Guarani Nhandewa gravaram com o DJ a faixa “Pedju Kunumingwe”, que concorre na categoria Melhor Música Eletrônica

Cecília França

Foto: Arquivo pessoal Everton Lourenço

Indígenas Guarani Nhandewa de territórios do Paraná concorrem ao Grammy Latino 2024 na categoria Melhor Música Eletrônica, junto com o DJ e produtor musical Alok, pela faixa Pedju Kunumingwe, do álbum “O Futuro é Ancestral”. O álbum reúne músicas gravadas com oito povos indígenas do Brasil. Dois dos seis indígenas paranaenses que participaram da gravação estão em Miami, no estado da Flórida, Estados Unidos, para acompanhar amanhã (14) a cerimônia de entrega do prêmio para um dos cinco finalistas.

Everton Lourenço, cacique da TI Laranjinha, localizada no município de Santa Amélia, no norte pioneiro, e Igor Camargo (ou MC Nhandewa), natural do mesmo território,  já participaram de uma cerimônia de homenagem aos indicados, onde receberam medalhas (foto em destaque), acompanhados de Alok.

O cacique Everton conta que a aproximação com o artista aconteceu em 2021, durante mobilizações dos povos indígenas em Brasília contra o marco temporal. Alok estava prestes a finalizar o álbum “O Futuro é Ancestral” quando compareceu ao acampamento dos indígenas para se somar à luta.

Everton e Igor com Alok e outros representantes de povos indígenas que participaram o álbum/Arquivo pessoal

 

“Nessa luta em Brasília fomos em 70 guerreiros do Paraná, entre Guarani e Kaingang. Ficamos um mês fazendo essa resistência. Um dos líderes nossos fez uma postagem bastante forte em defesa das causas indígenas e o Alok achou essa postagem e acabou repostando. Aí começou o contato. Ele já estava finalizando esse novo álbum dele e nós fomos o oitavo povo que foi chamado assim de urgência e o Alok fez a proposta que gostaria de fechar o projeto com nossos povos Guarani Nhandewa”, relembra o cacique.

Após a volta de Brasília, os indígenas participantes do projeto viajaram para Belo Horizonte, onde aconteceram as gravações ao longo de cinco dias. Igor, que é músico, atribui a Nhanderu, Deus, sua participação.

“Foi por Nhanderu. No dia da gravação eu não estava indo, mas uma liderança voltou pra me buscar, com meus instrumentos”, conta. Igor participa da faixa com canto e violino, um de seus instrumentos.

Igor durante gravação com Alok/Reprodução Instagram

 

“Desde criança, nas casas de reza, nunca imaginei que chegasse tão longe. Mas desde pequeno tinha esse sonho de ser artista. É uma conquista muito grande. Só de a gente estar aqui já representa muito”, afirma.

Everton participou com o canto, parte do dia-a-dia do território, na faixa Pedju Kunumingwe, que significa “Venham, jovens!”.

“A letra fala dos ensinamentos dos mais velhos para os mais jovens, de preservação da natureza, da língua; um chamamento dos mais velhos para os mais novos”, resume.

Ele explica que as músicas são sempre compostas em conjunto. O próprio Igor, hoje com 19 anos, contribuiu na infância para dar ritmo a esse canto e introduziu outros instrumentos. “O Igor é autor de várias músicas Guarani Nhandewa, tem toda uma carreira pela frente. Hoje ele é MC também, já gravou um rap e um funk, está se lançando no mundo da música”, conta Everton.

Representatividade

Para Igor, estar em um Grammy como concorrente tem um gosto especial. “Estou bem ansioso, não esperava um momento como esse. É uma conquista muito grande. Só de a gente estar aqui já está representando muito”, diz ele.

“A todo momento a gente fala aqui que a ficha ainda não caiu. A gente esperava que o Alok fosse levar nossa música para mais longe, mas não esperava essa grandeza. A gente foi chamado de última hora, acho que foi tudo por Deus, por Nhanderu”, diz Everton.

Na gravação da música o cacique sentiu como se o grupo estivesse representando todo o povo Guarani Nhandewa dos três territórios do Paraná: Laranjinha, Pinhalzinho, no município de Tomazina, e Yvyporã Laranjinha, em Abatiá. Agora, na premiação em Miami, sente-se um representante dos indígenas de todo o Brasil.

“O grande objetivo nosso de gravar com o DJ Alok também era pensando em levar, por meio desse grande artista reconhecido internacionalmente, nossas vozes para mais longe, mostrando nossa luta, nossa resistência; mostrar que estamos resistindo há 524 anos”, explica o cacique. “Creio que estamos representando muito bem a nação indigena do nosso país”.

A cerimônia de premiação do Grammy Latino tem início nesta quinta-feira (14), horário de Brasília, com transmissão pelo canal por assinatura Bis e pelo Globoplay.

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