Nos 90 anos de Londrina, ativistas de diversas áreas contam à Rede Lume seus desejos para os próximos anos em prol de uma cidade mais justa e igualitária

Cecília França

Montagem: fotos dos entrevistados/arquivos pessoais

Londrina comemora seus 90 anos neste 10 de dezembro de 2024 com motivos para celebrar, mas também, muitas demandas sociais. Este é o diagnóstico de ativistas e militantes em diversas áreas em resposta à Rede Lume. Perguntamos: “O que você deseja para Londrina nos próximos anos, de acordo com sua área de atuação?”. Ouvimos artistas, camponeses, educadores, ativistas do movimento negro, indígena, LGBTQIA+; ativistas pela inclusão e dos direitos humanos.

Dentre as respostas, desejos para que Londrina reconheça sua origem a partir dos povos originários e os valorize; que combata de forma eficaz a pobreza; que proporcione saúde e moradia digna a todas as famílias; que seja uma cidade onde políticas públicas são construídas de forma participativa e alcancem quem precisa; onde campo e cidade comumguem dos mesmos direitos e acessos visando o bem comum.

Leia os desejos abaixo e inspire-se para uma Londrina mais acessível, digna e igualitária para todas as pessoas.

Adriana Marcolino, Amigas do São Jorge – Projeto Wal Dias

“Prosperidade, progresso e menos pobreza.”

 

 

 

Alisson Poças, coordenador do CDH Londrina e fundador do coletivo de comunição popular Papo Reto Londrama:

“Sou Assistente Social/Comunicador Popular. Atualmente coordeno o Centro de Direitos Humanos de Londrina e meus sonhos/projetos para a cidade obviamente passam por essa área de atuação: Pelo fim de todas as formas de violência, seja ela física, psicológica, moral, patrimonial, mas sobretudo, a violência praticada por agentes do estado nas periferias, ocasionando mortes e milhares de famílias afetadas pela tragédia da perca de entes queridos;

Que Londrina seja de fato uma cidade de braços abertos e que sejam respeitados todos os direitos da dignidade humana de toda a população e que os Direitos Humanos sejam encarados como política pública e dever do estado, garantindo atendimento adequado nas áreas de saúde, educação, assistência social, cultura, esporte/lazer, habitação, etc;

Que exista um Programa de Habitação Popular (unindo os três entes federativos com acompanhamento técnico), colocando fim às 57 ocupações urbanas e rurais e dando encaminhamento às mais de 55 mil famílias, à espera de habitação na fila da COHAB Londrina, garantindo acesso aos demais direitos de toda essa população;

Pela vida das juventudes periféricas do campo e da cidade, sem nenhum tipo de opressão e sem cerceamento das liberdades criativas e culturais, assegurando proteção ao invés de repressão;

Pelo reconhecimento incontestável de milhares de migrantes, sobretudo negras e negros, que têm sua história apagada nos livros oficiais da nossa cidade, mas que contribuíram de maneira extremamente significativa para a formação dessa Londrina que conhecemos hoje;

Pelo fim do racismo estrutural existente na cidade e que todas as religiões possam professar sua fé sem nenhum embaraço, sobretudo as religiões de matriz africana marginalizadas propositalmente em nossa sociedade;

Pela geração de empregos e renda, garantindo uma distribuição justa e igualitária para toda a população das riquezas geradas pelo município e que nossa cidade saia do ostracismo político e cultural com as outras esferas de governo.

É isso que sonho/planejo para nossa cidade!”

Ana Lúcia Ortiz Martins, indígena Guarani Nhandewa, estudante de psicologia na UEL:

“Eu desejo que a cidade de Londrina e a sociedade londrinense respeitem e reconheçam nossa história, cultura e contribuições, valorizando e respeitando nossos conhecimentos e presença em todos os espaços, seja na universidade, cidade, escola e mercado de trabalho.

Que possamos contribuir juntos para uma política pública de educação intercultural, ensino bilíngue e inclusivo, respeitando nossas línguas e tradições. Que possamos acessar saúde e formar trabalhadores de SUS com sensibilidade e consciência da saúde diferenciada, considerando nossas necessidades culturais.

Desejo também que, nos próximos anos, Londrina tenha representantes indígenas nas decisões políticas, garantindo nossa voz e escuta. E respeito às nossas tradições, rituais, cerimônias e patrimônio cultural. Que possamos ter mais apoio aos projetos culturais que valorizem nossa arte, especialmente das mulheres artesãs, mães em buscam sustento para seus filhos.

E, acima de tudo, que Londrina debata o racismo, preconceito e discriminação contra pessoas indígenas, juntamente com os povos indígenas, como forma de reconhecimento e combate. Desejo que os indígenas sejam incluídos em políticas públicas e espaços de debate, não apenas como ouvintes, mas como debatedores e construtores. Que a Lei 11.645/08 seja implementada nas escolas e que se discuta questões indígenas, presença, potências, contribuições para cultura, alimentação, educação e saúde.

Que as próximas gerações sejam conscientes de nossa diversidade e possam refletir sobre outros modos de viver e existir. E que Londrina possa olhar para criança e jovens indígenas com empatia e respeito, e menos preconceito e racismo. Considerando que o preconceito e racismo são uns dos fatores que vem nos adoecendo tanto e tirando as perspectivas de viver, sobretudo dos nossos jovens.”

André Luís Barbosa, representante local do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR):

“Pra 2025 eu desejo o que eu desejo todo ano: paz pra todos. E para Londrina, que pra mim é a melhor cidade do mundo, que nossos políticos que vão assumir aqui o poder venham realmente com o critério que eles falaram durante a campanha pra se eleger ou reeleger. Que eles só façam o que falaram, nada mais. É isso que a gente espera nas políticas públicas em geral, de saúde, educação, questão social, por que não segurança…

Muita gente fala que eu sou um sonhador, mas eu sou, eu acredito que sonhar é válido.”

Ângela Silva, professora da rede pública e militante do movimento negro:

“Antes de pensar no que desejo para Londrina, vamos pensar na narrativa que vem sendo construída sobre Londrina nesses 90 anos, uma narrativa extremamente eurocêntrica sobre quem foram os desbravadores, heróis, que fundaram a cidade. Não é à toa que Londrina tem esse nome, a ‘pequena Londres’.

Mas essas pessoas que aqui estiveram vieram somente com interesse mercantil. E aí o questionamento é: Por que Londrina ainda mantém essa narrativa eurocêntrica de que forma os ingleses que a fundaram sendo que isso não é verdadeiro?

Então o que espero para os próximos anos é que, primeiro, a gente possa mudar essa narrativa enquanto processo histórico. Que nas escolas seja ensinado quem foram as pessoas que aqui estavam, os indígenas que aqui estavam, o que aconteceu com eles; quem eram os posseiros e o que aconteceu com eles; quem foram os trabalhadores que levantaram a cidade, que realmente foram para a lavoura plantar e colher café.

Eu espero, por exemplo, passar pelo Calçadão, na Concha Acústica, onde tem aquele memorial, que ele possa realmente contar a história de Londrina, onde estão as mulheres, os homens negros, os indígenas, os povos africanos.

Desejo que nossas crianças conheçam a verdadeira história de Londrina. Que elas possam chegar ao espaço escolar reconhecendo que Londrina foi um território Kaingang, que quem construiu a cidade de Londrina foram, sim, europeus, mas também foram os povos africanos que aqui estavam e continuam fazendo esse trabalho.

Então o que eu desejo nos próximos anos é que nossa história real seja contada.”

Carlos Enrique Santana, servidor público municipal e ativista dos direitos humanos:

“Eu tenho 60 anos, 35 de prefeitura municipal de Londrina na área profissional. Eu desejo para Londrina que a gente não passe os mesmos perrengues que passou enquanto profissional nesses 35 anos em que estou atuando como servidor público. O que eu desejo para Londrina também é que a cidade se lembre das pessoas da periferia, que elas são seres humanos e precisam da atenção mínima do Estado. E outra coisa, que não tratem as pessoas de forma diferenciada, que todos tenham os mesmos direitos. O que eu desejo para Londrina é que se trabalhe a cidade de forma a garantir o mínimo de condição humana possível, não essa versão mentirosa e incapaz de mudar o perfil da cidade.

A cidade tem um perfil muito minimalista, muito pequeno, muito medíocre. Uma coisa que eu vejo que Londrina precisa fazer, com certa urgência, é lembrar que nem todos têm as mesmas condições. E que deve se lutar para que todos tenham condição de crescer como ser humano. Uma outra coisa: o preconceito que se tem na cidade em relação às famílias e às pessoas de periferia, o preconceito que se tem na cidade em relação àqueles que não aceitam a ordenança do Estado. Existe muita dificuldade para garantir o mínimo de vida humana. Então é isso que eu quero para Londrina. Eu quero que as pessoas sejam felizes e que o Estado garanta para aqueles que não têm a condição de avançar, de crescer, de construir uma vida melhor, que eles tenham todo o suporte do Estado para melhorar, que a cidade se torne um espaço de amor, profissionalismo, humanismo e realidade. É isso que eu desejo para os próximos 90 anos da cidade de Londrina.”

Foto: Vivian Honorato

Fátima Beraldo, atual secretária de cultura de Londrina; gestora de promoção da igualdade racial por mais de dez anos:

“Londrina é uma cidade vibrante que se destaca por sua diversidade, hospitalidade e uma cultura rica e potente. Uma cidade acolhedora marcada pela inovação, tecnologia e capacidade empreendedora. Cidade que se constrói na medida em que valoriza sua gente, seus artistas e seus talentos e que oferece muitas oportunidades para o desenvolvimento pessoal e profissional a todos que escolheram, aqui para viver. Nos seus 90 anos, Londrina, se caracteriza por reunir muito, ainda, do entusiasmo brejeiro de adolescente, ao tempo que espelha a coragem e o vigor da jovem senhora que se tornou; uma cidade moderna comprometida com o progresso, avanços e conquistas. Uma cidade à frente do seu tempo; um lugar para viver bem. Vida longa a Londrina. Paz e sucesso a todos os londrinenses!”

 

Haydee Melo, representante do movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta:

“Como moradora de Londrina há quase 38 anos, acompanho o desenvolvimento da cidade ao longo dessas três décadas e vi muitos processos serem instalados, outros melhorados e outros, como em toda cidade, defasados… Nossa visão hoje é focada na área de segurança pública, nos órgãos governamentais que delegam essa cidade, autoridades e suas competências.

Vemos índices, estatísticas, números, que apenas aumentam e contribuem para o desenvolvimento crescente dessas ascendentes na área de segurança pública.

Hoje vemos a defasagem nos órgãos de segurança pública, sobre responsabilidade, credibilidade e por desenvolvimento e capacitação do profissional que tenha um perfil adequado para me representar na sociedade.

Não vemos progresso, não no sentimos seguros, não vemos lideranças comprometidas com a sociedade no intuito de entender o que a população local passa referente aos órgãos de segurança, os meios jurídicos, os meios legais que defendem o direito do cidadão. Agentes incapacitados, agentes despreparados. Uma sociedade sem resguardo, uma sociedade sem proteção, uma sociedade que tem tido o direito de proteção violado por esses agentes.

Desejamos hoje políticas públicas que envolvam a voz de uma sociedade organizada, que envolvam a voz de um povo, que deem legalidade e liberdade para que essa expressão (fala do povo e suas lutas particulares), e que sejam levadas as autoridades e, acima de tudo, analisadas com seriedade. Desejo uma análise profunda sobre dados, sobre estatísticas, sobre números do que a segurança pública local tem se tornado para os cidadãos, seja ele qual o seu nível social, seja ele qual a sua classe profissional.”

Ismael Giachini Frare, assistente social, gestor do Centro Juvenil Vocacional:

“Desejo que Londrina se reconheça terra indígena, revisando sua história marcada pelo sangue dos povos originários.

Outro desejo é que as juventudes londrinenses sejam respeitadas como sujeitos de direitos. Londrina, a cidade universitária, tem negligenciado os sonhos e esperanças da juventude. Estou convicto que reparação histórica e juventude são temáticas fundamentais a serem enfrentadas em nossa cidade.”

Josemar Lucas, ator e educador:

“Eu desejo que Londrina continue sendo uma cidade acolhedora e dê oportunidades para todas as pessoas, para crianças, adultos e idosos, e que essas oportunidades possam ser construídas também coletivamente, tanto no âmbito da educação, quanto no âmbito das artes.

Que as pessoas consigam participar coletivamente do planejamento e da execução das políticas públicas para as áreas da educação, da cultura, do esporte, e que essa execução possa ser uma execução onde a emancipação humana seja o foco principal. E que, aliado ao amor ao livro, às leituras, ao conhecimento; aliado à poesia, às artes, possamos, então, ter uma sociedade mais participativa, emancipada, democrática e que saiba conviver com todo o belo que a humanidade construiu e constrói cotidianamente.

Isso é possível, basta que a gente tire o foco do individual e passe para o coletivo; saia do âmbito da competição e passe para o âmbito da cooperação; cooperação mútua entre as pessoas, crianças, jovens, adultos, de todas as classes, e, sobretudo, que a população periférica e as classes menos favorecidas economicamente possam ser inseridas proporcionalmente dentro desse planejamento e execução das políticas públicas da educação e da cultura.”

 

Juuara Barbosa, ativista dos direitos LGBTQIA+ e dos movimentos negros:

“Eu, Juuara, enquanto ativista por justiça social, travesti preta, desejo muito mais anos, que venham mais 90 anos, e que Londrina consiga ser inundada por bom senso, consciência de classe, respeito e inclusão, mas, sobretudo, respeito e diversidade. Infelizmente não são todos os lugares que são acolhedores para pessoas que são parecidas comigo e que têm a cor da minha pele, mas Londrina é uma cidade gostosa, que me acolheu, que acolhe geral, que eu gosto muito. Já sou uma cidadã pé vermelhense, inclusive. Então eu desejo isso, muita esperança de que as coisas fiquem bem.”

 

Karime Peres, comunicadora popular, produtora cultural, integrante da Frente Feminista de Londrina:

“Eu desejo que Londrina seja uma cidade mais inclusiva e segura para todos, principalmente para nós, mulheres. Desejo igualdade de oportunidades, acesso igualitário ao mercado de trabalho; que a gente tenha uma evolução na cidade justa, uma educação que conscientize as crianças quanto às desigualdades, programas educacionais que promovam o respeito e a equidade de gênero desde a infância. Campanhas contra o machismo, contra o racismo e a violência de gênero.

Desejo que a gente tenha saúde e bem-estar. O acesso universal a serviços de saúde, incluindo saúde reprodutiva, planejamento familiar e apoio psicológico. Que a gente tenha programas na cidade que incentivem essas políticas voltadas para a saúde.

Desejo que a gente tenha mais participação política e social das mulheres. Que a gente tenha políticas voltadas para isso, para esse incentivo, espaços de diálogo e fóruns para discussão e implementação de políticas públicas femininas. Que a gente tenha uma infraestrutura inclusiva, tanto no transporte quanto no urbanismo. Acho que o respeito à diversidade precisa ser atuante e que a gente tenha uma Londrina melhor para todas nós. Que as mães consigam criar suas crianças com dignidade. É isso.”

Lua Gomes, coordenadora da CUFA no Norte do Paraná e gestora do Conexões Londrina:

“Eu desejo que Londrina tenha políticas públicas com um olhar para quem ela realmente precisa acontecer. Que a população londrinense seja representada por seus governantes e gestores, e pessoas atuantes nas políticas públicas, com comprometimento e respeito aos direitos humanos e ao senso de coletividade, porque o que nós conduzimos e produzimos é necessário que haja uma interação direta com os direitos das pessoas.”

 

Martha Ramírez Gálvez, antropóloga, presidenta de Néias-Observatório de Feminicídios de Londrina:

“Desejo que se respeite a Constituição Federal de 1988 nos três poderes, de maneira que possamos ter uma cidade verdadeiramente democrática e inclusiva, que respeite os direitos para todas as pessoas consagrados constitucionalmente, mediante a formulação de políticas públicas que efetivem tais direitos.

Desse modo, desejo que serviços públicos municipais, especialmente nas áreas de educação, saúde, moradia e segurança, sejam efetivos, de qualidade e para todas e todos os munícipes. Que a cidade seja administrada numa perspectiva laica e democrática, articulada com iniciativas das universidades e dos movimentos da sociedade civil.”

 

Rita de Cássia Lemos, coordenadora do Coletivo de Mulheres Ativistas do Vista Bela (Mavibe):

“Eu desejo que Londrina, para 2025, tenha mais saúde, tenha mais dignidade e que os direitos das pessoas menos favorecidas sejam a prioridade tanto da gestão quanto das pessoas. Que a empatia faça por parte do dia a dia e que a solidariedade seja verdadeira e não camuflada de sobras ou de migalhas. Londrina merece mais e não é só em infraestrutura, mas em dignidade para os seus moradores, para as famílias que residem nessa cidade tão linda, tão icônica, tão cheia de arte, tão cheia de cultura.”

 

Sandra “Flor” Ferrer, coordenadora política do Assentamento Eli Vive:

“Parabéns Londrina, cidade maravilhosa de se viver, desejo vida longa e muito progresso, me sinto parte com a terra vermelha que produz o alimento, que alimenta o corpo e a alma, quero juntas crescer em emoções, conquistas…que você, Londrina, seje a união do Campo a Cidade…que seje um crescimento com olhar carinhoso para os caminhos floridos e produtivos economicamente, politicamente, humano. Que as diferenças não seje as diferenças para a construção de uma bela parceria!

Orgulho de ser Pé Vermelho.”

 

 

 

Saraí Brito, mãe atípica, escritora, fundadora da ONG Autimizar, gestora inclusiva:

“Londrina, 90 anos, desejo 90 motivos para ser uma cidade inclusiva, diversa e acessível.

Que suas calçadas sejam para caminhar a criança, o trabalhador, o turista e a pessoa com deficiência. Que suas terras vermelhas que um dia foi cenário para a capital do café, muitos cafés sejam tomados, comemorando uma Londrina referência em dignidade, humanitarismo, cidadania e mobilidade.”

 

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