Por Néias-Observatório de Feminicídios Londrina*

O Tribunal do Júri de Londrina condenou, nesta terça-feira, 6 de agosto, Everton Paulo Schafer a 28 anos, 1 mês e 15 dias de prisão pelo feminicídio de sua ex-companheira, Lígia Fernanda Silva, cometido dentro da igreja onde ela trabalhava, na zona Leste, em abril de 2022. Os jurados reconheceram todas as qualificadoras constantes na denúncia do Ministério Público. Além do feminicídio, meio cruel, motivo torpe, recurso que dificultou a defesa da vítima e emprego de arma de fogo de uso restrito.

Durante cerca de dez horas de julgamento, a acusação, a cargo do MP, defendeu a condenação do réu confesso, enquanto a defesa protagonizou uma tentativa frustrada de classificar o crime como homicídio privilegiado, alegando injusta provocação por parte da vítima.

Foram ouvidas 16 testemunhas e o histórico de violência, que culminou no feminicídio, ficou evidente nas falas de familiares da mulher. Ela própria havia denunciado uma agressão anos antes e obtido medida protetiva contra o agressor, depois retirada. Sua mãe relatou diversas vezes em que ela aparecia com roxos pelo corpo.

Leia também: ‘Não é Não’: Conheça leis de proteção às mulheres

O caso evidencia como o machismo opera na nossa sociedade, permitindo que companheiros e ex-companheiros sintam-se donos de suas parceiras, ceifando-lhes a vida quando estas se recusam a permanecer no relacionamento.

Mesmo diante deste cenário, a defesa protagonizou momentos de desrespeito à memória de Lígia, repetindo suposta fala dita por ela ao réu momentos antes de ser assassinada. A tal fala seria a “injusta provocação” à qual ele respondeu com ao menos três tiros.

Mas enquanto apenas o réu afirmava ter ocorrido uma discussão anterior ao seu “descontrole”, duas testemunhas afirmavam não ter ouvido nada antes do grito desesperado da vítima por socorro. Os jurados, cinco homens e duas mulheres, compreenderam a realidade dos fatos e impuseram uma justa condenação ao réu.

 

Ato de Néias lembra vítimas de feminicídio em Londrina/Arquivo-2022

Quem ama não mata!

Além da tentativa frustrada da defesa de impor à vítima a responsabilidade pelo “descontrole” do réu, também houve questionamento sobre a qualificadora do feminicídio. Para os defensores, o réu matou “por amor”, e não por menosprezo à condição de mulher da vítima.

Para o MP, a defesa passou dos limites ao tentar culpabilizar a vítima pela atitude do réu e, em sua fala, reiterou o ciclo de violência praticado por ele contra a ex-companheira.
Para Néias, é desesperador que em 2024 seja necessário explicar o que grupos de mulheres já bradavam na década de 1970, quando do feminicídio de Ângela Diniz: Quem ama não mata!

A motivação para a agressão e o feminicídio é o sentimento de posse, perpetuado por uma sociedade machista e patriarcal. Só se fere ou mata aquilo que se despreza, aquilo que se desumaniza, aquilo que se considera “coisa”.

Feminicídios deixarão de acontecer quando mulheres deixarem de ser consideradas posse. É para isso que lutamos. Para que outras tenham futuro, em nome de Lígia.

Por nenhuma a menos!

*Saiba mais sobre o trabalho do coletivo no site