma dieta equilibrada que garante um bem estar físico e me tira do cansaço e do desânimo.
Uma grande conquista é o exercício físico diário. Percebo que traz benefícios em todas as áreas e renova a energia vital.
Fortalecer as pernas, os ossos e a estrutura corporal contribuí para firmar os passos e a direção do caminhar.
Também gosto do silêncio. Preciso acalmar minha mente acelerada e preocupada. Quando acordo, tiro um tempo para ficar em oração.
Necessito conversar com o Deus que habita em mim, ser instrumento do Seu amor.
Esses momentos de recuo contribuem para o exercício da gratidão, da confiança, da sabedoria e do amor.
E para completar esse ciclo que desperta a alegria de viver, mergulho em mim e na realidade através da arte de escrever.
A minha escrita é conduzida por um olhar esperançoso. O fato de publicar crônicas semanalmente na Rede Lume de Jornalistas possibilita um rico diálogo comigo mesma e com os leitores.
Existem outras formas de tornar a vida mais leve e comprometida através da arte. Alguns têm habilidades para fotografar, desenhar, pintar, fazer esculturas, trabalhar com marcenaria, com cerâmicas,
com bijuterias, bem como para bordar, decorar os ambientes, declamar poesias, produzir eventos culturais, filmes e peças teatrais, cantar, representar, dançar, cozinhar, cuidar da natureza, dos rios, mares e matas, entre tantos talentos que nos envolvem e transformam a realidade.
Tenho certeza que a sua experiência é bem diferente da minha, mas igualmente poderosa. O que você tem feito para tornar a vida mais leve para você e para o planeta terra?
A canção “Me fala de você” de Zé Martins e Zé Vicente traz elementos para pensarmos.
Vem, me fala tu de liberdade
Desta igualdade que todos queremos
Desta vida nova que todos buscamos
Desta paz que um dia encontraremos
Vem, me fala tu de tua vida
Desta amizade mais querida
Desta ansiedade de amar de novo
Desta tua vida doada ao povo
Vem, me fala tu de esperança
Deste novo ser criança
Desta paz sem ser bonança
Desta luta pra vencer
Vem me fala de você
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
