Por Vinícius Fonseca*

O título da coluna de hoje é mais do que apenas uma afirmação. Quem me conhece pessoalmente, ou quem vier a me conhecer, não precisará de muito para saber que eu sou Pessoa com Deficiência (PcD).

A minha deficiência afetou o meu modo de andar, me deu “lindos” olhos estrábicos, os quais ainda não quis corrigir por meio cirúrgico, mas para além dessas questões físicas, eu gosto de me assumir como pessoa com deficiência.

A necessidade de escrever sobre isso hoje surgiu não da vontade de me afirmar ou reafirmar, mas de convidar outras pessoas com deficiência a refletirem sobre a importância de se entenderem como tal.

Vi um post em uma dessas redes sociais em que uma moça, muito bonita por sinal, dizia que não costumava se dizer PcD, pois não gostava que colocassem a deficiência dela, baixa visão, à frente de todo o seu potencial e histórico de vida.

Ela comentava que desde pequena ouviu muita frase preconceituosa e capacistista, (desde: “você consegue enxergar a minha mão”, até o famoso “para mim você nem tem deficiência”, ou coisa semelhante, da qual não me recordo com precisão). Também foi ensinada que precisaria compensar sua deficiência de alguma forma.

Segundo o relato, a compensação veio trabalhando a sua imagem. O que realmente não posso negar, era um chamariz. Até por isso, parei no post e comecei a ler o texto todo. Depois fui aos comentários. Não foi difícil encontrar gente questionando se ela era de fato PcD, ou espantada com o fato de ela estar assumindo sua condição publicamente, pois sequer parecia que tinha enquadramento.

Quando terminei de ler tive vontade de vir aqui e escrever a respeito. Tive vontade porque já estive naquele lugar. O lugar de quem pensa duas vezes antes de se assumir pessoa com deficiência, por receio de que coloquem a deficiência à frente de qualquer contribuição que você possa fazer.

Leia também: Entidades se mobilizam pela ampliação do Teste do Pezinho

Não julgo a autora do post, aliás, ela me parece alguém bem resolvida, mas eu entendo esse incômodo, eu já estive ali. Você tem um bom currículo, você escreve livro, você fala com gentes e gentes e o melhor reconhecimento que recebe quando se trata da sua deficiência é o “para mim é como se você não tivesse nada”.

Ao mesmo tempo, assumida a deficiência – às vezes ela é aparente demais e você a assume até mesmo sem querer, como no meu caso – você enfrenta um olhar e atitudes de indiferença, ou pena.

É como se, mesmo sem dizer, as pessoas estampassem em suas testas algo como: “Acho que você não vai dar conta”, ou, “Olha só para ele, fazendo tudo isso e vocês normais não fazem nem metade”.

Sei que esse olhar muitas vezes surge naturalmente, a pessoa foi ensinada desde sempre a ter essa visão mais capacitista e limitante das coisas. Como se fosse algo plantado nela, semente oriunda de uma sociedade preconceituosa e, portanto, doente.

Por isso, entendo a moça quando diz que não gosta de falar que é PcD, assim como tento ser compreensivo com quem comete esses deslizes ao tratar algo comigo, ou se espantar com o fato de eu ser pessoa com deficiência.

Eu já estive no lugar de quem tenta passar despercebido, mas hoje grito isso aos quatro ventos, como alguém orgulhoso, não da deficiência, mas de quem eu sou por completo. E, sinceramente, espero que esse seja um movimento comum na vida de todas as pessoas com deficiência.

O meu motivo é simples; se eu me mostro como um PcD, me posiciono, quem sabe ao menos um pouco, ajudo a mudar a visão da sociedade sobre as deficiências e assim conseguimos construir um lugar onde a deficiência não vai tomar a frente de quem nós realmente somos.

*Vinícius Fonseca é jornalista e tecnólogo em gestão de recursos humanos com especializações nas áreas de comunicação, gestão e pessoas e educação. Também é escritor de contos e poesia, além de um entusiasta das temáticas relacionadas à inclusão de minorias, sobretudo de Pessoas com deficiência. Iniciou suas colaborações com a LUME em 2023. Sua coluna pode ser lida quinzenalmente, ou quase…