Por Vinícius Fonseca*

Ter um filho é algo bem possível para a maior parte dos homens, ser pai não. Embora muita gente use o título pai para descrever um homem com filhos, ser pai de verdade vai além de ter uma criança.

Pai é um título que deveria ser atribuído a quem merece e não a qualquer um que engravidou uma mulher e quando a gente fala de ser pai de uma criança com deficiência essa responsabilidade ganha contornos ainda mais interessantes.

Eu, por exemplo, sou o primeiro filho do meu pai, o menino que todo cara na casa dos 30, idade dele naquela época, sonha em ter. Um futuro jogador de bola para acompanhar o paizão. Bem, nasci com uma limitação física que, além de interromper esse possível sonho dele ainda o fez ter que correr atrás de médicos, fisioterapeutas e outros profissionais para me garantir ao menos qualidade de vida.

Ser pai é mais que ter um filho. Foto: Conner Baker/Unsplash

Ele nunca me disse o quanto isso o frustrou, se é que frustrou. Nunca deixou transparecer. Enquanto minha mãe era protetora ao extremo, quase ao ponto de me estragar, ele queria que eu tentasse, me arriscasse e conseguisse as coisas com esforço próprio.

E olha, eu devo ter decepcionado ele algumas vezes, como naquela em que ele matou o serviço para me ensinar a andar de bicicleta sem rodinhas, algo que não aprendi até hoje, em razão da minha gritante falta de equilíbrio corporal. Mesmo assim, ele nunca disse estar infeliz ou decepcionado.

Nossa relação nunca foi perfeita, mas é uma relação bem saudável, eu diria. Ele é o contraponto perfeito da minha mãe para que eu possa chegar aonde eu nem sei se conseguiria, mas ele sempre me “obrigou” a tentar.

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Há algumas semanas venho acompanhando um caso na internet de um casal que usava a deficiência da filha para ganhar dinheiro dos seguidores, alegando que ajudaria no tratamento da criança, quando na verdade era usado por eles para uma vida de luxo e ostentação.

Na última sexta (02), esse suposto pai foi preso em razão de possíveis crimes com o mau uso das doações. Leia aqui.

Eu não quis fazer nenhum comentário anterior sobre o caso porque esperava pela ação da polícia. Calhou que a prisão aconteceu no começo de agosto, justamente o mês que tem o seu segundo e próximo domingo marcado por ser o Dia dos Pais – que triste coincidência.

Triste não por ver um pai sendo preso. Comprovados os crimes, a cadeia é o lugar certo para estar, mas triste por ver um pai usando seu título e a deficiência de sua filha de maneira tão indevida. Ser pai deveria ser para quem merece e não para qualquer um.

Por aqui encerro agradecendo ao meu pai, que mesmo com todos os defeitos que têm, faz muito para merecer ser chamado de pai. E para você leitor que chegou até aqui, seja pai de criança com deficiência ou não, espero que faça por merecer essa oportunidade que a vida te deu.

*Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso.

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