Por João Guilherme Aldegueri Marques*

“Adolescência”, a famosa minissérie da Netflix, se encontra entre os assuntos mais comentados no mundo atualmente, mas o que isso nos diz?

O seriado aborda a história de Jamie, um garoto de apenas 13 anos acusado de cometer um crime hediondo, motivado pelo ódio às mulheres e acuado pelo sentimento pessoal de impotência direcionado às suas relações. A história em questão se trata de uma ficção, mas será mesmo que adolescentes como Jamie são fictícios?

A Machosfera é o nome popular dado a um grupo social (em sua grande maioria homens héteros e cisnormativos), na faixa etária dos 11-65 anos. Esse grande grupo é subdividido em inúmeras repartições ideológicas, e que recebem nomes específicos:

Incels: celibatários involuntários;

Red Pills e MGTOWs: ativistas pelos direitos dos homens;

Pick Up Artist: artistas da sedução, que empregam e ensinam técnicas para abordar e conquistar mulheres.

Todos esses grupos que compõem a chamada Machosfera possuem uma característica em comum: a misoginia.

De modo especial, trato aqui do incelismo, que diz respeito ao tema abordado pelo seriado.

Os incels se caracterizam pela abstenção “forçada” das relações amorosas e sexuais. Segundo eles, existe um motim liderado pelas mulheres, que propagam um movimento de exclusão e humilhação dos homens, levando-os a exercerem o celibato de maneira involuntária.

Mas como pensam? O que fazem? Onde se encontram?

Esses jovens costumam possuir uma visão de mundo moldada a partir de frustrações sociais, baixa autoestima, visão distorcida de si e da realidade, e a influência de grupos criminosos presentes na internet (em especial na Deep Web).

Eles acreditam terem nascido com uma desvantagem, sendo o sucesso romântico e social impossíveis para eles. A culpa por essas questões se deve a fatores externos (como a genética e/ou padrões de beleza). A inveja é um sentimento predominante, e é direcionada ao ódio por homens que obtêm sucesso com mulheres (chamados de “Chads”), sendo, nesse sentido, as mulheres responsáveis por seu isolamento social.

Esses meninos acreditam que as mulheres só se interessam por um determinado padrão de homens: altos, musculosos e ricos (chamados de “Alfas”). Dessa forma, a aparência física é totalmente determinante nas relações, o que os empurra para um declínio pessoal baseado na autopercepção degradante de si. Os incels acreditam fielmente que a realidade na qual estão inseridos é não só inevitável, mas irreversível, o que os leva a um nível de sofrimento psíquico alarmante. Não existe apreço por qualquer espécie de vida, nem mesmo pela sua própria. Esse sofrimento, ligado aos ideais misóginos, acaba levando-os à concretização de atos extremamente violentos contra si e contra os outros.

As ações criminosas geralmente se iniciam a partir de discursos de ódio, e com o passar do tempo é elevada para níveis ainda mais preocupantes. A grande maioria dos crimes são planejados com antecedência, e inclusive divulgados abertamente em fóruns próprios presentes na internet. Esses fóruns são organizados a partir da Deep/Dark Web, uma camada não indexada da internet, e que só pode ser acessada a partir de mecanismos e softwares específicos.

O personagem de Jamie pode ser fictício, no entanto, existem inúmeros meninos inseridos na mesma realidade. Antes de ser desmantelado, o principal fórum incel da Dark Web contava com mais de 20.000 membros, sendo a imensa maioria adolescentes. Estimativas de pesquisa indicam a existência de centenas de outros fóruns, com dezenas de milhares de membros que só aumentam a cada ano.

O crime cometido por Jamie também é fictício, mas infelizmente, todos os anos, dezenas de crimes brutais e desumanos carregam a mesma história:

Elliot Rodger (EUA, 2014)

Elliot Rodger, um jovem de 22 anos, matou seis pessoas e feriu outras 14 em Isla Vista, Califórnia. Ele deixou um manifesto e vídeos no YouTube expressando ódio contra mulheres e contra homens que tinham sucesso com elas. Seu ataque é um dos casos mais emblemáticos do extremismo incel.

Jake Davison (Reino Unido, 2021)

Jake Davison, de 22 anos, matou cinco pessoas (incluindo sua mãe) em Plymouth antes de tirar a própria vida. Ele era ativo em fóruns incel e postava vídeos expressando frustração com mulheres e sua vida romântica.

Ataque em escola de Suzano (Brasil, 2019)

Em março de 2019, dois ex-alunos armados invadiram a Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, São Paulo, resultando na morte de oito pessoas antes de cometerem suicídio. Investigações apontaram que os autores tinham envolvimento com fóruns online que promoviam violência e ideologias misóginas, características associadas à machosfera.​

Atentado em Campinas (Brasil, 2018)

Em dezembro de 2018, um homem armado entrou na Catedral Metropolitana de Campinas, São Paulo, durante uma missa, matou quatro pessoas e feriu outras antes de se suicidar. Análises posteriores indicaram que o atirador mantinha um diário com conteúdos misóginos e fazia parte de grupos online que disseminavam discursos de ódio contra mulheres.​

Ataque em escola de Goiânia (Brasil, 2017)

Em outubro de 2017, um estudante de 14 anos abriu fogo contra colegas em uma escola particular de Goiânia, matando dois alunos e ferindo outros quatro. Relatos sugerem que o adolescente sofria bullying e participava de fóruns online onde expressava ressentimento e isolamento social, temas comuns em comunidades incel.

Referência:

MARQUES, João Guilherme Aldegueri. A Machosfera e o Neonazismo. Trabalho de Conclusão de Curso (Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2025.

*Cientista Social e Mestrando em Comunicação / Pesquisador da Machosfera e do Neonazismo