Feito inédito é resultado de políticas afirmativas concretizadas ao longo de décadas, mas dificuldades de acesso e permanência ainda existem

Cecília França

Pela primeira vez, desde a implementação do Vestibular dos Povos Indígenas, em 2001, quatro estudantes indígenas se formaram simultaneamente na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ana Lúcia Ortiz Martins, Guarani Nhandewa, graduou-se em Psicologia; a Guarani Ivone dos Santos Piraí, em Serviço Social; João Vitor Gomes de Oliveira, que tem duplo pertencimento – Kaingang e Guarani – formou-se em Letras Inglês e a Kaingang Tereza Ferreira de Souza, em Geografia. As cerimônias de colação de grau ocorreram entre 10 e 11 de abril, mês de luta dos povos indígenas.

A conquista histórica tem um valor imensurável para os povos originários, impedidos de acessar o espaço universitário por tanto tempo. Também representa o avanço das políticas afirmativas de acesso, que foram se transformando ao longo do tempo. Até hoje, trinta estudantes indígenas graduaram-se pela UEL. A evasão desses estudantes, que chegou a ser de 54%, hoje é de apenas 9%.

Quando ouvimos os relatos dos recém formados, compreendemos que suas trajetórias contribuem, por si só, para a representatividade de seus povos. Elas mostram que a graduação, longe de ser uma obrigatoriedade, é uma possibilidade real. As dificuldades no percurso, porém, são imensas.

Ana Lúcia Martins na colação de graduação/Foto: Arquivo pessoal

“É difícil acessar a universidade, principalmente para nós que vivemos no território, porque a gente não está dentro da cidade, estamos distante dessa realidade. Mas é mais dificultosa ainda a permanência. As dificuldades não são apenas acadêmicas, envolve questões culturais, sociais, financeiras, emocionais, e a questão da linguagem – especialmente para mim, que ainda falo minha língua materna”, conta Ana Lúcia.

Nascida na Terra Indígena (TI) Porto Lindo, no Mato Grosso do Sul, ela se mudou para o Paraná em 2007, onde viveu na retomada Avá Guarani em Guaíra (Oeste do Estado). Veio para Londrina atraída pela boa avaliação da UEL.

Acesso não garante permanência

As primeiras edições do Vestibular dos Povos Indígenas (Lei n.º 13.134/2001), política implementada nas universidades estaduais do Paraná em 2001, reservava somente três vagas para esses estudantes. Não época não existia sequer a CUIA (Comissão Universidade para os Indígenas) , criada em 2006. Também naquele ano ocorreu a ampliação para seis vagas de acesso, por meio da Lei 14.995/2006. Ainda é pouco e a luta pela ampliação do acesso é permanente.

“Existe uma demanda grande sobre vagas para estudantes indígenas. Acho que o governo deveria abrir mais, apesar dos desafios que encontramos para permanecer”, opina Tereza Ferreira, formada em Geografia aos 60 anos.

No meu caso, que vim do território de retomada – um povo indígena invisibilizado, que sofre muito impacto das desigualdades sociais – temos dificuldades de acessar esses espaços. Muitos conseguem até passar nos vestibulares indígenas, mas não conseguem permanecer, porque não há uma política efetiva que faça esse acolhimento. Então a gente vivencia muito esse sentimento de não pertencimento, de solidão, o que acaba afetando a permanência”, analisa Ana Lúcia Martins.

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Ciclo mudou percurso

Dentre as dificuldades enfrentadas na UEL, os formandos de 2025 apontam adaptação ao ambiente acadêmico e à cidade; preconceito e discriminação no ambiente universitário; custo de vida e dificuldades financeiras.

A dificuldade com a língua, a dificuldade com a vida urbana, são fatores que acabam influenciando na evasão das universidades. Aí entra o papel do Ciclo Intercultural de Iniciação Acadêmica, que é uma política afirmativa proposta pela UEL”, explica João Vitor Gomes, formado em Letras Inglês aos 23 anos.

O Ciclo Intercultural, política própria da UEL, estabelece que o primeiro ano dos estudantes indígenas seja de adaptação.

João Vitor em atividade do Ted talks e Cope durante o curso de Letras/Foto: Arquivo pessoal

Em 2012, fizemos uma oficina de planejamento estratégico e emergiu a ideia de um ciclo de inciação acadêmica. Começamos com o Ciclo em 2014 e a partir dele, invertemos a lógica do acolhimento, da permanência. Eles não entram com uma escolha definitiva. Retomam conteúdos do Ensino Médio, reflexões sobre questões étnicas e, ao mesmo tempo, o manejo das atividades acadêmicas”, explica o coordenador da CUIA, Wagner Amaral.

Para ele, a formação inédita de quatro indígenas simultaneamente resulta desse trabalho. Na próxima colação ele espera que sejam cinco. Amaral destaca os avanços demonstrados por outros indicadores, como a redução do tempo de permanência.

“Até 2012, eles ficavam retidos no primeiro ano. Depois mudavam de curso, ficavam mais dois anos retidos, não conseguiam avançar. E isso por uma série de motivos: desde a falta de apoio, a precariedade da escolarização, o valor muito reduzido da bolsa…então, conforme fomos criando vínculos e estratégias de pertenciamento pela CUIA, criou-se um outro movimento. Agora eles estão conseguindo avançar”, conclui.

Dificuldades tecnológicas

Foi na universidade que a Guarani Ivone Piraí, 42 anos, teve seu primeiro contato com um computador. Em um ano de Ciclo Intercultural, aprendeu muito da tecnologia necessária para tocar os estudos, mas dificuldades ainda surgiram no percurso.

“Enfrentei diversos desafios, mas o que me marcou muito foi a dificuldade com as tecnologias e a linguagem acadêmica. Eu cresci num ambiente distinto de tudo isso. E embora eu tivesse um sonho de fazer um curso superior era algo muito distante de mim, parecia impossível”, conta ela.

Inove diz que o apoio da coordenação da CUIA e a inclusão em projetos de pesquisa foram essenciais na aprendizagem da linguagem acadêmica. Agora ela está cursando Mestrado em Serviço Social e Política Social na UEL.

“Pelo fato de eu não dominar as ferramentas tecnológicas, me sentia desmotivada. Pensei em desistir em alguns momentos, mas vejo o quanto valeu a minha dedicação e sou grata pelo apoio que tive”, comemora.

Além da família e professores, Ivone cita a importância do apoio psicológico oferecido pelo SEBEC (Serviço de Bem Estar à Comunidade) e da ARTEIN (Articulação dos Estudantes Indígenas da UEL).

Tereza Ferreira conta que experimentou uma dificuldade extra: o etarismo. “Às vezes, preconceito da parte de outros alunos devido à minha etnia e à minha idade. Superei pela coragem e vontade de concluir meu curso”, relata.

Assista ao agradecimento de Tereza na Colação de Grau:

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Racismo estrutural e institucional

“Outra dificuldade é a questão do racismo, que, infelizmente, ainda é muito presente na nossa sociedade e dentro das universidades públicas a gente também encontra”, acrescenta João Vitor.

Este é um ponto que não passou despercebido por Ana Lúcia Martins na sua trajetória acadêmica. Em 2023, ela enfrentou um episódio de racismo institucional durante um evento dentro da própria universidade e denunciou publicamente. O enfrentamento é sua forma de reafirmar seu espaço.

“Um dos principais desafios que enfrentei foi o choque cultural e a falta de compreensão de alguns professores sobre minha presença no curso, da minha realidade indígenas, de onde eu vim, do meu questionamento, de querer pautar a causa indígenas nesse espaço”, detalha.

Ana constatou a ausência de espaços de discussão sobre saúde mental e sofrimento indígena no espaço acadêmico. “Foi um grande conflito que enfrentei comigo mesma na minha trajetória, além do sofrimento de racismo de alguns professores e da instituição, de me colocarem em um lugar de pessoa inferiorizada. Também o desafio de ser mãe e fazer um curso integral. Ter que me movimentar enquanto pessoa indígena dentro da univerisdade e dar conta das coisas da casa, da família” acrescenta Ana.

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Da universidade para a aldeia

Ana Lúcia vem contribuindo com seu povo pautando a causa indígena dentro da universidade e, a partir de sua experiência, espera contribuir concretamente com a saúde mental nos territórios.

“Depois da formação é continuar a luta. Levar o conhecimento da psicologia de forma mais respeitosa, de acordo com a realidade da comunidade indígena”, explica.

“Vou precisar adaptar tudo que eu aprendi para que possa, de fato, acolher as pessoas indígenas. Quero muito trabalhar de forma que o saber acadêmico dialogue com o saber indígena Guarani Nhandewa”.

Ana Lúcia no Acampamento Terra Livre (ATL), mobilização realizada anualmente pelos povos indígenas em Brasília/Reprodução Instagram

 

João Vitor está pesquisando no Mestrado o resgate da língua Kaingang na Terra Indígena (TI) Barão de Antonina. Com isso, espera impedir o apagamento de seu povo.

“Acredito que a minha contribuição vai ser essa, de propor estratégias para recuperar e manter a língua Kaingang, porque acredito que a língua reflete a cultura e a identidade. Então se a gente perde a língua, acaba perdendo nossa identidade. Não quero que isso aconteça, quero que nossa cultura não seja apagada da história”.

Ivone Piraí, durante as pesquisas realizadas com profissionais indígenas egressos da universidade, observou a ausência de demandas formais para atuação em sua área de formação, o Serviço Social, dentro dos territórios Paraná. “O que não significa ausência de necessidades”, pontua.

De acordo com ela, a profissão é pouco compreendida pelas comunidades. “Assim como grande parte da sociedade não indígena, muitos parentes indígenas não compreendem o que faz um assistente social, muito menos a dimensão da profissão”.

Ainda assim, ela acredita que já vem contribuindo com seu povo a partir da pesquisa e da escrita sobre esses desafios, da urgência nos territórios e da escassez das políticas de ações afirmativas. “Falo da importância da implementação destas políticas públicas e políticas afirmativas que sejam específicas e efetivas para nós”.

A partir da graduação, e agora como pesquisadora indígena no Mestrado, Ivone acredita que poderá avançar, contribuindo na formulação e implementação de projetos mais abrangentes, ainda que não seja possível atuar diretamente dentro do território.

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