*Por: Vinícius Fonseca

Já é tema recorrente aqui: “As pessoas com deficiência têm salários menores e oportunidades mais comuns às vagas com menores exigências, ou trabalhos mais braçais, desde que não muito pesados a ponto de agravarem suas lesões, ou não completarem a execução da tarefa”.

Para alguns isso pode parecer cuidado da empresa com a segurança do funcionário e até algo justo, já que eles tendem, na cabeça de muitos, terem maior dificuldade na execução e raciocínio de determinadas atividades.

Pesa ainda o fato de que a lei obriga a contratação de pessoas com deficiência, já que por lei, empresas com 501 ou mais empregados precisam ter 5% do seu quadro composto por pessoas com deficiência. (PcD).

Os números são engraçados. Porque eles podem reforçar estereótipos ou desmentir falácias lógicas. Notem o seguinte; no último dia 23 de maio, o Governo Federal, em sua página, postou uma matéria sobre os números do Censo 2022, promovido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre o público PcD.

https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2025/maio/pela-primeira-vez-ibge-divulga-dados-sobre-pessoas-com-deficiencia-no-brasil

Deixo o link acima para quem quiser mais detalhes, mas gostaria de refletir sobre alguns dados. Somos quase 17 milhões, dados muito próximos aos que já se imaginava anteriormente. Sendo 14,4 milhões de pessoas com deficiências diversas e 2,4 milhões de pessoas autistas. Aqui vale uma nota: “É a primeira vez que o Censo trata o autismo de forma separada”, isso tem suas vantagens.

No meu ponto de vista, saber com clareza quais são as deficiências e quantas são as pessoas em cada enquadramento permite ao Estado pensar em políticas de acessibilidade e inclusão mais contundentes e eficientes.
Mas vamos voltar à origem do texto. Os números e suas desigualdades.

“No Brasil, o acesso à educação ainda é marcado por desigualdades significativas para as pessoas com deficiência. Entre aquelas com 25 anos ou mais, 63,1% não completaram o ensino fundamental — quase o dobro da proporção observada entre as pessoas sem deficiência (32,3%). Além disso apenas 7,4% das pessoas com deficiência concluíram o ensino superior, frente a 19,5% entre as pessoas sem deficiência”, diz um trecho da matéria.

Bom, se entre as pessoas com deficiência é difícil encontrar mão-de-obra qualificada, já que a maioria sequer completou o ensino médio, então é justo que ganhem menos, correto? Esse raciocínio parece lógico, no entanto, o que se percebe é que mesmo os PcDs mais qualificados são vítimas das desigualdades salariais, como já vimos em textos anteriores.

Em poucos meses, o Estatuto da Pessoa com Deficiência vai completar 10 anos de sua assinatura, durante o Governo Dilma, ou a data quando passou a valer de verdade, já que a lei é dos anos 90.

Quem vive o dia a dia da causa PcD e, principalmente, quem é PcD vivencia diariamente os reflexos das desigualdades relacionadas às pessoas com deficiência. A sensação, por vezes, é a de que se não houvesse o amparo legal, nós estaríamos vivendo à margem da sociedade.

Com um olhar mais crítico, os números demonstram que estamos. É preciso tornar as escolas mais inclusivas. Identificar razões para a evasão escolar e combater o mal pela raiz. Educar nossas crianças contra o Bullying e mais abertas as diferenças. Eu fui vítima disso, só não desisti da escola porque minha família e a forte crença na transformação pela educação não deixaram.

As empresas têm que deixar de ver a Diversidade e a Inclusão apenas como marketing, ou mero cumprimento de lei, e passar a apostar nos empregados com deficiência, do mesmo jeito que apostam em outros funcionários. Se você é líder hoje, alguém apostou em você, ninguém nasce líder.

Parece clichê, mais aqui vai mais uma repetição. Os números explicam a desigualdade, mas o modo como os encaramos e trabalhamos com eles é que realmente ditam o nosso caminho. E esse caminho pode ser incrível, se vencermos preconceitos e começarmos a construir uma nova realidade.

 

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…