Partindo da carta de Esperança, a paranaense Antoniele Luciano analisa testemunho na escrita de Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves
Cecília França
Foto em destaque: A carta de Esperança Garcia (esq.) e a pesquisadora Antoniele Luciano com a escritora Conceição Evaristo (acervo pessoal)
Em 2019, em plena Festa Literária de Paraty (Flip), a paranaense Antoniele Luciano, então mestranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), teve seu primeiro contato com a carta de Esperança Garcia. Datada de 1770, a carta histórica da mulher negra, escravizada, mãe, narrava violências e privações sofridas por ela, pelos filhos e outras mulheres na fazenda onde viviam e pedia retorno para sua morada de origem.
Esperança vivia em Nazaré do Piauí (PI) e possivelmente tenha sido alfabetizada por padres jesuítas. A descoberta de sua carta deu-se em 1979, pelo pesquisador Luiz Mott. Anos mais tarde, após o trabalho da Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra do Piauí, Esperança foi reconhecida como a primeira advogada piauense, pelas características de seu texto. O reconhecimento do pioneirismo pela Ordem dos Advogados do Brasil veio poucos anos depois.
“Em termos formais, a carta escrita por Esperança atende aos elementos jurídicos essenciais de uma petição: endereçamento, identificação, narrativa dos fatos, fundamento no direito e pedido. (…) Em termos materiais, Esperança Garcia teve uma atuação singular porque resistiu através da luta pelo direito e atuou como membro da comunidade política que a escravizava, diferente das estratégias de resistência e luta contra a escravidão mais comuns do período como aquilombamentos, suicídios e assassinatos, formas que negavam o pertencimento à sociedade que as subjugavam”, diz trecho do site do Instituto Esperança Garcia.
Valor literário
Para além do valor jurídico, Antoniele Luciano enxergou na carta de Esperança valor literário. Para ela, o texto com características de testemunho daquela mulher escravizada consiste em uma “semente” para a literatura afro-brasileira produzida por mulheres nos séculos, inclusive na contemporaneidade. Assim nasceu sua tese, defendida em abril, pelo programa de Doutorado em Estudos Literários da UFPR.
“Sementes de Esperança, do Brasil Colônia à Contemporaneidade: o testemunho da mulher negra na literatura afro-brasileira” analisa a carta de Esperança Garcia (1770) junto ao romance Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis; o diário Quarto de Despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus; o romance memorialístico Becos da Memória (2006), de Conceição Evaristo e o romance histórico Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves.
“Os textos que selecionei pertencem não só a períodos, mas a gêneros literários diferentes. Cada autora traz, à sua maneira, demandas relacionadas a categorias como corpo, comunidade e escrita. Há uma progressão em como essas temáticas são apresentadas. Partimos de uma carta reveladora dos traumas coloniais e chegamos a um romance histórico que retoma o testemunho da mulher afro-brasileira, mas também nos aponta uma nova forma de pensar a população negra”, explica Antoniele.

Em busca de Conceição
Apesar da formação em Jornalismo e Letras, Antoniele, que é natural de Jandaia do Sul (norte do Paraná), só se aproximou da literatura afro-brasileira na pós-graduação.
“Meu primeiro contato com autoras negras aconteceu com quase 30 anos, em 2015. Na época, eu era aluna especial da disciplina Vozes Femininas na Literatura, ministrada pela professora Suely Leite, no programa de mestrado em Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Me apaixonei tanto pelo conceito de escrevivência proposto por Conceição Evaristo, a profundidade das personagens e a poética da autora que decidi que queria pesquisar a obra e a trajetória da escritora”, relembra.
A obra de Conceição foi objeto de estudo de Antoniele durante seu mestrado em Letras, na UFPR, a partir de 2018. No ano seguinte, quando ela viria a conhecer a carta de Esperança, era por Conceição que ela estava na Flip. Antoniele havia decidido que precisava entrevistá-la antes de finalizar seu trabalho.
“Tive dois encontros com Conceição Evaristo nos últimos sete anos e posso dizer que eles impulsionaram os meus projetos nos anos seguintes. Primeiro, assisti a uma palestra dela na Caixa Cultural de Curitiba, em 2017. Na hora dos autógrafos, contei rapidamente sobre minha vontade em pesquisar a obra dela, o receio de não ser aprovada, e fui encorajada a submeter, mesmo assim, o projeto na UFPR. Nos anos seguintes, na esteira das leituras sobre Conceição, acabei conhecendo mais do universo da literatura afro-brasileira. Digo sempre que a potência de Conceição Evaristo vai além do que ela escreve. Conceição fortalece o movimento negro, abre portas para que conheçamos escritores e escritoras que vieram antes e depois dela. E foi isso o que aconteceu quando fui a Paraty, na busca de uma entrevista com ela para minha dissertação de mestrado”, conta.

Narrativas de pessoas escravizadas
O contato com a carta de Esperança gerou o esboço do que seria o projeto de doutorado de Antoniele, mas também a levou a outros estudos, como o de narrativas de pessoas escravizadas, que ela teve a oportunidade de aprofundar durante o período do doutorado-sanduíche na University Of Georgia.
“Eu me perguntava sempre quem teria sido a autora negra brasileira mais antiga entre tantas que ainda são invisibilizadas”, relembra a pesquisadora.
“O encontro com a carta de Esperança Garcia também ampliou meus horizontes de uma forma que eu nem imaginava. Foi a matéria-prima de um projeto para pesquisar narrativas de pessoas escravizadas na University of Georgia, nos Estados Unidos, em 2022, além da oportunidade de ler outras autoras a partir de uma nova lente, a que tinha essa carta como uma semente, um embrião do que outras mulheres viriam a produzir nos séculos seguintes”.
Em sua apresentação de defesa de doutorado Antoniele compara a produção literária de e sobre pessoas escravizadas no Brasil e nos Estados Unidos, mostrando o quanto ainda temos a descobrir sobre esse período triste e crucial da nossa história. Enquanto nos EUA são conhecidos mais de 6 mil textos, no Brasil são somente 170.
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Humanização da população negra
A tese da carta de Esperança como uma “semente” para as autoras sequenciais floresceu na pesquisa de Antoniele. Para ela, as narrativas das autoras afro-brasileiras retomam a possibilidade do sujeito negro ser o agente da história.
“De Esperança a Ana Maria Gonçalves, ou seja, através dessa ampla janela temporal literária, é possível visualizar a dinâmica colonial de animalização e coisificação do negro. Mas a escrita afro-feminina analisada não se resume a isso. Nossas autoras também resgatam o corpo negro como um corpo capaz de carregar intelectualidade, afetividade, beleza e dignidade, um corpo capaz de se mostrar humano. Tão humano que tece comunidades de diferentes tipos em meio à diáspora”, destaca a pesquisadora.
Para ela, existe uma tradição de humanização sobre a população negra no país, porque a escrita de mulheres negras não teve início recente no Brasil, mas vem sendo fermentada ao longo dos séculos.
“Investigar, assim, a carta de Esperança Garcia em conjunto com Úrsula, Becos da Memória, Quarto de despejo e Um defeito de cor me permitiu conhecer a extensão da força narrativa e estética de um sujeito para o qual se destinavam somente os lugares de mucama e doméstica na sociedade brasileira. Por meio de diferentes gêneros e em diferentes períodos, foi possível ver como Maria Firmina, Carolina, Conceição e Ana Maria levam adiante o legado e o testemunho da carta-semente de Esperança”.
A carta de Esperança é a inscrição-primeira, “a semente de uma enunciação cuja autoria não era considerada como um sujeito legal, histórico ou social”. “A partir das palavras de Esperança, esse sujeito passa a existir e, como tal, precisa ser incorporado à literatura brasileira”, defende Antoniele.
“Nessa dinâmica, o testemunho de Esperança não tem relação apenas com o presente experienciado por ela. O sentido do discurso testemunhal da escravizada alcança, também, uma potência de futuro, potência essa que se materializou no trabalho de suas contemporâneas”, finaliza.
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