Por Vinícius Fonseca*
Essa é apenas mais uma história entre tantas outras histórias. Essa é a história do homem que não podia reclamar. Não é que não tivesse a habilidade da fala, não que não tivesse vontade de reclamar, ele apenas não podia…
Não podia porque foi ensinado a não poder. Tudo começa ainda na sua infância. Nasceu com uma deficiência leve e todos lhe diziam: “tem tanta gente pior, não é mesmo? Você não pode reclamar, deve agradecer a benção de ter nascido assim”.
Cresceu ouvindo de muita gente que talvez não conseguisse fazer isso ou aquilo, que era melhor não tentar. Por outro lado, havia os que diziam: “para mim é como se você nem tivesse deficiência, eu te acho normal”.
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Tanto um, quanto o outro jeito de ser tratado o irritavam, mas não achava pertinente reclamar, afinal, como vai consertar o mundo e dizer às pessoas que em ambos os casos há falta de empatia se deficiente aprende desde cedo que nasceu com algo lhe faltando? Ele não podia reclamar.
Era um domingo qualquer quando recebeu um link de matéria sobre pessoas com deficiência e o mercado de trabalho. Lembrou-se de quantas vezes reclamou aos seus superiores do trabalho; sobre o quanto lhe faltava dinheiro para pagar as contas e ter uma vida minimamente digna.
Com essas memórias e com vários boletos a vencer e sem a grana para pagá-los, até se arrependeu de clicar no link, não porque representaria mais um gasto (tirando as custas da internet, gastos não existiam ali), arrependeu-se por ter lido o que leu naquele site de notícias.

De acordo com a matéria, o levantamento da Mapa ESG Brasil demonstra que, no país, pessoas com deficiência ganham, em média, 31% menos em comparação a outros trabalhadores. A aba do navegador de internet aberta o fez correr a pesquisar a média salarial do brasileiro em 2024. Descobriu que era cerca de R$ 2.350 e colocou-se a pensar, “Como pode alguém viver com 31% a menos que isso, se isso já é tão pouco?” Mas, como ganha um pouco mais que isso, mesmo com contas atrasadas e a angústia do nome sujo, não pode reclamar.
Pensando bem, essa história que conto aqui se parece um tanto com a minha e a de tantas outras pessoas com deficiência espalhadas pelo Brasil afora, mas quer saber: eu não posso reclamar.
Para saber mais sobre o conteúdo do material que inspirou esse texto deixo aqui o link da notícia sobre o levantamento. Só clique se você não puder reclamar.
*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…
