Povos Avá Guarani da tekoha Yvy Okaju vem sofrendo ataques que deixaram feridos, inclusive uma criança
Cecília França
Fotos em destaque recebidas pela reportagem mostram indígenas feridos
“Estamos cercados pelos pistoleiros; estamos pedindo socorro”, diz uma mulher indígena, em áudio desesperado, ao qual a reportagem teve acesso. Ela é moradora de um território vizinho à tekoha Yvy Okaju (antes chamada de Y’Hovy), Terra Indígena (TI) Guasu Guavirá, localizada entre Guaíra e Terra Roxa, no oeste do Paraná. “Estamos em um barraco aqui cheio de crianças. Pedimos socorro, precisam fazer alguma coisa por nós”, continua a mulher. O áudio teria sido gravado na sexta-feira, dia 3.
Os novos ataques no Oeste do Paraná começaram nos últimos dias de 2024, segundo denúncia do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e persistem. Houve vítimas, incluindo uma criança. “Na avaliação dos indígenas o ataque foi surpresa, mas muito bem planejado pois há vestígios e rastros dos pneus de motos em vários locais do tekoha”, informa o Cimi, que atribui os ataques a agricultores.
O Coletivo Ekoa, ligado ao PSOL, divulgou vídeo sobre os ataques em suas redes.
A região vem sendo palco de ataques desde que os indígenas iniciaram a reocupação do território. Em julho de 2024, em evento do Cimi em Brasília, uma indígena moradora da região denunciou os ataques que vinham acontecendo há meses e pediu providências. Poucos dias depois, o governador Ratinho Jr., defendendo o direito dos agricultores às terras, deu uma declaração controversa, classificando os indígenas no Oeste do Estado como “índios paraguaios”.
O departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) reagiu. Leia aqui: “Os Guaranis existem antes do Brasil, antes do Paraguai, do Paraná”
De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, as áreas em disputa já foram delimitadas, mas estão com processo de demarcação pausado por contestações judiciais de fazendeiros.
Críticas à Força Nacional
O Cimi divulgou reclamações de indígenas da região sobre a atuação da Força Nacional, autorizada a operar no território desde meados do ano passado. Segundo eles, “passou pelo local, tirou umas fotos e foi embora e a gente continua aqui, tem movimentos suspeitos ainda na plantação de eucalipto que fica a mais ou menos uns 50 metros, fica muito próximo”.

Outra reclamação direcionada à Força Nacional é de que “apesar de eles afirmarem que foram apenas tiros de rojões, que é apenas foguete”, os indígenas comprovaram por meio de vídeos que houveram disparos de arma de fogo letal.
“Estamos cansados de tudo isso, eles precisam fazer realmente o trabalho deles, que é proteger a vida dos Guarani aqui”, desabafa uma liderança que teve sua casa destruída pelo fogo.
Membro da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, o deputado federal paranaense Tadeu Veneri (PT) diz que a persistência dos conflitos mostra que as ações tomadas até o momento não surtiram efeito. Em nota, ele cobra atitudes concretas das autoridades.
“Os conflitos em terras indígenas na região oeste do Paraná persistem, mesmo com a atuação de órgãos federais e a presença da Força Nacional. A contínua agressão aos indigenas e a escalada da violência demonstram a necessidade urgente de reforçar a segurança e punir os responsáveis por crimes”, afirma.
“A sociedade cobra respostas mais eficazes da União, do Ministério da Justiça e de outros órgãos para garantir a proteção dos direitos indígenas e restabelecer a paz”.
O deputado acrescenta que “O respeito à Constituição e aos direitos indígenas deve ser tratado como prioridade inegociável.”
