Por Vinícius Fonseca*

Produzir textos que sejam interessantes, reflexivos e sempre acerca de um mesmo universo – no caso desta coluna temas relacionados às Pessoas com Deficiência (PcDs) –  nem sempre é fácil. Eu pesquiso temas, recebo dicas de colegas, corro atrás de conteúdo.

Às vezes, no entanto, os assuntos simplesmente “brotam” para mim. Talvez porque os algoritmos das redes já entenderam que me interesso por tudo o que envolve pessoas com deficiência e afins. O texto da coluna que vocês lerão hoje, por exemplo, era para ser outro, dica de uma conhecida. Porém, uma passada rápida no meu Linkedin e uma história mudou todos os planos que eu tinha.

No post em questão, a mãe de um menino autista relata que seu filho havia chegado em casa dizendo ter sido demitido de seu primeiro emprego, como repositor de mercado, após seu primeiro mês de trabalho. Ainda segundo essa mãe, o menino contou o ocorrido com naturalidade, tal qual a de quem talvez não tivesse entendido plenamente o que lhe acabara de acontecer. Não duvido que assim tenha sido, a depender do espectro do jovem, o comportamento de não esboçar emoções como o lamento por algo desagradável pode ser comum.

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O post segue com a mãe contando as justificativas que foram apresentadas ao seu filho e defendendo a sua “cria”, algo normal para uma mãe. Quando li a postagem, sinceramente achei a autora bem ponderada em suas colocações, o que me espantou mesmo foi a postura da empresa que dispensou o jovem.

Ele estava em primeiro emprego. Pelas indicações do post foi contratado dentro do enquadramento PcD, ou seja, a empresa sabia do quadro de autismo. Mesmo assim, com 30 dias escolheu demitir o rapaz.

Nos meus textos procuro fugir de qualquer “coitadismo” com relação a nós, PcDs. Acredito que todos temos limitações, mas que vamos nos adequando e nos adaptando a elas e podemos, sim, ter uma vida produtiva, que contribua com a sociedade e que nos dê um sentido, um significado maior à nossa própria existência. E neste caso não será diferente, mas tenho alguns questionamentos que não me deixaram dormir e me fizeram optar pela construção desse texto e não de outro qualquer.

O primeiro ponto é: um mês? Será que foi tempo suficiente para avaliar um associado com deficiência e em seu primeiro emprego? A impressão que fica é que se ele não tivesse deficiência teriam mais paciência. Afinal, sabemos que uma pessoa em primeiro emprego precisa de uma orientação e um cuidado maior. Não por qualquer limitação física, mas porque lhe falta conhecimento de mundo.

Não estou pedindo que tenham paciência exacerbada com um funcionário que está começando, mas como profissional de recursos humanos, uma coisa que sempre ouvi nos bancos escolares é que cabe ao RH e gestores treinarem pessoas, quanto mais quem está começando agora.

Por falar em treinamento: por quais treinamentos esse garoto passou? Um mês me parece insuficiente para qualquer avaliação mais precisa sobre comportamento e desempenho de alguém. Veja que pelo que indica o post a empresa não esperou nem mesmo os 45 dias do contrato de experiência.

Não conheço a fundo a versão da empresa para cravar se havia motivos ou não para demitir o rapaz, mas me parece certo afirmar que faltou paciência com o profissional, volto a frisar, em início de carreira.

Sei que esse é um tema recorrente aqui, porém é sempre bom lembrar, apesar da existência da lei de cotas não queremos ser apenas números dentro de uma organização. Queremos ser mais, ter mais oportunidades.

É preciso paciência para formar um bom profissional; é preciso paciência para promover a inclusão de verdade; é preciso ter paciência para não se perder a paciência com casos assim. Por sorte eu tenho essa coluna para desabafar!

*Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso.

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