Por Beatriz Herkenhoff*

Fotos: Mila Simonetti (@milasimofoto)

A natureza nos transforma e transporta para momentos de leveza, contemplação, reflexão e silêncio.

A Ilha Bom Jesus dos Passos nos convida a um mergulho em nós, a um despertar para o cuidado com nossa mãe terra e seus habitantes.

Situada na Baia de Todos os Santos, Salvador, o acesso se dá pela cidade Madre de Deus.

A travessia de barco nos colocou em contato harmonioso com o mar, o céu, o sol, as montanhas, as florestas e as ilhas próximas. Antecipando o que nos esperava.

Ao chegar na Ilha Bonja (como é popularmente conhecida), ficamos impactados pelos manguezais, pelas águas calmas e claras e pela densidade das florestas.

Com caminhos arborizados que dão acesso às praias, enquanto caminhávamos, respiramos lentamente e fomos observando cada detalhe da ilha.

Encontramos casas seculares, coloridas e com lindos jardins. Famílias proseando ao ar livre, pescadores contando histórias, crianças correndo e brincando livremente.

A população de Bonja vive da pesca e da pequena agricultura familiar.

A Igreja Bom Jesus dos Passos compõe este cenário com sua imponência e expressa a religiosidade daqueles que ali residem.

Muitos lugares para conhecer e explorar, mas a beleza de Pontinha, a primeira praia que encontramos, motivou-nos a ficar e relaxar. Desfrutar as águas quentes e serenas, boiar, nadar, admirar a natureza, ouvir os seus ruídos, o canto dos pássaros, conversar sobre a vida, rir e gargalhar. Permitir que a sensação de paz e plenitude se instalasse entre nós.

Olhando para o mundo a partir das águas, os sentidos despertaram, aguçando as sensações e aflorando os sentimentos.

Ficamos literalmente no mar durante quatro horas ou mais. Só saímos às 15 horas para almoçar e não perder o último barco, que saia às 18h, para Madre de Deus.

Optamos por um restaurante maravilhoso de frutos do mar.

A ilha tem diversos espaços gastronômicos, com restaurantes situados entre árvores e com vistas para o mar, possibilitando que os visitantes acompanhem o ir e vir das embarcações, o movimento
dos pescadores, a diversidade dos manguezais com toda sua riqueza, a variação entre a maré baixa e alta, o nascer e o pôr do sol ou o despontar da lua cheia.

O retorno de barco foi tão impactante quanto nossas vivências na ilha. Ficamos hipnotizados com o pôr do sol, sua luz que tornava a natureza mais bela ainda.

A fotografa Mila Simonetti fez parte dessa gratificante experiência e nos presenteou com registros fotográficos lindíssimos.

Impossível não se alegrar e regozijar.

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Impossível não refletir sobre a relação que nós estabelecemos com a natureza. Como a ambição e a ganância intensificam o desmatamento das florestas, a contaminação dos rios e mares, a
ameaça de extinção de nossos biomas e as mudanças climáticas.

Impossível não nos solidarizar com a população do Rio Grande do Sul que está sofrendo com as inundações. Impossível ficar indiferentes a tantas perdas.

Enquanto o sol se punha, uma voz interior ressoava em meus ouvidos: Como mudar a forma de nos relacionar com a mãe terra, com as águas e com a natureza que nos rodeia?

Como nos comprometer com nossa Casa Comum em defesa da vida?

Como nos tornar mais amorosos e construtores de um mundo onde todos possam viver plenamente e em abundância?

Que a natureza não permita que predomine em nós o comodismo, a omissão e a indiferença!

Que possamos construir legados de coragem, sensibilidade, empatia, amor e preservação do nosso planeta.

Que a dor do outro seja também nossa!

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)