Por Beatriz Herkenhoff*
Cresci em sintonia com meu corpo. Corria livremente, brincava de pique, tomava banho de chuva, escorregava na lama com folhas de bananeiras, nadava, virava cambalhotas, subia em árvores, pegava carona nas carroças, dançava, entre tantas outras atividades que me colocavam em contato com a flexibilidade do meu corpo.
A criança é espontânea e livre em seus movimentos. Deixa fluir a potência do seu corpo.
Na fase adulta criei uma disciplina para malhar, cuidar e fortalecer o corpo. Passei a fazer trilhas, caminhar na natureza, viajar, dançar forró, desfilar em Escola de Samba, pular o carnaval de rua.

Acredito que o corpo é um ponto central da nossa existência, um lugar onde a vida acontece e se manifesta de forma plena e contínua.
Se imprimimos qualidade aos nossos movimentos, fazemos a diferença na forma como nos relacionamos com o mundo.
Mas, ao longo da vida, recebemos mensagens que reprimem a liberdade do corpo, que culpabilizam, acusam, desqualificam a sua beleza.
Mensagens que focam em modelos e padrões impostos pela sociedade, que criam a ditadura da beleza, que geram gordofobia, anorexia e bulimia.
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Passamos a ter dificuldades na relação com o corpo. Deixamos de acolher e amar o nosso corpo como ele é. Focamos nos seus limites e defeitos. Entramos numa espiral de rejeição e negação. Ou na compulsão para transformar o nosso corpo.
Sempre tive um corpo saudável, mas aos 67 anos comecei a ter problemas graves de dores nos joelhos. Exigindo uma atenção especial para o meu corpo, para a forma como piso, como coloco o peso nos meus joelhos, entre tantas outras questões.
Provisoriamente, parei de dançar, de malhar, de fazer trilhas. Mas não parei de me movimentar. Estou fazendo fisioterapia intensiva e acredito na cura plena.
A partir de uma certa idade, a sociedade cria um olhar sobre o corpo como se fosse normal sentir dores (a idade do condor), como se não tivesse mais jeito.
Muitos se acomodam, entristecem e não desenvolvem estratégias para lidar com os limites impostos pelo envelhecimento.
Nesse processo de tratamento dos meus joelhos, criei uma consciência corporal e uma intimidade maior com o meu corpo que fala, pede cuidados e atenção.
Mesmo com limitações, coloco-me em movimento, não fico engessada ao diagnóstico. Procuro construir uma história onde eu sou a protagonista, e não a dor.
Estou resgatando as partes saudáveis do meu corpo, identificando as emoções reprimidas que paralisam.
Identificando mecanismos que aproximam o universo emocional do corporal.
Que nosso corpo seja visto como um espaço que interage com o mundo, sem ser julgado ou condenado.
Que possamos entender a potência do corpo como fonte de cura. Acolher as emoções não processadas que geram dor crônica.
Ter disciplina no tratamento. Acreditar na cura. Viver o presente com intensidade, sem a ansiedade gerada pelo medo do futuro.
Procuro nutrir meu corpo e minha alma de coisas que me fazem bem. Resgatar a liberdade de me movimentar com confiança e esperança.
A temática sobre o corpo é ampla e inesgotável. Não podemos ignorar que o corpo é maltratado pela fome, pelo desemprego, por trabalhos pesados, pela carência de moradia.
A ausência de um lugar para dormir, relaxar e repor a energia mina a capacidade do corpo de resistir, lutar e vencer.
Por isso, o corpo não está isolado de um contexto social, econômico e político. A proteção ao corpo e as condições para que ele se coloque em movimento de forma saudável e transformadora é um desafio coletivo e não individual.
Como você está se relacionando com seu corpo? Que outros questionamentos se colocam?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
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