Por Vinícius Fonseca
A relevância e o ineditismo de um assunto são alguns dos critérios utilizados pelo jornalismo para definir o que vem a ser uma notícia ou não. Nos cursos de comunicação é comum ouvir, por exemplo, o seguinte ditado: “O cão mordendo o homem não é notícia, o homem mordendo o cão, sim”. Pois, bem, a aplicabilidade desse conceito também vale paras as notícias que envolvem inclusão.
Quem me acompanha pela Rede Lume sabe da minha paixão por shows e eventos e de pensar em como eles podem ser ambientes transformadores e inclusivos. O final de semana passado teve em São Paulo a já famosa, Virada Cultural e uma notícia do show da Vanessa da Mata, que teve um intérprete de libras sendo convidado a dançar, ganhou as páginas e as redes por meio de um grande veículo de comunicação.
Acho incrível saber que o show contou com um intérprete, sinal de que o evento e a cantora apoiam a inclusão de pessoas com deficiência (PCDs) em eventos sociais e viabilizam isso por meio da arte.
Leia a parte 1 da crônica aqui.
A questão é que nos últimos anos a Virada já teve profissionais interpretando libras nos palcos. Algumas grandes bandas, como o ColdPlay e outras, já se valeram desse recurso inclusivo e mesmo assim ainda vira notícia. Como se fosse algo que fugisse da realidade, fosse diferente ou escapasse ao que é comum.
De fato, se voltarmos no tempo uma ou duas décadas atrás, pensar em eventos de grande porte como inclusivos era raro. No máximo uma vaga ou outra para pessoas em cadeira de roda e olha lá. Os novos cuidados, como ambientes mais acessíveis (que ainda podem melhorar) ou a presença de intérpretes nos palcos fazem parte do que almejamos para o futuro. No entanto, já passou da hora de não serem mais notícia.

Nenhum evento que se preze deveria deixar de contar com profissionais ou estruturas que os tornem mais inclusivos ao público PCD. Não é nem só uma questão de direito à inclusão, prevista na Constituição Federal, é também uma oportunidade de negócio e que muitas pessoas parecem não perceber.
Pessoas com deficiência procuram estudar, trabalhar e levar uma vida tranquila, como qualquer outro ser humano, porém com algumas limitações advindas de sua condição. Ou seja, ainda que dependam de um determinado suporte, também fazem parte do mercado consumidor, seja ele o de utensílios pra casa, vestimenta ou, como se propõe a Virada e outros shows, arte.
Não precisamos que a participação de um intérprete de Libras vire notícia, por mais que isso chame atenção à causa PCD, precisamos que o futuro nos garanta uma sociedade inclusiva, tanto pelo que é dito, quanto pelo o que não é dito.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.
