Por: Vinícius Fonseca

“Idiota, imbecil, débil mental”, você acha esse tipo de termo ofensivo? Você se sentiria ofendido caso fosse chamado assim por alguém? Pois, foi assim que o governo de Javier Milei, da Argentina, classificou as Pessoas com Deficiência (PcDs), em um documento oficial, de nada mais, nada menos, que a Agência Nacional de Deficiência da Argentina.

Não, você não entendeu errado, a instituição, que existe para defender os interesses dos PcDs na Argentina foi a responsável por confeccionar um documento em que tais pessoas foram mencionadas de forma pejorativa. Claro que após a repercussão negativa mundo a fora, a Agência se manifestou dizendo que fará as devidas alterações no documento.

Talvez existam quem defenda hipótese de que se o documento for alterado, o deslize possa ser esquecido, ou pior, temo pela existência daqueles que façam pouco caso do ocorrido e justifiquem dizendo que antigamente era comum o uso desses termos para classificar pessoas com deficiência, então não tem nada demais no ocorrido.

Não é o caso deste que vos escreve. Não há como fingir que a situação foi, ou será contornada com uma mera correção. Quem atua em instituições voltadas ao desenvolvimento de políticas de inclusão, ou assistência à pessoa com deficiência, como é o caso da Agência, deveria ser e estar preparada para isso. Preparo que a faria não cogitar o uso de tais terminologias em seu dia a dia, quanto mais em um documento oficial.

Esse episódio não pode ser esquecido em razão do que ele representa. Ele mostra que, existem pessoas despreparadas para tratar de temáticas PcDs, ocupando justamente os espaços que deveriam ser de pessoas com deficiência, que vivem essa realidade, ou especialistas nesses temas. Que possam debater com a sociedade as melhorias necessárias e possíveis para esse público.

O cenário é preocupante e acende um alerta: Será que estamos retrocedendo nas políticas de inclusão? Será que tais pautas foram “sequestradas” por pessoas que tem pouco ou nenhum interesse em promover uma sociedade mais igualitária e inclusiva? Esses são os questionamentos que ne faço e gostaria que vocês leitores pudessem refletir comigo.

No link a seguir compartilho uma matéria da CNN Brasil apresentando um pouco mais do caso:

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/governo-milei-chama-pessoas-com-deficiencia-de-imbecis-e-debeis-mentais/

Eu tinha esperança em 2025 como um ano de avanços, ainda que nossos avanços venham sendo mínimos nos últimos anos, mas a vida real parece sempre estar pronta a pregar uma peça na gente. Talvez você pense, “Vinícius, você está exagerando, o Brasil está bem, esse é um problema da Argentina, não precisamos nos preocupar tanto assim”.

A isso eu respondo que, gostaria de ter o seu otimismo e a sensação de que o problema dos outros não são os nossos. Mas a verdade é que quando se trata de inclusão da pessoa com deficiência, o problema de um deve ser o problema de todos, independente de sua nacionalidade, afinal, em caso de viagem, a pessoa com deficiência não deixará de ser pessoa com deficiência para ir à Argentina.

Além do mais, o ocorrido foi no País vizinho, mas mesmo no Brasil, tivemos um episódio tão desolador quanto o argentino. Basta lembrar que, no último dia 23, o jornalista e escritor, Marcelo Rubens Paiva, que é pessoa em cadeira de rodas, foi agredido ao participar de um bloco pré-carnaval em São Paulo.

Dois países diferentes, cometendo violências contra pessoas com deficiência. Uma a física, como no caso de Paiva, a outra, a moral, e ainda por cima institucionalizada. Não há como não se preocupar. Não há como ficar calado.

Um velho ditado diz que, principalmente no Brasil. “O ano só começa depois do carnaval”. Tomara que seja verdade, porque se 2025 já começou assim, então começou dando passos para trás.

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…