José Maria Aranda Neto foi morto pela PM com 15 tiros; MP ignorou o que disseram as testemunhas

Nelson Bortolin (publicado originalmente no Portal Plural)

Foto em destaque: José Maria Aranda Neto/álbum de família

Ao mandar desarquivar o inquérito que investiga a morte do londrinense José Maria Aranda Neto, a promotora Camila Adami Martins, da Subprocuradoria-Geral de Justiça para Assuntos Jurídicos (SubJur), do Ministério Público do Paraná (MPPR), disse que há indícios de homicídio doloso praticado pelos quatro policiais envolvidos na abordagem. Mesmo assim, o caso foi arquivado em primeira instância e a família recorreu da decisão.

“Assim, estando presentes a prova da materialidade e indícios de autoria da prática do crime de homicídio doloso, não é de se acolher a promoção de arquivamento realizada em 1º grau, devendo-se designar novo membro do Ministério Público para atuar no presente caso penal”, escreveu a promotora.

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O caso

No dia 21 de fevereiro de 2022, segundo o Boletim de Ocorrência, um homem em uma motocicleta chegou para a equipe de quatro policiais em patrulha na Vila Nova (região central de Londrina) e avisou que tinha acabado de se envolver numa discussão de trânsito com um motorista de carro que havia mostrado uma arma para ele.

Esse motorista estaria num veículo GM Tracker de cor prata. O motociclista teria memorizado as letras BCD da placa do carro. Com base nessas informações, a viatura saiu em perseguição à pessoa supostamente armada.

Na Avenida Wilston Churchill (zona norte), os policiais teriam avistado um veículo com aquelas características fazendo manobra perigosa. Quando conseguiram abordá-lo, o motorista teria apontado uma arma para os policiais. E, por isso, foi morto com 15 tiros. Era José Maria Aranda Neto, que à época tinha 25 anos.

Por se tratar de uma via de intenso tráfego, muita gente parou para saber o que havia acontecido. Familiares de Aranda, ao saberem do caso, também foram para o local. E, depois, deram depoimentos à Polícia Civil dizendo que viram um PM entrar no carro depois de o jovem ser morto. Esse policial poderia ter plantado o revólver no veículo já que, segundo a família, Aranda não tinha arma.

Os depoimentos das testemunhas não foram levados em conta pelo MP em primeira instância. Esse foi apenas um dos problemas visto no inquérito pela promotora Camila Martins.

A quantidade de tiros disparados foi outro questionamento feito por ela. “Ainda que, existisse o ataque iminente (de Aranda aos policiais), a quantidade total de tiros, o expressivo  número de disparos efetuados por cada policial, o grande potencial lesivo dos armamento empregados e as partes do corpo nas quais a vítima foi atingida distanciam a conduta dos agentes de segurança de qualquer moderação e proporcionalidade”, alega.