Por Vinícius Fonseca*
Nos últimos textos tenho falado muito sobre a importância dos espaços para que nós, Pessoas Com Deficiência (PCDs) possamos nos integrar à sociedade e assim fazermos parte dela de maneira mais integral e participativa.
Sei que questionei o excesso da exploração das matérias sobre autismo em razão do mês de abril, na última coluna. Permitam-me fazer algo parecido, mesmo que isso possa soar um tanto hipócrita, mas entendo esse espaço como necessário para a dignidade humana.
Em 1º de maio (quinta-feira passada) comemoramos o Dia do Trabalho. E chamo de hipocrisia da minha parte porque, diferente do que eu disse no texto anterior, vou explorar a data para falar sobre uma necessidade dos PCDs, a de trabalhar.
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Quem me acompanha aqui tem um tempo deve se lembrar do texto em que mostrei que a renda das pessoas com deficiência acaba sendo inferior às de pessoas sem deficiência. Para os que estão lendo agora seguem os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD): enquanto o rendimento médio real do trabalho é de R$ 1.860 em nível nacional, l das pessoas sem deficiência é de R$ 2690.
Trago novamente esses dados não apenas para lembrar que ganhamos menos, mas também para alertar que as vagas para PCDs não estão necessariamente ligadas à competência do trabalhador e sim à necessidade de cumprir a lei.
Sim, a lei de cotas, que existe desde os anos 90, mas só foi sancionada durante um dos mandatos de Dilma Rousseff, garante à pessoa com deficiência oportunidades em empresas, sobretudo as de médio e grande porte (a partir de 100 ou mais funcionários), no entanto há, por parte da maioria das empregadoras, o desejo somente de preencher as vagas.

Não estou criticando a lei, que obriga empresas a substituírem PCDs por PCDs e faz com que os patrões ofereçam cargos inferiores aos candidatos com a desculpa de que se der errado é mais fácil repor. Pelo contrário, se com a lei é difícil, sem a lei seria ainda pior. O preconceito certamente viria primeiro e perderíamos as vagas para pessoas sem deficiência, seja por nossa aparência, jeito de andar, reações a estímulos ou qualquer outra limitação. Já fui vítima desse preconceito.
Estou apenas mostrando que mesmo com a lei a nossa renda ainda é inferior porque não concorremos às vagas que pagam melhores salários, por uma série de motivos, motivos esses que nem sempre estão ligados ao PCD, mas sim ao contratante.
As empresas que por lei são obrigadas a contratar têm se preparado adequadamente para esse momento? Você empresário ou membro da área de Recursos Humanos ou Gestão de Pessoas, percebe esse movimento na sua organização?
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Tenho 15 anos de experiência de mercado, parte dela como profissional de RH e posso adiantar a resposta da maioria: NÃO! Está na moda se definir como uma empresa inclusiva e antenada nas questões de diversidade, mas na prática pouco acontece.
Os problemas vão desde adequações físicas nos prédios e escritórios, até mesmo investimentos em melhores equipamentos ou no treinamento de pessoal. Ou você acha que todas as empresas que precisam cumprir a lei de inclusão dispõem de computadores com programas que facilitem a acessibilidade de pessoas cegas? Quem sabe então promovam treinamentos de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para que funcionários auditivos possam se tornar facilitadores de funcionários não auditivos?
Partindo do princípio que os empregadores não conseguem nem entregar questões básicas como essas, imagine a dificuldade que devem ter em olhar para uma pessoa com deficiência com graduações e especializações e confiar a ela cargos de relevância dentro da estrutura organizacional? Não digo que não aconteça, mas se acontece ainda é pouco diante de tudo o que pode acontecer.
A lei de inclusão e promoção do trabalho é benéfica ao público PCD e isso é indiscutível, no entanto, quando falamos do mercado e suas posições, ainda temos muito para conquistar. Não só por salários melhores, mas por mais dignidade humana.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.
