Assunto pautou roda de conversa no residencial Vista Bela; grupo vai solicitar audiência pública na Câmara
Cecília França
Foto: Roda realizada no Vista Bela/Ivo Ayres
Foi a partir das experiências de violação de direitos no uso do tranporte coletivo vividas por Ana Paula de Andrade, moradora do residencial Vista Bela que faz uso de cadeira de rodas, que surgiu a ideia da roda de conversa “Anticapacitismo e Mobilidade Urbana: Lutando pelos direitos das pessoas com deficiência”, realizada no último dia 13 de junho. Na ocasião, Ana Paula contou como as dificuldades têm afetado sua vida e ganhou o reforço do relato de outras pessoas com deficiência. Os participantes decidiram protocolocar um pedido de audiência pública sobre o tema na Câmara de Vereadores, acompanhado de um ato público.
A roda de conversa foi organizada pelo coletivo popular Vista Bela em Movimento no Espaço Bota Fé e contou com a participação de Liana Lopes Bassi, coordenadora regional do Conselho Regional de Serviço Social (Cress-PR) e da socióloga e servidora da prefeitura de Londrina Beatriz Silva. Além de Ana Paula, outras pessoas com deficiência contribuíram com relatos pessoais, como Bruno Ponce, que também faz uso de cadeira de rodas, e José Giuliangeli de Castro, o Zezinho fisioterapeuta, deficiente visual.
“Eu provoquei essa roda pelo fato de estar passando muito constrangimento no transporte coletivo. Os funcionários não estão preparados para lidar com a nossa deficiência”, disse Ana Paula.
Assista ao relato da moradora:
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O coletivo Vista Bela em Movimento informa que protocolou denúncia na ouvidoria da empresa Grande Londrina contra o motorista citado por Ana Paula e que o mesmo foi afastado das linhas que percorrem o bairro.
Beatriz Silva, que tem uma das pernas amputadas e utiliza uma prótese para locomoção, ressalta que, historicamente, a sociedade busca limitar as pessoas com deficiência para que não precise lidar com elas.
“A gente precisa falar do que sustenta essas violações, que é o sistema capitalista. Porque a gente não serve para ser produtivo”, diz. “Eu vou falar do sistema capitalista porque eu tive acesso a uma prótese minimamente decente e ela é importada. Não existe fomento à industria brasileira para produção”.
Assista a outro trecho da fala de Beatriz:
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Bruno Ponce solicitou uma cadeira de rodas motorizada ao sistema público de saúde no ano de 2012 porque a dele estava em reforma. Passou quase 1 ano parado, sem frequentar a escola, e a cadeira solicitada chegou em 2021, quando ele já havia se mobilizado para comprar outra.
“(Também) Pedi uma cadeira de banho, porque com a minha deficiência é difícil sentar, e veio a cadeira errada para mim. O Estado não separa cada deficiência. Todas as deficiências têm várias formas, eles lidam como se fosse tudo igual”, constata.
“Quando surgiu ônibus adaptado era na frente que colocava a cadeira, depois veio para ficar atrás. Eu fico abismado com quem fez isso. Quando passa no quebra-molas quase caio da cadeira. O estado faz por conta própria, não pesquisa, não pergunta nada”, critica.
Assista mais da fala de Bruno:
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Legislação anticapacitista
Liana Lopes Bassi, representante do Cress-PR na roda de conversa, destacou que existem leis para garantir os direitos das pessoas com deficiência e que é preciso conhecê-las. Ela destaca a Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada pelo governo brasileiro em 2009 e que serviu de base para o Estatuto da Pessoa com Deficiência, de 2015.
“Antes da Convenção, se uma criança com deficiência quisesse estudar, os pais precisavam providenciar o material para ela. A legislação permitia, inclusive, que a escola se recusasse a fazer a matrícula; hoje isso é crime”, exemplifica Liana. “Quem tem que se adaptar à pessoa é a escola, a sociedade, o poder público”.
A Convenção de 2006 aponta três tipos de barreiras que precisam ser eliminadas: arquitetônicas, de acessbilidade e a atitudinal, que tem a ver com o capacitismo. Liana destaca que somente a mobilização social pode trazer avanços na luta anticapacitista.
“Somos criados em uma sociedade preconceituosa e aí a pessoa que começa a lutar por seus direitos é vista como ‘barraqueira’, ‘tá criando caso’. O pior é que às vezes isso é tanto que as pessoas começam a acreditar que valem menos, que estão criando problemas, mas o problema está nessa sociedade”, finaliza.
No vídeo, Liana relata a experiência pessoal que a envolveu na luta anticapacitista:
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