Por Vinícius Fonseca*

Dizem que a pressa é inimiga da perfeição, eu acho que não, acredito que mais que inimiga da perfeição, ela é amiga da imperfeição e como nós somos todos imperfeitos, acabamos, em certa medida, sendo apressados e falhos demais.

Era 7h e qualquer coisa da manhã e eu estava em um terminal lotado, pessoas correndo para subir em um ônibus de grande movimento. Chegar atrasado no trabalho é algo que todos evitam, inclusive eu.

Como pego sempre o mesmo ônibus, algumas pessoas se repetem com certa constância. Era o caso daquelas três mulheres sentadas próximas à porta do fundo, todas aos risos. Elas sempre dividem os dois bancos pares próximos ao final do circular, andam em quatro mulheres, acredito que com empregos semelhantes, pois sempre falam de suas atividades e seus patrões. Dessa vez apenas três estavam no mesmo ônibus que eu e aos risos.

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Quase sempre as conversas delas chamam a atenção dos demais passageiros, porque falam alto, bem alto. Uma energia matinal à qual não estou acostumado ou não tenho. Aquele dia, no entanto, riam tanto que acabei prestando atenção nelas. Riam justamente da amiga que faltava; porque entrou no ônibus à frente do nosso, tinha pressa em chegar mais cedo, porém foi o veículo em que estávamos o que deixou primeiro o terminal.

Riam, portanto, do fato de que a pressa da amiga em não se atrasar seria a principal culpada de um possível atraso. Debocham de sua celeridade em subir no primeiro ônibus e de como ficaria para trás por não seguir com elas. Uma anedota boba, mesmo para mim, porque eu sei o motivo do atraso do ônibus em que se encontrava a quarta mulher: um senhor em cadeira de rodas tentava subir no ônibus e era engolido pela multidão enquanto esperava que o motorista viesse até ele para baixar o elevador da porta do meio e, assim, tornasse possível o seu acesso ao veículo.

Confesso que o notei e passei por ele para alcançar o segundo ônibus quando vi que o primeiro demoraria a sair. Fui tão imperfeito quanto as três amigas.

Depois me bateu esse sentimento angustiante de remorso com o qual escrevo o presente texto. A ideia de ter sido apressado, os risos de deboche daquelas mulheres, que embora direcionados à amiga apressada, tinham uma relação direta com aquele senhor em cadeira de rodas.

Talvez eu me cobre demais, talvez eu seja tão ruim quanto qualquer um, ou talvez eu seja só um trabalhador apressado que deixa escapar as pequenas coisas. Não sei, eu só sei que mais do que inimiga da perfeição, a pressa me parece cada vez mais amiga da imperfeição tão comum a nós, humanos.

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente.

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